Encontro de Leituras,
Escavação de si
José Eduardo Agualusa constrói a biografia de um geógrafo-poeta que tenta organizar o caos da existência no tempo que lhe resta
21jul2026 | Edição #108Em recente vídeo publicado nas suas redes sociais, José Eduardo Agualusa lê trechos de um artigo no qual exalta a figura da pessoa leitora. Segundo ele, a literatura é tão rica justamente porque nos tira da brutalidade, a falência da imaginação. Ler nos torna capazes de chorar a morte de pessoas inventadas; por isso, o romance é uma tecnologia extraordinária.
Tudo sobre Deus propõe contar a história de Leopoldo G. Borges, geólogo e poeta que, ao descobrir o pouco tempo de vida que lhe resta, resolve comprar uma igreja abandonada no deserto do Namibe, em Angola. E nós passamos a nos emocionar com esse personagem e suas reflexões acerca de temas tão humanos como culpa, racismo, relacionamentos amorosos, paternidade, morte…
A invenção de Leopoldo, aliás, é um dos grandes pontos do romance. Agualusa constrói essa pessoa pela e na palavra. Há uma epígrafe de Leopoldo no início do livro, conhecemos muitos de seus poemas, sabemos com quais pessoas ele se relacionou e quais são seus amigos — entre eles, Mia Couto, por exemplo —, descobrimos detalhes da sua biografia. Ele se torna real, se materializa no texto e por meio de sua estrutura.
“Quem quer gastar dinheiro num diário?” Este é o questionamento feito por Antara, protagonista e narradora de Açúcar queimado, da norte-americana Avni Doshi (Dublinense, 2021, trad. Adriana Lisboa) ao tentar justificar o fracasso de seu livro, O diário de uma artista. O narrador de Tudo sobre Deus não pensa assim. Sorte a nossa! Quem é esse narrador? Agualusa? Quem é Leopoldo: um alter-ego do autor? Esses limites são borrados e se tornam irrelevantes, se apagam e se reconstroem como dunas do deserto. O importante é o homem que temos à nossa frente.
Conhecemos Leopoldo pela voz do narrador, que se mostra como alguém muito íntimo do geólogo-poeta. Tão íntimo que tem acesso aos seus diários e escolhe quais trechos apresentar. Tão íntimo que entrevista a ex-companheira de Leopoldo e também escolhe quais excertos dessas conversas irá oferecer.
Tudo parece pensado para garantir que Leopoldo existiu mesmo. Era uma pessoa real. Ora, mas não é esse um dos grandes trunfos do romance? Fazer com que soframos, torçamos, amemos pessoas que só existem nas invencionices daqueles que as escrevem? E não serão todas as pessoas, de papel ou não, com sangue ou tinta nas veias, fabuladas pela nossa necessidade de pertencer?
Quem é Leopoldo: um alter-ego do autor? Esses limites são borrados e se tornam irrelevantes
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Antonio Candido, no ensaio fundamental “O direito à literatura”, baseando-se nos estudos do economista Louis-Joseph Lebret, apresenta os chamados “bens incompressíveis”. De acordo com o autor, bens incompressíveis são aqueles direitos indispensáveis para a existência humana, como alimentação, moradia, saúde, vestuário, segurança, educação, liberdade, justiça e acesso à arte e à literatura. Candido diz que a literatura é um bem incompressível porque somente ela permite a superação do caos pela fabulação. É ela que, ao fazer com que organizemos o espírito e o mundo, nos torna humanos. A literatura nos humaniza.
Por falar em gente (“real” ou não), o título do romance de Agualusa menciona Deus, mas Ele não participa da história. Vemos um homem, cheio de defeitos e complexidades, tentando organizar o caos da existência pela palavra.
Fóssil
Agualusa constrói um geólogo-poeta que escava palavras e, assim, escava o próprio passado na esperança de encontrar o fóssil que o faça repousar tranquilo no futuro breve. A descida às profundezas da igreja, agora lar, oferece uma nova possibilidade de significado. O narrador busca passar verdade no seu texto. Leopoldo busca entendimento de si, construção de memória e mais tempo para buscar. A busca pela filha, desaparecida após uma briga há anos, a busca por si mesmo, pelos últimos momentos nesse corpo-lembrança. A espera da “morte [que] é o instante em que o corpo conversa com a terra”. É isso Tudo sobre Deus. Um texto irregular, não linear, fragmentado como a nossa existência, como a areia do deserto que se torna refúgio e túmulo para Leopoldo G. Borges.
Matéria publicada na edição impressa #108 em agosto de 2026. Com o título “Escavação de si”
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