História,

Alvorecer da memória

Valendo-se da crueza da linguagem, Simone Veil e Charlotte Delbo tratam de suas experiências nos campos nazistas em dois livros fundamentais

01fev2022 - 04h51 | Edição #54

Dois livros fundamentais sobre as experiências nos campos nazistas surgem ao mesmo tempo no mercado editorial brasileiro: O alvorecer em Birkenau, de Simone Veil (1927-2017), e Auschwitz e depois, de Charlotte Delbo (1913-85). 


O alvorecer em Birkenau, de Simone Veil

Veil é conhecida sobretudo por sua atuação política, tendo sido ministra da Saúde na França (quando instituiu a descriminalização do aborto com a Lei Veil, em 1975) e primeira presidenta do Parlamento Europeu. O alvorecer em Birkenau, relato de sua passagem pelo campo em 1944, é um livro feito a quatro mãos com o cineasta David Teboul, que registrou entrevistas com Veil ao longo de quinze anos. O livro se divide em duas partes: na primeira seção, Veil toma a palavra e conta fatos sobre sua infância, sua deportação, seu retorno dos campos, o trabalho posterior de memória e de confrontação com o antissemitismo francês, além de reflexões sobre o impacto que esse evento traumático teve em seus relacionamentos dali para a frente. A segunda seção é dividida em três partes, correspondendo a três diferentes interlocutores: na primeira parte, Veil conversa com sua irmã mais velha, Denise; na segunda, conversa com Marceline Loridan-Ivens e, na terceira, com Paul Schaffer, dois ex-companheiros de deportação. 

Charlotte Delbo, por sua vez, foi deportada para Auschwitz no grupo de 24 de janeiro de 1943, conhecido como “o comboio dos 31 mil”, que incluía 230 mulheres, a maioria delas atuantes na Resistência — apenas 49 sobreviveram, Delbo entre elas. 


Auschwitz e depois, de Charlotte Delbo

Em 1941 Delbo participava da turnê de uma trupe de teatro francesa pela América do Sul. Em setembro daquele ano, em Buenos Aires, ao saber dos fuzilamentos de membros da Resistência pelos nazistas, decide retornar à França para fazer parte do movimento, reunindo-se a seu marido, Georges Dudach. O livro que agora conhecemos como Auschwitz e depois é, na verdade, composto de três livros distintos, ainda que interligados: Nenhum de nós voltará, publicado originalmente em 1965, Um conhecimento inútil, de 1970, e Medida de nossos dias, de 1971. 

Boa parte do material bruto desses livros foi composta nos anos posteriores ao fim da guerra. São fragmentos, frases, versos e breves imagens que buscam dar conta da experiência em seu caráter abrupto, não mediado, sem preocupação com a ordem cronológica. Foi uma escolha de Delbo guardar o material durante vinte anos, publicando o primeiro volume apenas em 1965, mesmo ano em que ela publicou outro volume sobre sua experiência na guerra, Le Convoi du 24 janvier, no qual redigiu a biografia de suas 230 companheiras de comboio. 

Desistência ou insistência

O relato de Veil, registrado depois dos anos 2000, enfatiza que, apesar da distância temporal, vários elementos dos horrores da guerra ainda precisam ser elaborados. A maquinaria dos campos só se tornou possível pela participação da Europa como um todo, e o mesmo deve acontecer para que o processo de “restauração” se complete. “A lembrança de minha deportação teve um papel importante em minha postura com relação à Europa”, escreve Veil. “Acreditei na reconciliação necessária dos povos europeus. Compreendi também que era preciso tempo.” 

A força do relato de Veil passa também pela insistência do sobrevivente diante da inércia coletiva. Durante décadas as experiências traumáticas dos campos foram deixadas de lado

Em grande medida, a trajetória de amadurecimento de Veil no período pós-guerra acompanha o percurso francês em direção a uma tomada de responsabilidade diante do passado. Depois de treze meses nos campos, Veil foi repatriada e foi morar com a irmã Milou na casa dos tios. Ela descobriu que seu pai e irmão não haviam sobrevivido, mas reencontrou Denise, a irmã que havia ficado na França e participado da Resistência. Já em 1945 começou a estudar direito e ciência política, reivindicando a aprovação nos exames ocorrida antes da deportação. Entre os anos 60 e os 70, Simone Veil entra para a magistratura e trabalha no sistema penitenciário francês, cujas péssimas condições demandam uma intervenção e o desenvolvimento de um conjunto de reformas. O alvorecer em Birkenau, portanto, é um livro que se insere em um trabalho mais amplo de Veil, o esforço de uma vida inteira em prol da valorização de pautas emancipatórias. 

A força do relato de Veil passa também pela insistência do sobrevivente diante da inércia coletiva. Durante décadas as experiências traumáticas dos campos foram deixadas de lado, recebendo pouca atenção ou mesmo manifestações de incredulidade. “Havia uma espécie de buraco em nossa vida. Nunca o preenchi. Nunca viria a saber por mim mesma o que foi aquele período”, escreve Veil, que continua: “O mais difícil foi sem dúvida o olhar com que os outros nos viam. Alguns sentiam compaixão. Tinham vontade de falar conosco sem saberem o que dizer-nos. Ficavam desconfortáveis, com medo de falar demais ou não falar o suficiente. Deparávamos também com a indiferença total. Ouvíamos comentários deslocados ou mesmo grosseiros”.

Diante da “indiferença” e da “grosseria”, disso muitas vezes são dois os caminhos possíveis — a desistência ou a insistência. Essa oscilação angustiante faz parte do cotidiano do sobrevivente, sempre em posição de falta ou de insuficiência. O problema se torna mais complexo na medida em que a pessoa deportada também tem dificuldade de acreditar naquilo que aconteceu: a experiência do campo é tão extrema que desafia a capacidade de apreensão daqueles que a vivenciaram. 

Daí decorre outro ponto fundamental de Veil: a necessidade de construir um grupo de apoio aos sobreviventes de âmbito nacional. “Quando os deportados se encontravam, tinham uma intensa sensação de existir”, escreve ela. “Haviam tentado matá-los e eles estavam ali. Seus adversários não haviam vencido. Ao longo dos anos nós nos vimos e nos revimos muito.” Segundo Veil, era essencial “falar do que tínhamos vivido”, já que os que não tinham passado pelas mesmas provações “não podiam compreender”: “Sem dúvida teriam visto em nossos relatos uma certa forma de crueza, um certo cinismo. Para nós, era o único modo de falar daquilo”. Esse ponto incide sobre o texto, o estilo, a grafia da experiência e da memória. A “crueza” é a marca de um pertencimento, é a senha que torna possível a emergência de um grupo de sobreviventes que toma como responsabilidade coletiva a tarefa de relatar, contar, dar testemunho. 

Essa força do relato insistente, cru e quase “cínico”, é determinante também na experiência de leitura de Auschwitz e depois, de Charlotte Delbo. A própria disposição gráfica do texto na página reflete a instabilidade da memória diante da experiência extrema da deportação e dos campos. “Todos eram marcados no braço com um número indelével/ Todos deviam morrer nus/ A tatuagem identificava os mortos e as mortas”. O livro não se resolve de forma direta a partir da enumeração de fatos, datas ou acontecimentos, pelo contrário. Auschwitz e depois é um relato que exige a participação do leitor, de um investimento emocional por parte de quem atravessa suas páginas.

Assim como acontece com Veil, existe uma oscilação entre desistência e insistência operando no relato, uma cisão que se percebe também na linguagem utilizada pela autora. Da mesma forma que o poético intervém sobre o prosaico, a linguagem da burocracia nazista intervém sobre o estilo posterior, sobre a reconstrução distanciada da voz autoral. Como escreve Marcio Seligmann-Silva no posfácio: “A linguagem bastardizada, a linguagem sem imaginação do campo, corrói a capacidade de elaboração e de comunicação. No campo tudo tende ao concreto. A metáfora e a capacidade figural da linguagem estão embotadas”.

O espaço do texto é, ele próprio, palco de uma luta entre opostos — o desejo de lembrar e o desejo de esquecer, o desejo de insistir e o desejo de desistir, de abandonar o passado traumático e de retomar esse mesmo passado

A questão que se coloca, portanto, é a de uma movimentação constante do registro da memória. “Por que conservei a memória? Por que essa injustiça?”, pergunta-se Delbo. “E da minha memória só despertam imagens tão pobres que me vêm lágrimas de desespero.” O mesmo gesto de acesso à memória que leva às lágrimas, contudo, também leva à “conservação” e a um tímido aceno de esperança: “Aqui, o sol não é de primavera. É o sol da eternidade, é o sol de antes da criação. E eu tinha conservado a memória do sol que brilha sobre a terra dos vivos, do sol sobre a terra dos trigos”. O espaço do texto é, ele próprio, palco de uma luta entre opostos, entre energias contrastantes e tensionadas — o desejo de lembrar e o desejo de esquecer, o desejo de insistir e o desejo de desistir, de abandonar o passado traumático e de retomar esse mesmo passado. Ainda Delbo: “Desde Auschwitz, eu andava com medo de perder a memória. Perder a memória é se perder, é deixar de ser si mesma”.

O relato de Veil, registrado nos anos 2000, enfatiza que, apesar da distância temporal, vários dos horrores da guerra ainda precisam ser elaborados

Na conversa com Paul Schaffer, que encerra o livro, Simone Veil e ele refletem sobre sua geração: “Não vivemos nossa adolescência, no lugar dela há um buraco aberto”. Partindo daí, Veil se questiona sobre o modo como se portou diante de seus filhos e netos, diante das novas gerações (“exigi deles, mais ou menos conscientemente, que se sentissem responsáveis muito cedo”). O que fica, portanto, do passado e de sua elaboração para os novos grupos que vão se formando? Qual o papel da literatura nesse processo? Esses dois livros sem dúvida formam parte desse legado que passa de geração em geração, uma herança que não se recebe de forma automática, mas que precisa ser reivindicada com espírito crítico e comprometimento ético.

Quem escreveu esse texto

Kelvin Falcão Klein

Professor da Unirio, é autor de Cartografias da disputa: entre literatura e filosofia (Editora UFPR).

Matéria publicada na edição impressa #54 em outubro de 2021.