História,

Crônicas da buquinagem

Nas calçadas de uma mesma rua parisiense, as livreiras Adrienne Monnier e Sylvia Beach mudaram a vida literária francesa durante o entreguerras

09nov2018 - 17h36 | Edição #4 ago.2017

“Uma loja, uma lojinha, uma barraca de feira, um templo, um iglu, um salão de leitura e às vezes uma livraria bem simples com livros para vender ou para alugar e devolver, e clientes, os amigos dos livros, que vêm para folheá-los, comprar, levá-los. E lê-los” — assim o poeta Jacques Prévert descreve a Maison des Amis des Livres (casa dos amigos dos livros) em seu texto em Rua do Odéon, editado em homenagem à proprietária do espaço.

Local de encontro dos expoentes da cena literária francesa, a Maison vestia o seu próprio nome sem ambiguidade: era a casa onde habitavam os amigos dos livros, em suas mais diversas facetas, para conversações, leituras inéditas, noites musicais e exposições. Adrienne Monnier é a anfitriã, livreira apaixonada, intelectual refinada, escritora, editora e mulher de letras de temperamento amistoso, cuja função nunca parece exprimir simplesmente troca comercial, mas a comunhão.

Em Rua do Odéon, que reúne os seus textos, Monnier parece fazer deles uma vitrine: expõe memórias que vão desde a época da abertura da livraria até seu último ano de vida (a Maison abriu suas portas em 15 de novembro de 1915, no número 7 da rua do Odéon, e fechou apenas 36 anos depois, em 1951). 

No momento em que foi aberta, havia uma demanda por novas livrarias na cidade. Muitos dos antigos livreiros haviam deixado seu posto para se juntarem às Forças Armadas. Monnier estava com 23 anos e, antes, havia sido professora e secretária literária na revista Mercure de France. Em sociedade com a amiga Suzanne Bonnierre, e com o capital inicial que veio através de uma indenização recebida por seu pai devido a um acidente de trabalho, foi possível a realização de seu projeto: ser livreira na famigerada Rive Gauche, com uma livraria que ofereceria não apenas a compra de livros, mas seu empréstimo, pois, segundo ela, “é quase inconcebível que se possa comprar uma obra sem conhecê-la”. Assim, a Maison foi reconhecida como a primeira livraria-biblioteca de Paris, onde era possível não só comprar, como pegar emprestado e fruir a literatura antes de criar uma relação de posse. 

Por sua erudição e domínio das obras, Monnier encarnava a imagem de livreira ideal: o contato com os livros, escritores e leitores davam a ela a justa medida entre a valorização da história literária e a sede de novidade que caracterizava o seu tempo.

Um episódio em particular nos revela o conceito de sua livraria e sua própria prática curatorial: “Um dia, há bem doze anos, um jovem romancista, já bastante conhecido nessa época, dizia ao olhar minha vitrine: ‘Você faria melhor pondo meu livro que se vende como pão em lugar das poesias de Mallarmé de que ninguém compreende nada’. Eu lhe respondi naturalmente que, se seu livro se vendia como pão, ele não precisava de mim e que podia muito bem deixar para Mallarmé o modesto benefício de minha modesta livraria”. Para Monnier, a Maison serviria exatamente a esta função: apresentar aos leitores a moderna literatura, em vez de se entregar à segurança dos livros comerciais e ao conforto dos clássicos.

Lemos, nas melhores páginas do livro, memórias afetivas de encontros, anedotas e alguns trabalhos de crítica literária que incluem as figuras e as obras de Valéry, Georges Duhamel, Jules Romains, Léon-Paul Fargue, Paul Claudel, Aragon, Apollinaire, Breton, Cocteau, Raymonde Linossier, Erik Satie, Gide e mesmo escritores estrangeiros que viveram nessa época em Paris, tais como Benjamin, Rilke, Joyce e Beckett.

Shakespeare and Company

É preciso dizer que o livro se chama Rua do Odéon, e não “A casa dos amigos dos livros”, pois a livraria fazia parte de um contexto mais amplo, extensivo ao outro lado da rua, precisamente no número 12, onde estava a lendária livraria Shakespeare and Company, da jovem norte-americana Sylvia Beach, que abrigava obras de literatura inglesa e norte-americana, e onde também orbitavam os expoentes da geração literária da época.

Sylvia Beach abriu sua livraria ali em 1921 e, em seguida, estabeleceu com Monnier uma relação amorosa. Moraram juntas por 15 anos, no número 18 da rua do Odéon. A vizinhança entre as livrarias e a rede de escritores ao redor marcariam definitivamente a rua do Odéon como o local de encontro da literatura francesa por pelo menos três décadas. Além de livreiras, foram também as editoras de James Joyce: Sylvia Beach editou sua primeira edição em inglês, e Monnier, a edição francesa.

Monnier foi uma protagonista. Certas obras certamente ganharam projeção e encontraram seus pares graças a seu incentivo e olhar generoso às singularidades

Rua do Odéon divide-se em três partes. A primeira revela o conceito da livraria, como foi criada e sob quais fundamentos a livraria-biblioteca seria mantida e gerida. Uma das páginas mais belas do livro está na primeira parte, em um texto chamado “Elogio do livro pobre”. Vasculhando memórias de infância, Monnier busca fazer jus ao livro simples, de encadernação econômica e, por isso mesmo, mais barato. Serão esses os livros mais acessíveis, manuseados sem pudor, e que seguirão o curso do compartilhamento desapegado, desbravando mundos e sendo desbravados.

A segunda parte é a mais extensa, pois trata dos 36 anos da livraria junto aos leitores e ao grande elenco de escritores, intelectuais e artistas que a frequentou. Temos uma espécie de mapa das produções e das relações entre os pares na época. 

Inúmeras passagens revelam seu talento literário, tanto na escrita como na escolha do que narrar. Por exemplo, ao falar de Apollinaire: “Olhei atentamente esse homem gordo de uniforme, com a cabeça em forma de pera, bastante Pai Ubu”. Ou André Breton, cujas mãos ela leu, espantada com “a estranheza da linha da cabeça. Essa linha indicava claramente a predileção do sujeito pela loucura e tudo o que dela se aproxima”.

Monnier deixa claro a discordância e até certo rompimento que houve com Breton, segundo ela pelas injustiças cometidas em relação a seus predecessores que ele deveria reconhecer como tal, por exemplo Gide e Claudel. “Digo-me isso agora, mas, na época, o absolutismo e a violência de Breton e de seus amigos eram-me insuportáveis (é preciso dizer que exageravam!).” Após uma discussão acalorada, Breton retirou da revista Litterature o endereço da Maison, que figurava como ponto de venda.  

A terceira parte é dedicada a memórias ainda mais antigas que as da rua do Odéon. Em quatro textos, Monnier revisita seu passado longínquo, como os primeiros contatos com a revista Mercure de France, em suas buquinagens de adolescência, e sua primeira viagem à Londres, ocasião de sua sensibilização estética, ao visitar museus e galerias de arte.

O legado de Monnier fica evidente. A serviço das trocas intelectuais em sua forma mais concreta, ao fomentar a circulação de livros e abrir espaço para novas produções, ela foi uma protagonista da cena literária francesa. Certas obras ganharam projeção e encontraram seus pares graças a seu incentivo e olhar generoso para as singularidades.

Ademais, ela não foi apenas uma ponte entre escritores e leitores, mas uma interlocutora ativa, lembrada pela perspicácia e pela forma amável com a qual se relacionava. Prova disso é que, ao final do livro, há também uma seleção de textos escritos por amigos e admiradores como Paul Claudel, Jacques Prévert, Saint-John Perse, S. M. Eisenstein, Michel Cournot, Pascal Bia e Yves Bonnefoy. 

Com Prévert abrimos e com Prévert finalizamos: “Adrienne, antes de encerrar as atividades, sozinha com seus livros como se sorrisse para os anjos, sorria para eles. Os anjos, como bons diabos, devolviam-lhe o sorriso. Ela guardava esse sorriso e ia embora. E esse sorriso iluminava toda a rua, a rua do Odéon, a rua de Adrienne Monnier”. 

Quem escreveu esse texto

Maíra Nassif

É mestre em filosofia e editora da Relicário Edições.

Matéria publicada na edição impressa #4 ago.2017 em junho de 2018.