Divulgação Científica,

A utopia no presente

A professora e matemática Tatiana Roque fala da importância de refazer o pacto entre a ciência e a política

25maio2022 - 17h38 | Edição #58

Foi no final do século 18, com o advento da modernidade, que a humanidade passou a ter uma ideia de que sempre avança em direção a um futuro melhor, com a ciência e a tecnologia protagonizando esse progresso. Isso só foi possível através de um pacto entre ciência e política, que engajou as pessoas em torno desse pensamento e projeto de mundo — até chegarmos aos dias de hoje.


O dia em que voltamos de Marte, de Tatiana Roque

Esse é o ponto de partida da obra O dia em que voltamos de Marte (editora Crítica), escrita por Tatiana Roque, professora de matemática e filosofia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Seu livro atravessa décadas de guerras, avanço econômico, exploração intensa de recursos naturais, viagens espaciais e melhora dos indicadores sociais — sobretudo para os países desenvolvidos do Norte global. Até chegar a um ponto em que essa utopia de um futuro brilhante logo à frente já não se sustenta. As mudanças climáticas, resultado desse progresso intenso, deixaram tudo mais nebuloso. “Tento despertar neste livro uma sensibilidade histórica para a singularidade do momento que a gente vive hoje”, explica ela, que recebeu a Quatro Cinco Um em seu apartamento em Botafogo, na Zona Sul do Rio de Janeiro.

Essa crise existencial tem vários desdobramentos políticos, mas nos leva a uma questão também existencial: diante de tanta incerteza, como dar um sentido a nossa própria vida? Roque tem uma sugestão: “Precisamos abandonar a ideia de um futuro sempre melhor e construir a utopia no presente. Vamos precisar basear a nossa política no presente, no aqui e agora. Sei que não é reconfortante, mas, se a humanidade se extinguir, pelo menos vamos ter feito a nossa parte”, prossegue ela, uma das principais pensadoras do campo progressista brasileiro da atualidade.f

Esse novo presente deve se dar com os pés fincados na Terra e levar em consideração a emergência climática

Não é uma ideia fácil de abraçar. O caminho, argumenta Roque, passa por refazer o pacto entre a ciência e a política. Esse novo presente deve se dar com os pés fincados na Terra — e não em outros planetas, como sugerem alguns bilionários empenhados em missões espaciais para salvar algumas poucas pessoas privilegiadas, como o título da obra sugere. Também deve levar em consideração a emergência climática, que pode se apresentar como uma oportunidade para repensarmos nosso contrato social.

Roque, que mantém um pé na universidade e outro em organizações da sociedade civil e na política institucional, lista alguns pontos que devem ser considerados para esse “plano de pouso” na Terra. Passa por enxergar a ciência e a tecnologia como aliadas, não como armas de convencimento. Elas devem se voltar para o nosso bem-estar, como saúde, alimentação e energias limpas. Também passa por abraçar uma economia política verde, refundando o contrato social. Políticas de adaptação aos eventos climáticos, reflorestamento e novas indústrias, assim como uma nova economia baseada no cuidado de uma população que envelhece, podem gerar empregos e renovar a proteção social. É preciso acabar com a “economia da promessa” e enfrentar as desigualdades desde já, em vez de deixar as pessoas “em compasso de espera por um futuro que nunca chega”.

Roque gosta de teorizar que, um dia, diante da impossibilidade de se manter o atual nível de produção e consumo de carne, seremos todos convidados para o último grande churrasco da Terra. “Precisaremos fazer uma série de coisas coletivamente para tornar o futuro imaginável de novo”, argumenta.

Uma jornada pela história

O dia em que voltamos de Marte é um livro de história da ciência, com ênfase em como ela consegue conquistar o público dentro de diferentes conjunturas políticas. Mas não só. “Precisei pensar a partir da filosofia da história, que não trata a história só a partir dos acontecimentos, mas de como o ser humano percebe a história”, explica Roque. Na época do Iluminismo, quando esse pacto entre ciência e política foi gestado, “a humanidade passou a acreditar que ela evoluía do passado em direção a um futuro sempre melhor, com as tecnologias sendo um instrumento dessa emancipação”, prossegue a professora.

Ao fazer essa jornada por trezentos anos de história, Roque destrincha como se deu esse acordo entre política e ciência — e como ele foi sendo renovado — com o objetivo de encontrar “pistas para um novo presente”.

O século 19 concretizou esse pacto a partir de várias iniciativas. A Exposição Universal de Londres, por exemplo, foi feita em 1851 com o objetivo de atrair as pessoas para esse ideal de progresso. Na mesma época, o Observatório de Greenwich, na Inglaterra, virou a referência na medição da hora universal. “A astronomia teve um papel fundamental. Observatórios astronômicos eram as instituições mais poderosas do século, inclusive no Brasil”, conta. A Revolução Industrial e o comércio internacional levavam prosperidade — ainda que para poucos. O mundo caminhava rápido.

Em tempos de negacionismo científico, o que é possível aprender dessa época para enfrentá-lo? “Esse pacto entre ciência e política não é automático, não basta a ciência existir para encantar as pessoas”, explica. “Foi preciso muito trabalho, uma construção institucional e política, com a criação de iniciativas e instituições, para conseguir convencer as pessoas de que a ciência e a tecnologia proporcionariam um mundo melhor”, completa. Refazer esse pacto significa realizar um esforço político para convencer as pessoas de um projeto de mundo mais coletivo e construtivo.

‘Bolsonaro defendia o tratamento precoce para que não se precisasse adotar uma política pública de vacinação’, diz Roque

Mesmo esse pacto esteve ameaçado em alguns momentos, como Roque mostra em sua jornada pela história. A Segunda Guerra Mundial e o lançamento das bombas atômicas, por exemplo, colocaram em xeque o papel da ciência como produtora de bem-estar. Foi preciso mais um esforço da política, no pós-guerra, para renovar a fé nela. “Houve ali uma promessa, que convenceu muita gente, de que era possível que o crescimento econômico e a industrialização por meio das novas tecnologias atingissem um número cada vez maior de pessoas”, comenta Roque. “A contrapartida era um Estado de bem-estar social atingindo camadas cada vez mais amplas da população até chegar, quem sabe, ao mundo inteiro.”

Esse período, chamado de os “trinta [anos] gloriosos”, também marcados pela exploração espacial em plena Guerra Fria, trouxe redução de desigualdade e produção de bens de consumo, mas também acelerou a exploração de recursos naturais, o desgaste ambiental e a ameaça às espécies.

A promessa de um futuro brilhante tinha falhas, como mostrou a teoria das mudanças climáticas a partir dos anos 80. A intervenção humana trouxe um progresso que não se sustenta no tempo e torna esse futuro impossível de ser vivido. Além disso, esse bem-estar não chegou para todos. Ao contrário, ele ocorreu em detrimento de outros países — sobretudo os do Sul global, de onde são extraídos os recursos para a produção de bens de consumo. “Não dá para dizer que esse pacto entre ciência e política deu certo no mundo todo. As estratégias de convencimento é que, sim, davam certo, fazendo com que as pessoas acreditassem que um dia chegariam lá”, explica.

Negacionismo

Chegamos então a um mundo espremido entre a ameaça das mudanças climáticas e o negacionismo científico de quem não quer enfrentar o problema. As promessas já não convencem. O futuro é incerto. A pandemia da Covid-19 serviu para exacerbar ainda mais esses negacionismo, gestado entre os anos 80 e os 90, e tornou tudo mais urgente — inclusive a necessidade de escrever O dia em que voltamos de Marte, conta Roque.

De um lado, uma extrema direita internacional que usa o negacionismo científico como instrumento político. “Não se trata de falta de informação ou de um problema educacional. É uma forma de colocar em prática alguns princípios dessa ideologia, como esse libertarianismo, que é ser contra qualquer tipo de regulação do poder público”, explica. Os protestos contra as medidas de confinamento e contra a obrigatoriedade da vacina mostram esse ultraindividualismo, continua Roque. “Jair Bolsonaro defendia o tratamento precoce como forma de cada pessoa administrar seu próprio remédio para que não se precisasse adotar uma política pública de vacinação”, exemplifica.

De outro lado, uma certa elite intelectual e política reconhece que as mudanças climáticas são um problema, mas acredita que as tecnologias por si sós vão, novamente, nos salvar. Esse grupo se baseia em gráficos que mostram a evolução da humanidade e garante que não há motivos para pessimismo. Afinal, os avanços até aqui resultaram em menos fome, menos pobreza e mais bem-estar. “São autores como Steve Pinker, que escreveu O novo Iluminismo, que se apoiam em dados e gráficos sobre tudo aquilo que a humanidade evoluiu, se desenvolveu e produziu”, explica Roque.

O problema é que esses gráficos coincidem com outros mostrando que nesse mesmo período também se registrou um aumento da emissão de gás carbônico na atmosfera e do esgotamento de recursos naturais: “Essas pessoas fazem uma seleção completamente enviesada dos dados para impedir a percepção de que a gente vive um momento histórico singular, sem precedentes, e que a gente foi trazido até aqui por um modelo de desenvolvimento que acabou com as condições de existência no planeta”. A ciência e a tecnologia não vão resolver o problema sozinhas, insiste Roque. “O problema não tem solução se não fizermos mudanças profundas na economia e na nossa organização social.”

Matéria publicada na edição impressa #58 em fevereiro de 2022.