Crítica Literária,
Ben Lerner entre a prosa e o verso
O escritor estadunidense volta a circular em português com o ensaio O ódio pela poesia e a coleção de poemas As luzes
11jul2025 • Atualizado em: 18ago2025 | Edição #97Desde que teve publicado seu romance Estação Atocha (Rádio Londres, 2018), Ben Lerner tem sido visto como uma espécie de Woody Allen millenial da poesia (trata-se de um elogio, o resenhista não cancelou Allen). Conhecido pela poesia anticonvencional e a prosa de autoficção polvilhada de reflexões sobre arte, política e linguagem, sempre com um humor neurótico autodepreciativo e o dom de puxar o tapete do leitor quando menos se espera, Lerner insere-se em uma tradição de autores que diluem as fronteiras entre ficção e ensaio, como W. G. Sebald. Suas colaborações e referências revelam uma prática artística híbrida, conectada a criadores que exploram os limites das formas e das ideias.
Nascido na cidade de Topeka (EUA) há 42 anos e hoje residente de Nova York, o poeta está associado a diversos artistas, como a escritora Rachel Kushner, o fotógrafo Thomas Demand e a compositora Caroline Shaw. Bastante interessado na obra de Karl Ove Knausgård, sobre quem escreveu, e na arte de Christian Markclay, cujo filme The Clock é central no romance 10:04 (Rocco, 2018), Lerner tem como guia o poeta John Ashbery, conforme relata em O ódio pela poesia, por causa de sua ambiguidade em transitar pelos litorais da linguagem poética, e John Coltrane, símbolo da busca pela transcendência através da arte, em particular o álbum A Love Supreme.
O ensaio sobre amor e ódio na poesia foi publicado nos Estados Unidos há quase dez anos. Será que Lerner ainda odeia poesia? “Haha não, mas ainda me interesso pelo motivo de tantas pessoas amarem odiar poesia. Por que a poesia é uma arte tão denunciada e defendida? O ritmo de denúncia e defesa é tão antigo quanto Platão. Meu pequeno livro explora o que esse ritmo revela, não apenas sobre nossa compreensão da poesia, mas sobre nossa cultura de modo mais amplo — por exemplo, nossa ansiedade pelo espaço para sentimento e imaginação em nossas vidas cada vez mais administradas. Às vezes, quando dizemos que a poesia está morta, na verdade queremos dizer que estamos ansiosos por ter perdido capacidades especificamente humanas. Então, não é que eu odeie poesia (embora a poesia certamente possa ser muito ruim e deixar alguém louco da vida), mas estou explorando por que razões esta arte — dentre todas as artes — continua a ser foco de tanta ansiedade e desprezo. Na verdade, acho que é um sinal da relevância e do poder da poesia a gente ter tantas vezes sentimentos negativos sobre ela: ansiedade, vergonha, perturbação”, diz o escritor em entrevista para a Quatro Cinco Um.
Uma das qualidades fascinantes na literatura de Lerner é seu humor um tanto bizarro
Uma das qualidades fascinantes de Lerner é seu humor um tanto bizarro — como a famosa cena do romance 10:04 em que ele se projeta no futuro conversando com a filha que teve através de inseminação artificial com uma amiga. Ele tem também o talento de nos surpreender com imagens inesperadamente líricas, como em “O bosque”, quando, ao descrever a conversa com uma amiga que lhe pediu uma lista de coisas pelas quais ser grato, acabamos chegando de modo inusitado a uma cena em que a amiga fica feliz… por compartilhar os mesmos piolhos que a filha. Lerner gosta de escrever poesia a partir de listas ou coisas irritantes como piolhos? “Sua pergunta me faz perceber que tenho uma tendência a pegar algo considerado ruim — piolhos! — e tentar transformá-lo em uma figura de possibilidade social ou intimidade pessoal. Isso acontece várias vezes no livro. Por exemplo, há aquela linha sobre ‘enumerar as formas ruins de poder coletivo alienado’ — dívidas agrupadas, poluição da água — e tentar pensar como elas também envolvem um lampejo de possibilidade utópica: como estamos todos conectados não apenas pela economia, mas também pela água que bebemos. Assim, a poluição se torna uma forma de interconexão. Acho que esse tipo de transvaloração é central para a arte, para mim.”
Insisto com ele com o tema das listas, pedindo que enumere os livros que mais odeia e os livros que mais odeia que as pessoas odeiem. “Não posso dar listas — meio que detesto a tendência de produzir ‘listices’ —, mas diria que é raro eu realmente odiar um livro. Indiferença é uma coisa — há milhões de livros que considero derivativos, chatos, inertes ou ofensivos. Mas odiar verdadeiramente um livro seria admitir que ele tem poder real, que constitui um evento significativo em minha vida de leitor. Quando li a poesia de John Ashbery pela primeira vez, acho que a odiei — me perturbou, ofendeu todas as minhas noções do que um poema deveria ser. E então passei a amá-la mais do que qualquer outra poesia em inglês”, conta.
Traduzidos esplendidamente por Maria Cecilia Brandi, tanto As luzes quanto Percurso livre médio (Edições Jabuticaba, 2020) sugerem que Lerner leva sua máquina de corte em um rolê aleatório para embaralhar versos, deixando-nos em suspenso entre o som e o sentido. Às vezes ele entrelaça no mesmo poema dois poemas diferentes, de ritmos, musicalidades e conceitos diversos, e o choque entre imagens contrastantes forma uma terceira imagem repentina em nossa cabeça — como ocorre, muitas vezes, na edição cinematográfica.
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Quando o leio, sinto que a poesia pode ser algo que puxa o tapete de debaixo dos nossos pés, mas também um tapete mágico. “Gosto do que você diz sobre o tapete se tornar um tapete mágico, o mesmo objeto mundano desempenhando funções muito diferentes. Acho que é isso que os poemas que amo realizam — me fazem ver a mesma imagem, o mesmo objeto, a mesma palavra, de mais de uma maneira. E isso me permite acreditar que novos mundos e relações possam ser construídos com o que está à mão, com o que já está aqui. Então, na medida em que posso generalizar sobre o que um bom poema faz, acho que é algo parecido com o que você está fazendo com a figura do tapete.”
Inteligência artificial
Na orelha de Percurso livre médio, o poeta e tradutor Paulo Henriques Britto aponta: “O corte do verso muitas vezes abre a possibilidade de que um verso seja a continuação não do imediatamente anterior, mas de algum que veio antes deste, o que tem o efeito de multiplicar as leituras possíveis. O que dá unidade a todo o projeto é a voz do eu lírico, que discorre sobre os grandes temas da poesia — entre eles o amor, a morte e a própria linguagem — a partir de uma perspectiva contemporânea, valendo-se da abundância de metáforas com uma inteligência e uma criatividade que nunca cessam de surpreender o leitor”. O que me leva a investigar se Lerner usa o método de recorte e colagem… e se já usou alguma inteligência artificial para escrever poesia.
“Muitas vezes faço colagem e reaproveito materiais encontrados. Muitas vezes tento testar — através da repetição — como um tapete pode se tornar um tapete mágico. Mas os dispositivos são bem específicos, é difícil generalizar. Nunca usei nenhuma ia, mas usei a Wikipédia em um ensaio para a Harper’s”, revela. “Na verdade, faz tempo que poetas usam regras e procedimentos para gerar poemas. Então, em certo sentido, já posso ter tido muitas experiências de ser comovido por poemas que não foram gerados pelas decisões de um autor humano. Até um soneto é uma espécie de algoritmo! Dito isso, a nova tecnologia é avassaladora e assustadora.” Será que uma inteligência artificial pode se tornar uma grande poeta? “A ia pode escrever boa poesia e até emular o estilo de grandes poetas; mas se pode ser ‘grande’ no sentido de transmitir emoção e experiência humana profunda e original, isso é algo que só pode permanecer ligado à consciência e à criatividade humanas (foi o Chatgpt quem disse isso)”, brinca.
O Mundo Literal pede poemas “instagramáveis” — que não têm nada a ver com os de Lerner, que não cabem no feed ou nos stories
“Às vezes você tem que matar a abelha; às vezes tem que prensar a flor”, “Pulgas não são lagostas”, “O caminho azul nunca faz a curva”, “Estrelas não são campanários”. Como Lerner sugere em um poema em prosa de As luzes, os provérbios estranhos em iídiche de sua avó judia e as frases nonsense de seu pai parecem ter moldado sua inclinação para o incongruente na poesia — como o encontro de um guarda-chuva e uma máquina de costura em uma mesa de dissecação, na definição de beleza de Lautréamont. “Certamente a incongruência produz uma faísca, mas estou mais interessado naqueles momentos em que congruência e incongruência são suspensas indecidivelmente — seja porque uma relação é tênue ou porque há muitas relações possíveis. Nesses momentos, o leitor precisa fornecer o elo, articular a relação entre versos ou estrofes, tornando-se participante na construção da forma, na ligação entre parte e todo”, pede.
Longe da literalidade
Essas imagens estranhas de Lerner passam longe da literalidade que vem corrompendo a arte e a cultura — em uma aproximação apressada. Estariam menos para a superfície de Coralie Fargeat do que para a estranheza de Yorgos Lanthimos, digamos. Contaminados por termos extraídos das ciências sociais, poemas diretos, sem ambiguidade, nuance ou contradições cada vez circulam mais; também vemos filmes com tudo no lugar — pedras representam pedras e carros representam carros —; e até a boa literatura é contaminada por esse literalismo, essa unidimensionalidade, esse desejo de traçar linhas rígidas entre preto e branco para que o leitor não tenha dúvidas sobre “a mensagem” que deve engajá-lo. Nada mais distante dos poemas de As luzes. “Em um poema, a forma é uma forma de conteúdo — o poema se desdobra como um evento no tempo, a estrutura determina o sentido, e assim por diante. Então, um poema pode representar pedras e carros, mas também nos faz experimentar a materialidade da linguagem, experienciar como as palavras são tão reais quanto pedras e carros. Como um poema é tanto um meio para representar o mundo quanto um objeto material delicadamente estruturado, ele nunca pode ser reduzido a nenhum dos polos — não pode ser apenas o que é nem apenas o que representa. Isso derrota o literalismo”, ensina.
E o Mundo Literal pede poemas “instagramáveis” — que não têm nada a ver com os de Lerner, que não cabem no feed ou nos stories. Enquanto isso, o Instagram vê ascender uma enorme onda de poetas com versos curtos e conteúdo plano, à la Rupi Kaur. Ah, que raiva que dá! Entre os odiadores da poesia, Lerner relaciona Platão, que “tenta defender a língua como o meio que a filosofia utiliza, contra a insensatez dos poetas que apenas inventam baboseiras”. O que Platão diria sobre esses poetas populares horríveis? “Olha… acho que hoje Platão estaria bem mais preocupado com deep fakes e pornografia do que com Rupi Kaur…”, diverte-se Lerner.
Matéria publicada na edição impressa #97 em setembro de 2025.
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