Crítica Literária,

Como a carne de vaca vira croquete

Ensaios de Antonio Candido investigam relações entre sociedade e produção literária — com lições para os dias de hoje

01abr2023 - 03h51 | Edição #68

Fosse na análise dos meios de vida do interior paulista, na discussão sobre o caipira ou na leitura das condições sociais e políticas que tornaram possíveis manifestações e um sistema literário no Brasil, o pensamento do sociólogo Antonio Candido era simultaneamente elegante e bem humorado, irônico e próximo da vida cotidiana. Isso estava atestado em suas obras e entrevistas, como a que concedeu a Joana Tavares, em 2011, para o jornal Brasil de Fato. Ele afirma que ao analisar as experiências sociais concebidas na criação literária estava preocupado em como a carne de vaca se transformava em croquete: sabendo que uma coisa não era mais a outra, mas estava contida nela, transformada, gerando algo novo. A clareza era parte de seu método, bem como a simplicidade aparente da exposição.

Literatura e sociedade, editado pela primeira vez em 1965, acompanha essas características. Veio a público depois de dois grandes projetos de fôlego em áreas distintas que marcaram a atuação de Candido — Os parceiros do rio bonito, em sociologia, de 1954; e Formação da literatura brasileira: momentos decisivos, em teoria e história literária, de 1959 — e tem características distintivas. O ensaio da década de 60 é um marco para quem busca caminhos para compreender a relação da produção literária e das mudanças sociais. Faz isso respeitando a autonomia da imaginação artística, mas sem a descurar dos embates da realidade social que a conformam, constrangem e contra as quais as obras procuram ultrapassar, em diálogo tenso e intenso com o público que as lê.

Prova de fogo

Um programa de investigação de Candido, Literatura e sociedade organiza seu trabalho como crítico de rodapé literário em jornais. O cargo o fazia leitor de primeira hora para, por exemplo, estreantes que poderiam se confirmar como incontornáveis ou não.

Nesta prova de fogo crítica, a que se submetia tanto o estudioso quanto autoras e autores, podem ser citados Clarice Lispector, Ruth Guimarães, João Guimarães Rosa ou Lygia Fagundes Telles, entre muitos nomes resenhados de primeira mão pelo jovem leitor e professor. Treinando crítica e sociologia, ele buscava uma forma nova de discutir literatura. Dispensava a necessidade de recorrer a traços biográficos da autoria, preconceitos ou simpatias políticas explícitas. Atentava-se ao espaço à liberdade da construção do mundo ficcional, em interação com o mundo social, que a obra literária procuraria plasmar.

Candido perseguia essa abordagem desde os anos 40 em seus textos jornalísticos, entremeado pelo trabalho na Universidade de São Paulo e suas pesquisas de campo. Literatura e sociedade organiza esse percurso e fornece ao escrutínio o que o autor vinha sugerindo: “Averiguar como a realidade social se transforma em componente de uma estrutura literária, a ponto de ela poder ser estudada em si mesma; e como só o conhecimento desta estrutura permite compreender a função que a obra exerce”, como explica no prefácio à terceira edição, de 1972. Ou, como ele havia dito de maneira brincalhona naquela entrevista de 2011: “Estou interessado em saber como o externo se transformou em interno, como aquilo que é carne de vaca vira croquete. O croquete não é vaca, mas sem a vaca o croquete não existe. Mas o croquete não tem nada a ver com a vaca, só a carne. Mas o externo se transformou em algo que é interno. Aí tenho que estudar o croquete, dizer de onde ele veio”.


Equipe da revista Clima: Antonio Candido no centro, rodeado por Décio de Almeida, Paulo Emilio Salles Gomes, Gustavo Nonnenberg, Lourival Gomes Machado e José Portinari na Praça da República [Acervo pessoal]
 

Dividido em duas partes, o livro persegue de partida as relações entre crítica e sociologia, vida social e condições sociais de produção da criação literária. O meio social informa a intricada relação “autor, obra e público”, perseguida por Candido nos ensaios que dedica a expor, didaticamente, por onde caminhava àquela altura a sua forma de investigação. Ele enuncia a sociologia, sua área de formação, como uma disciplina auxiliar do processo explicativo, sem desqualificá-la. Deixa essa área do conhecimento em segundo plano — seria fácil demais explicar a criação literária a partir de determinações sociológicas, ou mesmo da economia e da psicologia. Candido não incorre nesse equívoco e dosa, com bastante critério, a forma como as mudanças sociais podem ser uma chave analítica das obras, bem como do interesse do público.

Autor-obra-público

Apesar de dar subsídio à avaliação do público, Candido já apontava que o teste do mundo social não seria o melhor juiz de uma obra, pois o que é grandioso hoje há de se tornar medíocre adiante, e vice-versa. A depender da situação, tal teste do sucesso ou do fracasso seria apenas índice das debilidades da sociedade. Numa formação social marcada por preconceitos raciais, haver o elogio de uma obra explicitamente racista, por exemplo, diz muito a respeito dos problemas de tal sociedade. É, portanto, no amálgama autor-obra-público, transformado em algo outro, a que as perguntas da crítica e da sociologia deveriam ser feitas, segundo Candido.

A realidade social não está na criação literária — isso seria uma mera duplicação imperfeita. A criação literária “deforma” a realidade social para fabular algo novo, produzindo uma mímese. O autor é visto obviamente como criador da obra, mas não só: ele faz sentido se compreendido como ser imerso em relações sociais e produto do seu tempo, com o qual concorda ou contra qual se insurge. Já a obra, tendo também autonomia — uma vez publicada, ela se presta à avaliação das variadas leituras possíveis, algumas imprevistas —, não está isenta de pertencer a um sistema vivo de obras e de públicos, como ele destaca em “O escritor e o público”, um dos textos do livro.

A criação literária ‘deforma’ a realidade social para fabular algo novo, produzindo uma mímese

Nesse bailado complexo entre os fatores internos e externos, ou entre a carne de vaca em transformação para croquete, a vida social e a criação literária são analisadas pelo crítico. Candido não deixa de ter em horizonte que no Brasil, tão marcado pela desigualdade social, uma “elite literária” muitas vezes significou apenas a “capacidade de interessar-se pelas letras”, praticamente de forma ornamental. Isso explica, em parte, a dedicatória de Literatura e sociedade a Maria Amélia e Sérgio Buarque de Holanda. O autor de Raízes do Brasil tem uma conhecida formulação sobre o “amor bizantino aos livros” que foi a expressão da classe dominante letrada no país, da colônia à República.

Candido também aponta seu programa crítico em outra direção ao afirmar que, em oposição a esse cenário elitista, a “ascensão das massas trabalhadoras propiciou não apenas maior envergadura coletiva à oratória, mas um sentimento de missão social nos romancistas, poetas e ensaístas, que não raro escrevem como quem fala para convencer ou comover”. A literatura nascida no turbilhão da desigualdade social o faria como tarefa e com as marcas impostas pelo meio que ela mimetiza, mesmo que à revelia daqueles que, em tal meio, controlam o poder e as formas de transmissão de conhecimento, o direito à cultura.

Testes críticos

É oportuna a reedição deste livro pela Todavia, para novas leituras, usos e testes críticos de nosso tempo. Hoje, a relação entre literatura e sociedade é ainda mais entrelaçada, com maior mímese entre universo ficcional e realidade social. O público leitor no Brasil também se tornou mais múltiplo. Alguns conjuntos de sujeitos sociais são há anos as e os principais agentes de mudança da vida social e literária brasileiras. Embora não tenham sido, em seu tempo, objetos detidos da obra de Candido, estão lá. Mais importante, foram escrutinados por seus muitos discípulos, como na coletânea Os pobres na literatura brasileira, organizada por Roberto Schwarz para a editora Brasiliense e há muito fora de catálogo.

Mulheres e homens negras e negros, periféricos, pobres, pessoas lgbtqia+, a autoria indígena: são tais os agentes, entre outros, que movem de maneira mais interessante a realidade social contemporânea e fabulam espaços literários nos quais, muitas vezes, tiveram perdida a oportunidade de serem imaginados, política e literariamente. Todas e todos compuseram historicamente “a massa trabalhadora” brasileira de que falava o crítico. Porém, para além do universo do trabalho e do mundo dos pobres despossuídos dos meios de produção, afirmam-se como escritoras e escritores de uma Literatura, Literatura Negra, Literatura Feminista, Literatura lgbtqia+, Literatura Indígena e por aí vai, fabulando possibilidades insuspeitas e para além apenas do mundo do trabalho material.

É oportuna a reedição deste livro para novas leituras, usos e testes críticos de nosso tempo

A autonomia da construção ficcional não se perde quando a autoria reivindica, autonomamente, classe, gênero e identidade étnico-racial. Ao contrário, complexifica-se e mostra tanto o mundo social como o literário mais amplo que o do universo sudestino, branco, masculino, heterossexual e de classe média — eloquentes e poderosas identidades que não gostam de dizer seu nome, mas apreciam seus efeitos. Mundo esse pequeno, agigantado por preconceitos históricos, descrito há alguns anos pela pesquisa da crítica literária Regina Dalcastagné (Universidade de Brasília). Tal diversificação confere sentidos ainda mais alargados à experiência da modernidade, tão cara a Candido como sociólogo e crítico, especialmente ao analisar o modernismo paulista.

Direito à literatura

Mais complexo, o cenário literário atual — com uma multidão de personagens de ficção em diálogo com a diversidade social dos autores e do público — testa os propósitos analíticos de Literatura e sociedade. O movimento convulsivo da sociedade espelha como a literatura recria em organização criativa. Caminhos de realização ficcional e social se apresentam para uma autoria que sempre “esteve lá”— negros, mulheres, indígenas, LGBTQIA+ etc. — mas que, frequentemente, foi retratada de forma estereotipada em nossa história literária, não chegando ao público ou sendo menorizada quando lograva alcançá-lo. Além disso, e talvez o que mais importa, o cenário atual faz valer aquilo sobre o que Candido, muitos anos depois, mantendo seu compromisso como sociólogo e crítico, escreveria em “O direito à literatura”: a fabulação literária como um direito humano fundamental, componente de um desejo que nos faz humanos e necessária para as mudanças sociais que, da maneira mais progressista, ansiamos.

Quem escreveu esse texto

Mário Augusto Medeiros da Silva

Sociólogo, é professor da Unicamp e escritor. Publicou Numa esquina do mundo (Kapulana), Gosto de Amora (Malê).

Matéria publicada na edição impressa #68 em março de 2023.