Crítica Literária,

Ensaios para ler no escuro

Eliane Robert Moraes discute o lugar do erotismo e nos desafia a reler nossos autores com menos pudor

22nov2023

Está lá, em A paixão segundo G. H., de Clarice Lispector, uma espécie de bússola para pensarmos o trabalho da pesquisadora Eliane Robert Moraes. Diz A paixão: “Se eu olhar a escuridão com uma lente, verei mais que a escuridão? A lente não devassa a escuridão, apenas a revela ainda mais”. A escuridão proposta por Moraes é um espaço vasto, traiçoeiro. Armado para se tropeçar e mobiliado com corpos e porcos, pelas obras e suas sobras, por mim, por você e pela soma disso tudo. Não é exatamente uma boa noite em que entramos com doçura.

Especialista nos franceses Georges Bataille e Marquês de Sade, Moraes tem realizado um projeto exemplar de apontar a centralidade do que chamamos de erotismo, ou de sacanagem, ou mesmo de pornografia (três palavras que, para ela, são sinônimos e diferem apenas pelo grau de pudor de quem as escolhe) na literatura brasileira. Organizou a Antologia da poesia erótica brasileira (Ateliê Editorial) e, para a Cepe Editora, dois volumes reunindo contos eróticos brasileiros, do romantismo até a produção escrita à sombra do governo Bolsonaro, O corpo descoberto e O corpo desvelado. Há alguns meses, uma manchete de jornal estampava sobre suas pesquisas: “É ela quem organiza a orgia”. E já não era sem tempo que alguém realizasse a empreitada! 


A coletânea A parte maldita brasileira: literatura, excesso, erotismo, de Eliane Robert Moraes, reúne dezesseis ensaios sobre Machado de Assis, Manuel Bandeira, Nelson Rodrigues, Mário de Andrade e Hilda Hilst

A continuidade dessa orgia organizada reencontramos em A parte maldita brasileira: Literatura. Excesso. Erotismo, que inaugura a coleção Ensaio Aberto, coordenada por Tatiana Salem Levy, professora da Universidade nova de Lisboa, e Pedro Duarte, da PUC-Rio, e publicada pela Tinta-da-China, em Lisboa, e Tinta-da-China Brasil (selo editorial da Associação Quatro Cinco Um).

Tomo em mãos A parte maldita e penso no quanto ele se insere neste momento de balanço do que entendemos por literatura brasileira. De quando os nomes incluídos no cânone já recebem olhares “suspeitos”; de quando também é preciso reagrupar o que ficou estabelecido como “os nossos grandes assuntos”. Basta observar a insurgência de pesquisas reclamando o terror, a ficção científica, o fantástico e, claro, o erótico, como temas da nossa produção ficcional. E temas centrais, não apenas como questões laterais ou como aquilo que quase ficou de fora. Num dos ensaios, Moraes, ao escrever sobre Roberto Piva, deixa claro o foco da sua investigação: “Tudo é sexo na poesia de Piva”.

O conjunto de textos aqui reunidos se mobiliza a partir do que Bataille chama de cadeia de “sobras”. O francês fala de um modo de atividade econômica no qual, aponta Moraes, “o princípio da utilidade cede lugar à exigência da perda”. É a necessidade social de dilapidação se sobrepondo ao imperativo da preservação e reprodução. Não se trata, no entanto, de uma simples “leitura batailliana” da literatura brasileira, e sim de uma aposta crítica de encontrar os tópicos do exagero e do dispêndio em alguns dos nossos grandes autores. E como bem aponta Mário de Andrade: “Já falam que se três brasileiros estão juntos, estão falando porcaria… De fato”.

Sem frio e sem freio

A escolha dos autores passa pelo “nervo” da literatura nacional entre os séculos 19 e 20. Temos enfileirados textos sobre Machado de Assis, Manuel Bandeira, Nelson Rodrigues, Mário de Andrade e Hilda Hilst. Mas o livro prefere canonizar nas primeiras páginas a figura da “puta”, tratada como um elemento central da nossa fabulação: 

A palavra ‘puta’ revela um extraordinário poder de permanência no imaginário sexual latino, sobretudo se levarmos em consideração que o léxico erótico vive em perpétua expansão, comportando transformações, evoluções ou desaparecimentos ao longo de sua história. 

Dos decoros da puta de Machado; das trocas da “dama branca” com os poetas modernistas que encontramos nos versos de Bandeira; e passando, enfim, pela puta infantil de O caderno rosa de Lori Lamby, de Hilst, que se abre tanto para o sexo como para a filosofia, num jogo sem “frio e sem freio”, que só a literatura pode ser capaz.

Nas primeiras páginas, a figura da ‘puta’ é tratada como um elemento central da nossa fabulação

Apesar do bem-vindo refresco na hora de retornar às obras dos canônicos, ressalto a importância da pesquisa de Moraes em se voltar também para nomes laterais. É o caso de Valêncio Xavier. Xavier é focado num ensaio de título que convida à leitura imediata: “Valêncio Xavier – No quarto de hotelzinho barato: labirintos do desejo”. Destaco também o texto que reivindica a originalidade de Reinaldo Moraes na produção contemporânea, aproximando-o de Marquês de Sade: 

A ficção erótica, tal como se lê em Sade e em Moraes, corrige o mundo segundo os imperativos do desejo, sem ter que observar qualquer constrangimento, de ordem moral, ética, política, religiosa ou psicológica. Como num desabamento, tudo vem abaixo e é tragado pelo baixo.

No ensaio derradeiro, “Topografia do risco: o erotismo literário brasileiro no limiar do século 21”, Moraes se volta à literatura das últimas décadas. O texto exalta a “efetiva perspectiva de diversidade” no tratamento em relação ao sexo que encontramos na produção recente — das confissões midiáticas à Bruna Surfistinha ao best-seller A casa dos budas ditosos, de João Ubaldo Ribeiro. Uma diversidade que “ainda carece de avaliação crítica”, surgida em meio à violência conservadora. No texto da orelha, a crítica e escritora Amara Moira pontua essas contradições de começo de século: 

Ouso dizer que não haveria pior momento para a publicação destes ensaios. Paradoxalmente, é este o tipo de obra que necessitamos, mais do que nunca — aquele que nos convida a lidar com o caráter imaginativo da literatura em seus extremos mais gozosos e horripilantes.

Em meio a todas essas tensões, entre o reprimir e o dilapidar, A parte maldita é um desafio que Moraes nos faz. Precisamos (re)ler alguns dos nossos grandes autores com mais coragem, com menos pudor, como “maçãs no escuro” (para voltarmos mais uma vez a Clarice Lispector).

Quem escreveu esse texto

Schneider Carpeggiani

É editor, jornalista, doutor em teoria literária e curador.