História,

O chão em movimento

Rui Tavares relaciona a história do terremoto que atingiu Lisboa em 1755 a tragédias recentes e ao impacto que teve na forma de pensar

18jul2022 - 12h56 | Edição #60

Recém-publicado no Brasil, este livro notável foi escrito nos idos de 2004 e versa sobre um evento no longínquo ano de 1755. Mas não poderia ser mais atual. Rui Tavares compara o terremoto que destruiu Lisboa em meados do século 18 ao ataque às Torres Gêmeas (2001) e aos tsunâmis no sul da Ásia (2004). Poderia ainda estar falando sobre a pandemia de Covid-19 e seus desdobramentos (2020-22).

“Se possuímos ainda hoje uma memória sólida do lugar onde nos encontrávamos quando se soube do ataque às torres”, é “por experimentarmos aquilo que descreverei como uma impressão de irrealidade: o solo que se pisava parecia diferente e no dia seguinte, ao acordar, muita gente se terá perguntado se tudo aquilo tinha realmente acontecido”. Muitos hão de se lembrar dos fatídicos dias que antecederam o lockdown e de como era a vida antes do que veio e ainda está vindo.

Mas este não é mais um livro sobre eventos que definiram épocas. Escrito com graça e leveza, valoriza a inteligência do leitor. Com prosa arejada, cria espaços de reflexão. A essas qualidades se junta a cuidadosa reconstrução de coisas acontecidas há muito, mas que ainda nos tocam e dizem algo sobre o nosso mundo.


O historiador português Rui Tavares [Divulgação]
 

Na tragédia do terremoto de Lisboa, cruzam-se a história material da modernidade e seus caminhos intelectuais. A obliteração quase completa da capital do reino português ofereceu a Pombal a oportunidade de reconstruir a cidade em conformidade às exigências da administração “racional” ao gosto dos déspotas esclarecidos do Iluminismo. A modernização veio no bojo da destruição. Rui Tavares fala sobre o impacto do terremoto na filosofia, o estrago que ele causou no otimismo da ideia de que “tudo vem para o melhor”. E vincula a imagem da tortuosa “linha narrativa” do romance Tristram Shandy, de Laurence Sterne, à perturbação que o terremoto introduziu nas narrativas históricas em voga na época.

Exercícios de história contrafactual costumam ser inócuos. Este não. Mostra o que o terremoto trouxe a Lisboa

A certa altura, Rui Tavares se pergunta o que teria sido uma Lisboa sem terremoto e um mundo português sem Pombal. Exercícios de história contrafactual costumam ser inócuos. Este não. Mostra o que o terremoto trouxe a Lisboa, permitindo que ela se reconfigurasse. Um ponto alto: a série de mapas que em sobreposição mostram a antiga cidade e a nova, a extensão dos incêndios, as rotas de fuga. Outro: a anedota que relata como Casanova, enclausurado na cadeia pública, viu por alguns segundos abrir-se uma fenda que lhe teria permitido escapar da prisão.

Esses e outros detalhes evocam a presença, nos fenômenos históricos, das causas naturais. Buscar por rotas de fuga em meio ao fogo e aos escombros, ver numa brecha na parede a chance de burlar os decretos da lei, erigir edifícios onde havia pouco existiam outros. A cidade é feita de materiais geológicos, e sua “vida” surge deles. Poderíamos, numa licença poética, considerá-la um organismo. Mas a metáfora tectônica é mais segura. A cidade como fato de superfície, ligada ao solo, abrindo espaços ao seu redor, refazendo as relações entre os seres.

Fenômeno natural

Em 1755 não existiam geólogos nem uma ciência chamada geologia. Mas havia uma teoria da Terra, ou mais de uma. Rui Tavares dá notícia dessa situação: “O Terremoto de Lisboa não acontece, em suma, no vazio. A notícia propaga‑se por essa rede de cartas, impressos e manuscritos e, principalmente, pela rede de contatos sociais que estava na substância da República das Letras. Um jovem alemão, Immanuel Kant, e um espanhol já consagrado, Benito Feijóo, ofereceram explicações naturais para os sismos (a ação de gases subterrâneos na crosta terrestre, no primeiro caso; diferenças de eletricidade entre placas de minerais, no segundo)”. Pouco importa se essas explicações estavam certas ou não. O que interessa, acrescenta o autor, é a decisão de abordar o evento como algo natural, independente de um decreto divino ou da ação humana.

Explicações como as de Kant ou de Feijóo, tratando a destruição de Lisboa como fato geológico, projetam a cidade e o mundo que emana dela, de relações políticas e comerciais, de colonização e escravização, de riqueza e miséria, numa série temporal que excede os estreitos limites da história humana. Fenômeno “cosmopolítico”, o terremoto de Lisboa é também uma chance rara para que se reduzam as coisas humanas à escala do mundo natural. Os desenvolvimentos posteriores da filosofia e das ciências mostram que essa chance não foi desperdiçada.

Essa não é, porém, a mensagem central deste ensaio discretamente engajado. Na conclusão, Rui Tavares lembra que eventos naturais como o terremoto exigem respostas políticas. Elogia Pombal e não precisa se justificar. Tem boas razões para fazê-lo. “A organização de uma resposta pragmática à hecatombe, os primeiros socorros, o ‘enterrar os mortos e cuidar dos vivos’ e o planeamento de uma reconstrução antissísmica salvaram vidas.” Fica em aberto se o século 21 é tão afeito quanto o 18 a tais “respostas pragmáticas” — questão que se põe de forma aguda para os habitantes dos antigos domínios de Portugal no continente americano. Parece-me um motivo a mais para que este livro seja lido nestas terras com toda a atenção.

Nota do editor: A editora Tinta-da-China Brasil é parte da Associação Quatro Cinco Um.

Quem escreveu esse texto

Pedro Paulo Pimenta

É autor de A trama da natureza: organismo e finalidade na época da Ilustração (Editora Unesp).

Matéria publicada na edição impressa #60 em julho de 2022.