Encontro de Leituras,
Palavras contra a loucura
Escritora portuguesa explora territórios limítrofes combinando insuficiência e exatidão da linguagem
03set2026Os contos de Vermelho delicado carregam uma névoa. As sete histórias reunidas no livro da portuguesa Teresa Veiga são tomadas por um ar denso que nubla a visibilidade, impede que o leitor antecipe o que vem adiante, reforça a atmosfera de suspense e coloca dúvidas sobre o que está realmente diante dos olhos. Não há incerteza nas descrições, firmes e convictas, mas ao leitor é lançada, o tempo todo, a dúvida sobre o percurso e sobre as conclusões.
Os narradores e as narradoras carregam certa solidão por motivos distintos — circunstâncias da vida, escolhas rumo à reclusão, para sustentar dissimulações que aparições públicas exporiam —, mas compartilham “rupturas com a narrativa comum”, para aproveitar a definição de loucura dada pela escritora Rosa Montero quando esteve no Brasil, no ano passado.
Não é possível afirmar que Vermelho delicado reúne personagens loucos — a névoa impede qualquer categorização. Mas o desafio à norma se repete insistentemente nos enredos — e quantas vezes já não chamamos de loucos os que escaparam da absolutização normativa? Não parece ser por acaso que mulheres, meninas e imigrantes sejam presença constante nesses textos.
Espiral
É o conto que dá nome ao livro que identifica literalmente a loucura. Em “Vermelho delicado”, as amigas Laura e Mena se reencontram depois de quarenta anos e a conversa vira disputa: quem enterrou o marido com a dor mais intensa? Um morreu depois de dez anos de doença; o outro, num acidente repentino. Diante da morte, Laura afundou: “entrara numa espiral descendente que a isolava cada vez mais do mundo”. A reclusão e a televisão ligada o tempo todo, único fio de contato com o mundo lá fora, compõem o quadro de desconcerto mental mais explícito do livro.
Mesmo aqui, porém, a palavra loucura vem cercada de ressalvas. Laura não confia na medicina para “explicar os desvarios da mente”, e o que se descreve como enlouquecimento coincide com o período do luto agudo. Aproximando diagnóstico e dor, o narrador nos sugere que o desvario seja talvez a reação mais honesta diante do insuportável. Inclusive porque o luto da mulher não se dá só por causa da morte do marido, mas por essa morte desvelar verdades pouco delicadas sobre a relação conjugal.
Ao escapar do estado delirante, a personagem ganha de novo o direito à palavra, como no encontro com a amiga de longa data, em diálogos que permitem que a conheçamos por seu léxico. Essa é a oportunidade de se apropriar da narrativa, de recompô-la nos próprios termos e até de contar mentiras, de enganar o leitor com memórias sensíveis que talvez não existam, mas que a salvam do passado.
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No embate vocabular entre as amigas — enquanto duelam para decidir quem ficou mais enlutada, quem viveu mais feliz, foi mais amada —, escancara-se uma questão que acompanha essa história e a ideia de loucura sugerida em outras: a insuficiência da linguagem.
Pode soar estranho dizer que a suficiência da palavra está em xeque, mas não a sua exatidão. É isso, porém, que Veiga faz. As investidas contra a norma nunca se apoiam em narrativas confusas; os contos são escritos com precisão, sem desperdício de palavras, como se cada vocábulo fosse escolhido para retirar a loucura do lugar de disparate. A autora disciplina a linguagem de forma a permitir que os territórios limítrofes pelos quais transitam os textos possam virar norma — uma nova norma.
Os contos estão unidos pela insistência das personagens em escapar do lugar fixo e em dissidir sem vergonha
A escritora esquiva, sobre quem se sabe muito pouco (Veiga não dá entrevistas), se fez célebre entre leitores lusófonos pela habilidade com a forma breve e pelo rigor. Além disso, é inegavelmente sedutor que a reserva acerca da sua biografia ecoe a das narradoras, que preferem insinuar a expor.
É o caso da primeira narradora de “A estalagem de Aldebarã”, que brinca com o leitor, diz que não explicará coisas para em seguida explicá-las, admite acrescentar palavras próprias ao reproduzir relatos alheios, criando um suspense divertido, mas sem concessões: ela se afirma dona da própria história, testando os limites narrativos do poder sobre a própria vida.
Nesse conto, a narradora se muda de mala e cuia para uma pequena aldeia atendendo a um anúncio inespecífico — buscava-se uma senhora com idade entre trinta e quarenta anos e com total disponibilidade e certa educação. Não se sabe o que a espera e a mulher começa se justificando por tudo que virá. A situação demora a ser desenhada ao leitor, que segue sem dificuldades por desvios narrativos inesperados antes de descobrir o que está acontecendo.
O anúncio tem ares de absurdo e o que se segue também: a chegada às novas instalações, o emprego oferecido, as regras da nova vida e o aparecimento de um forasteiro, que quer entender o que há ali. É difícil confiar nessa narradora, que conta passagens insólitas como se fossem ordinárias, mas não há opção senão segui-la.
Absurdos
A ideia de um percurso de absurdos, combinando tensão e riso, está também em “Betânia”. O narrador emigrou para a França, onde construiu uma carreira “bem-sucedida graças exclusivamente aos meus méritos e à minha capacidade de trabalho”. Em um retorno à terra natal, reencontra um amor de vinte anos atrás, a quem perseguirá como uma assombração. Os encontros entre eles têm contextos desarrazoados, roteiros imprevisíveis, cenários disparatados, a ponto de, aparição após aparição, as certezas se exaurirem até que não sobre nem a confiança meritocrática.
Mais do que pelo terreno instável que sugere certa loucura, os contos estão unidos pela insistência das personagens em escapar de qualquer lugar fixo e em dissidir sem vergonha. Veiga observa, com atenção clínica, quem sobra fora da norma e por que sobra, mas sem fazer qualquer tipo de celebração ou denúncia do desvario.
Pela linguagem, os dissidentes de um contrato social que insiste em se apresentar como o único possível ganham a possibilidade de estabelecer novas regras e de nos encurralar com a insuficiência: o que está diante de nós é a loucura ou chamamos assim por não termos palavras exatas para nomear o gesto de quem se recusa a ceder? Vermelho delicado não resolve a falta de vocabulário: assume que as palavras vêm sempre acompanhadas de uma névoa que nos impede de dizer com certeza se conhecemos o que parece familiar e de afirmar quem, afinal, está fora de si.
Nota da redação
A Tinta-da-China Brasil é o selo editorial da Associação Quatro Cinco Um, que publica a revista dos livros.
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