A FEIRA DO LIVRO 2026,
Jeferson Tenório: Imaginar é uma forma de resistência para a população negra
Escritor conversou sobre cotas raciais, literatura e sonhos com José Vicente, fundador da Universidade Zumbi dos Palmares
08jun2026O que significa ser negro em um Brasil que avançou na implementação de políticas afirmativas, mas vê um longo caminho a ser percorrido por mais igualdade de oportunidades?
O escritor Jeferson Tenório e o advogado e sociólogo José Vicente, fundador da Universidade Zumbi dos Palmares, conversaram sobre cotas raciais, literatura e sonhos na mesa Que país é esse?, mediada pela editora Yasmin Santos. O encontro aconteceu no Palco da Praça e encerrou os nove dias de programação d’A Feira do Livro na noite de domingo (7).
Ao analisar Joaquim, o protagonista de seu último romance, De onde eles vêm (Companhia das Letras, 2024), Tenório ressaltou o papel da literatura em meio ao processo de autoconhecimento vivido por jovens negros e periféricos.
“A literatura entra nesse lugar, nesse espaço de formação. Antes de fazer o confronto externo, é preciso fazer o interno”, disse o autor de O avesso da pele (Companhia das Letras, 2020), romance vencedor do Jabuti. Esse confronto interno, segundo ele, tem a ver com a “acusação da raça”.
“Quando, ainda na infância, pessoas negras são acusadas de ter uma cor. Essa acusação é uma espécie de amputação identitária, você retira uma ideia de humanidade daquela pessoa e coloca uma cor nela. A gente regenera essa amputação a partir dessa reflexão de si mesmo, nesse confronto que faz consigo mesmo”, afirmou Tenório.
O ímpeto do jovem Joaquim de se tornar um poeta o leva de nomes considerados canônicos da literatura ocidental, como Marcel Proust e James Joyce, a escritores negros como Luiz Gama, James Baldwin e, especialmente, as letras do Racionais MC’s — não por serem negros, apontou Tenório.
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“Por dizerem algo para além da literatura que ele [Joaquim] estava acostumado”. O autor definiu isso como um “percurso de enegrecimento das leituras sem jogar fora aquilo que leu”.
Cotas nas universidades
O romance tem como pano de fundo o ingresso dos primeiros cotistas nas universidades públicas brasileiras, política consolidada com a Lei nº 12.711 de 2012, a Lei de Cotas. Houve avanços inegáveis — os números provam isso. Os desafios, no entanto, persistem.
Vicente lembrou que, há dez anos, a Universidade de São Paulo (USP) tinha 5% de alunos autodeclarados negros, percentual que saltou para 40% atualmente. “Foi fácil aumentar a expressão numérica, mas não foi possível avançar além do corpo discente”, ponderou o professor e advogado.
“Não conseguimos responder questões estruturantes. Conseguimos cotas para alunos nas universidades públicas e privadas. Todo o resto ficou por fazer: cotas para professores, pesquisadores, mesmo para a estrutura de gestão desse ambiente de educação, tanto público quanto privado. Não conseguimos avançar”, apontou Vicente.
Apesar disso, o fundador da Universidade Zumbi dos Palmares citou episódios que indicam uma transformação — ainda que lenta e silenciosa — advinda da maior presença de pessoas negras em espaços até então inacessíveis.
“Me recordo que quando batíamos nas portas das empresas para pedir estágios para os meninos, ouvíamos que precisava alisar o cabelo das meninas, uma apresentação estética adequada. Curioso nesse processo de mudança que hoje, quando vamos nessas empresas, esses meninos da Zumbi têm cabelo de todo jeito, com trança, sem trança. É um medidor também de quanto nós avançamos nessa questão no ambiente corporativo e no nosso país”, refletiu.
Religião e sonhos
A presença das religiões de matriz africana na obra de Tenório também emergiu na conversa. No caso de Joaquim, é uma busca por algo que, a partir de determinado momento, a literatura não consegue dar. “Tem a ver com acolhimento, esse espaço que ele não encontrou na universidade, mas encontra no terreiro”, explicou.
O autor avaliou isso como uma “afirmação política”: “Trazer os orixás para a narrativa é dizer que aqui há uma presença da cultura negra, é importante isso ser dito em termos de ficção”.
Isso aparece de alguma forma na escola pública, comentou Vicente sobre a falta de elementos da cultura ou da realidade desses jovens nesses espaços. “O jovem negro chega num lugar que não tem nada dele. Não fala sobre sua trajetória e vivência. Mesmo aquele pouco que ele acredita e se relaciona é ou excluído, ou desconsiderado, ou até demonizado; sua religiosidade, sua cultura.”
Ao fim da mesa, Tenório sugeriu a importância do jovem negro “deslocar a ideia de felicidade como algo de pura sobrevivência para a possibilidade de sonhar, vislumbrar um futuro”.
“Para a população negra, imaginar é uma forma de resistência. Escolher é um privilégio que não é para todo mundo. Os jovens negros também precisam ter oportunidade de escolher o que querem fazer das suas vidas”, defendeu.
A Feira do Livro 2026
A quinta edição do festival literário, gratuito e a céu aberto, acontece de 30 de maio a 7 de junho, na praça Charles Miller, no Pacaembu. Realizada pela Associação Quatro Cinco Um, a Maré Produções e o Ministério da Cultura, por meio da Lei Rouanet, A Feira do Livro 2026 reúne mais de cem autores e autoras do Brasil e do exterior em uma programação com mais de duzentas atividades, entre debates, oficinas, contações de histórias e encontros literários. Confira a programação e outras notícias do festival.
A Feira do Livro
30 de maio a 7 de junho de 2026
Praça Charles Miller – Pacaembu – São Paulo/SP
Entrada gratuita
@afeiradolivro
Horário
Finais de semana e feriado: das 10h às 20h
Dias úteis (segunda, terça e quarta): das 14h às 21h
A Feira do Livro incentiva o público a visitar o festival a pé, de bicicleta, táxi, transporte por aplicativo ou transporte público. O estacionamento na praça é limitado.