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Sonhos de sangue na mata

O retrocesso da ameaça crescente aos povos da floresta torna uma novela de ficção científica de 1972 extraordinariamente atual

01nov2020 - 01h00 | Edição #39 nov.2020

Boa parte da ciência e da ficção científica modernas não existiria sem o uso judicioso do chamado Gedankenexperiment, o “experimento mental” tão ao gosto de Albert Einstein. “O que aconteceria se?” é a pergunta fundamental dos adeptos dessa abordagem. Na raiz de quase todos os romances da americana Ursula K. Le Guin (1929-2018), por exemplo, está um experimento mental clássico: o que aconteceria se todas as formas de vida inteligente na Via Láctea fossem descendentes da mesma espécie humana ancestral, separadas durante algumas centenas de milhares de anos e enfim reunidas pelo advento da viagem interestelar?

Em Floresta é o nome do mundo, livro que acaba de chegar ao Brasil, a resposta não é das mais animadoras: sonhos se transformam em sangue — quase literalmente.

É importante lembrar que essa não é a única conclusão possível para o Gedankenexperiment de Le Guin. Em outros romances e contos do Ciclo Hainish (como costuma ser conhecido o conjunto de sua mitologia espacial), o contato entre as diferentes espécies humanas da galáxia, ainda que tenso e permeado de incompreensão mútua no começo, acaba culminando na formação de uma aliança interplanetária, inicialmente conhecida como Liga de Todos os Mundos e, mais tarde, como Ekumen (do mesmo termo grego que deu origem à palavra “ecumênico”, com o significado de “conjunto das regiões habitáveis”).

O Ekumen, ainda que esteja longe de ser perfeito, estabelece relações pacíficas e uma plataforma de ação ao mesmo tempo humanista e não intervencionista diante da diversidade estonteante de culturas e biologias espalhadas pelo tecido galáctico. Ainda que a comparação seja um tanto ofensiva quando se considera a qualidade literária da obra de Le Guin, é como se a premissa de best-sellers picaretas como Eram os deuses astronautas? fosse verdadeira: no passado remoto, alienígenas poderosíssimos (no caso, a “raça humana original” do planeta Hain) semearam a Via Láctea com colonos e diferentes espécies de seres vivos de seu lar ancestral, por vezes realizando estranhos experimentos genéticos em humanos, animais e plantas, e os planetas que vemos hoje são resultado dessa história remotíssima, que mais parece mitologia.

A trama de Floresta é o nome do mundo, porém, desenrola-se imediatamente antes e depois da formação da Liga de Todos os Mundos, o que talvez explique a lógica hobbesiana da narrativa. Outra motivação possível para o ímpeto trágico da história é o abismo físico e comportamental entre as espécies humanas que a protagonizam, um dos mais extremos dentro do universo ficcional de Le Guin.

Comparado a outras obras de Le Guin, o livro é mais esquemático, maniqueísta e amargo

Com efeito, em livros do Ciclo Hainish publicados anteriormente no Brasil, como A mão esquerda da escuridão e Os despossuídos, as diferenças físicas externas entre os vários grupos descendentes da humanidade primeva são relativamente modestas (menos os habitantes do planeta Gethen, cenário do primeiro livro, que são andróginos e capazes de alternar sua fisiologia entre o potencial reprodutivo masculino e o feminino a cada ciclo “menstrual”; de qualquer jeito, é o tipo de coisa que só se descobre com inspeção genital). A variabilidade em compleição, cor da pele, densidade de pelos no corpo e outros fatores, na maioria dos mundos habitados, não destoa muito da que pode ser encontrada na Terra do século 21.

Homenzinhos verdes

No entanto, no planeta chamado Athshe (“floresta” na língua franca de seus habitantes), colônias de madeireiros e militares ligadas à frota interestelar da Terra se veem diante de homenzinhos verdes — literalmente designados com esse apelido, numa sátira deliberada ao lugar-comum da ficção científica do começo do século 20. Medindo cerca de um metro, cobertos de pelos verdes, os athsheanos são criaturas crepusculares, de olhos maiores que a média humana e ciclos de sono diluídos ao longo do dia, repletos de sonhos aparentemente proféticos. Embora conheçam os metais, seu estilo de vida é próximo do de caçadores-coletores do nosso mundo.

Mais importante ainda, os creechies (termo pejorativo que os recém-chegados da Terra usam para designar os nativos) dependem das matas fechadas para sua subsistência e não possuem “agressividade intraespecífica”. Ou seja, praticamente nunca matam seus semelhantes, não guerreiam e resolvem suas desavenças em confrontos ritualizados, por meio do canto. E incluem os invasores na categoria de membros de sua própria espécie, enquanto a recíproca não é verdadeira.  

Essa última característica transforma os athsheanos em presa fácil dos colonos da Terra, que alistam milhares dos nativos como Funcionários Autóctones Voluntários — um eufemismo para escravos. “É preciso entrar no jogo do lado que está vencendo, do contrário você perde. E é sempre o Homem que vence. O velho Conquistador”, filosofa o capitão Don Davidson, um mestre na arte de transformar creechies em trabalhadores relativamente eficientes.

A voz amoral de Davidson é a que aparece com mais frequência no livro. Do lado dos “terranos”, o contraponto a ela vem do antropólogo Raj Lyubov, único humano a aprender o idioma athsheano e a se tornar amigo do nativo Selver, cuja esposa foi estuprada pelo militar e acabou morrendo.

Ao salvar a vida do amigo creechie, que atacou Davidson num inesperado acesso de raiva e quase foi morto pelo capitão, Lyubov termina por catalisar o processo que leva os athsheanos a descobrir a guerra e a vingança. Aprendendo a matar e transmitindo aos demais membros de seu povo esse conceito por meio dos sonhos lúcidos típicos de sua raça, Selver passa a ser visto como deus — chegando a ser chamado de “senhor deus”, num eco deliberado da Bíblia — e líder.

Comparado a outras obras de Le Guin, o livro é mais esquemático, maniqueísta e amargo. Os vislumbres da tradição oral e da espiritualidade dos athsheanos são tão fascinantes quanto qualquer outro detalhe de sua imaginação prodigiosa de construtora de mundos, mas a sombra pesada do niilismo não deixa de tocar nenhum canto dessa narrativa.

Este texto foi realizado com o apoio do Instituto Serrapilheira.

Quem escreveu esse texto

Reinaldo José Lopes

Repórter da Folha de S.Paulo, é autor de Darwin sem frescura (Harper Collins BR).

Matéria publicada na edição impressa #39 nov.2020 em outubro de 2020.