A artista indígena Glicéria Tupinambá (Pedro Pina/Fundação Calouste Gulbenkian/Divulgação)

Ciências Sociais,

O avesso da trama

Glicéria Tupinambá tece o caminho do manto sagrado de seu povo como narradora-feiticeira, guiada pela voz da própria veste ritual

20jul2026

O Manto Tupinambá, um traje feito com penas de ave e uma trama de fibras, é usado em rituais por esse povo. No período colonial, a veste sagrada foi expatriada para a Europa e oferecida como presente à nobreza — depois, foi guardada em museus europeus. Em 2024, um desses mantos, que estava no Museu Nacional da Dinamarca, foi repatriado e doado ao Museu Nacional, no Rio de Janeiro, um marco no processo de retomada de artefatos indígenas. 

Glicéria Tupinambá é uma das grandes responsáveis pela repatriação e foi a primeira mulher a confeccionar, quatrocentos anos depois, o manto sagrado. Ela conta essa trajetória em O feitiço do fio: a busca pelo Manto Tupinambá. Mais do que isso, nos conta o que ouviu o manto dizer. 

Apesar da proposição, por séculos, de uma convivência harmônica com a terra, os animais, as plantas, a água e os rios, a racionalidade ocidental, branca e colonial insiste em prolongar seu tempo por ser incapaz de conviver com a natureza sem hierarquizá-la. Quão distante tal mentalidade está de conseguir ouvir um objeto? Melhor, de compreender aquilo que não é exatamente um objeto, pois tem agência sobre si, fala, planeja e opera numa ontologia diversa? 

Ao ouvir o assojaba (veste sagrada), um instrumento ritualístico vivo, como procedimento de pesquisa para a produção de dados, a autora produz uma dobra no tecido acadêmico da legitimação, pois passa a se valer do mistério e da cosmologia dos sentidos como fonte científica. Glicéria puxou a ponta solta, foi na direção do que se esconde para continuar existindo e, pelo feitiço de ouvir a veste ritual, traduziu os rastros daquilo que ficou no tempo. 

Sem reduzir o pensamento tupinambá ao sistema filosófico bantu-kongo, há um diálogo possível com a reflexão de Tiganá Santana, que escreve: “Traduzir com bases feiticeiras é caminhar com as interações; é ter ciência delas”. 

A tradutora feiticeira, segundo Santana, transita pelos sistemas por necessidade, se especializa em segredos que não sabe e está em conexão com as faces variadas do mundo. É quem compreende que herda uma trama muito anterior àquilo que é capaz de lembrar, interagindo com o segregado pela vida e pela morte. 

Pelo feitiço de ouvir a veste ritual, ela traduziu os rastros daquilo que ficou no tempo

Para Glicéria, sua cultura é como um “pote inteiro que jogaram num lajedo e que voou em caquinhos por todos os lados”. Assim, a tradução com feitiço se aproxima do resgate desses pedaços e da feitura de um novo pote, remendado.

No encontro com o Manto Tupinambá na Dinamarca, em 2022, o assojaba falou de modo simples, trazendo para Glicéria as sensações e os sentimentos que só ela poderia ter. Disse que ela demorou, mas que era bom que houvesse chegado. Ser reconhecida pelo manto, justamente quando ia reconhecê-lo, foi como uma saudação “do povo da sua linhagem direta de sangue”. Por isso, ele é o “interlocutor” da pesquisa. 

Mesmo que a maioria dessas pessoas pouco ou quase nada saiba sobre os Tupinambá, somos nós e os nossos ancestrais que asseguramos a felicidade, a saúde e o clima de todos eles.

Esse é um trecho da carta escrita por Cacique Babau Tupinambá (anexada ao livro), que, orientado pelos encantados, solicitou o retorno dos Mantos Tupinambás para o Brasil. Foi esse pedido, endereçado em 2022 ao diretor do Museu Nacional da Dinamarca, que levou Glicéria ao encontro dos mantos. 

Pontes

A autora de O feitiço do fio não inicia apenas na academia a tessitura dessa jornada, mas, como antropóloga, eleva as medidas para a produção do conhecimento relacionado à humanidade. 

A metodologia de seus estudos chacoalha as discussões sobre inclusão e, além disso, demanda a formulação de um projeto político nacional que abarque os povos pindorâmicos. Ao defender uma perspectiva que reverta o jogo de forças e demonstrar com a própria jornada que isso é possível, ela advoga pela construção de pontes entre os tupinambás e as instituições que os definiram — sem que eles participassem.

Gesto de posicionar a malha-no-pé-ponto do jereré (Quinho Fonseca/Divulgação)

No sul da Bahia e na Europa, a líder indígena, da aldeia Serra do Padeiro, na Terra Indígena Tupinambá de Olivença, dirigiu seu olhar às técnicas remanescentes nas mãos e na memória de seus parentes. Nas fotos, nos encontros e nas exposições, estava a malha do manto, que se assemelha à plumagem dos pássaros. Esse foi o mote de Glicéria ao buscar seu DNA no tecer artesanal, com olhar para o todo, fora de um tempo presente que parece cada vez mais orientado para a individualização.

É o fio que extrai da história o que ficou invisível, mas em analogia à estrutura do avesso do manto: nós em losango na linha do tucum, formas do ponto do jereré e penas maduras doadas por diversos pássaros. 

A partir de fotos e da intuição, Glicéria confeccionou, em 2006, um manto como presente para os Encantados Tupinambás. Foi orientada por seu pai, que fez e lhe deu a agulha; por sua madrinha; por Dai, que lhe ensinou os pontos; e por uma fotografia da malha, mostrada por uma antropóloga que visitou a aldeia.  

O Grande Pássaro

A obra dá atenção, de forma elegante, a uma autopercepção da ignorância. Ensina a ética de direcionar o olhar para quem nunca deixou de existir. Em ocasiões de trabalho com grandes instituições, Glicéria demonstra o que é ver “o que sempre esteve lá”. 

Há os que preferem rejeitar de forma completa a história colonial. Não há dúvidas de que é justo resistir a uma oficialidade que criou as hierarquias entre os povos. Mas o sonho levou Glicéria além das fronteiras imaginárias do próprio território. Ela revisitou escritos jesuítas, publicações quinhentistas e coleções de artefatos indígenas relegadas em museus tradicionais. Sem ignorar a violência e a ótica racista, identificou detalhes que passavam despercebidos ou que sofriam com a má vontade da percepção ocidental. 

O Ritual do Grande Pássaro foi relatado por um jesuíta sem que ele tenha percebido ou nomeado o ritual assim. A cerimônia é prontamente assimilada por Glicéria na leitura dos documentos que registram seu povo como selvagem. Os escritos descrevem as mulheres — as majés e bajés, que vestem os diferentes mantos em um ritual — e mostram que as peças, quando juntas, completam o corpo de um pássaro. 

Feiticeiros tupinambá com mantos de penas (Alfred Métraux/Divulgação)

O passado se conecta com a sensação que Glicéria teve ao se encontrar com um manto pela primeira vez, em 2018, no Museu do Quai Branly, em Paris. O manto, uma energia feminina, falou como havia sido confeccionado, na aldeia, por mulheres e crianças. Ao perceber que o manto é um ancestral coletivo e feminino, usado e feito pelas mulheres, a autora descortina o fato de que elas ocuparam posições de autoridade e poder sagrado na comunidade, algo não considerado antes.

Era delas o papel de planejamento para alimentação e garantia de condições de vida. Isso significa meditar sobre possibilidades, sustentar decisões e exercer sabedoria. Planejar a vida é uma atribuição que, na comunidade, se dá a alguém por estratégia. Nesse caso e de vários outros povos indígenas, a prioridade aponta para a sobrevivência e a segurança de seus territórios. As mulheres tupinambás foram diluídas no imaginário porque elas tratam da projeção de futuro em um devir ancestral.  

Glicéria demonstra como, até na tentativa de reparação, existe o pressuposto de que não há agência tupinambá, apenas passividade. 

Ela recorre à diplomacia exercida pelos tupinambás há séculos. Casamentos políticos, presentes dados como troca em acordos com os europeus e a transferência dos mantos aos museus. Isso pode ser traduzido, de forma ousada, com as palavras de Glicéria: “domesticar e converter as fontes a nosso favor”. Um feitiço a longo prazo. 

Gesto do ponto do jereré (Quinho Fonseca/Divulgação)

A circulação diplomática dos tupinambás é exercida também no movimento estético em torno da arte plumária, considerada uma expressão sofisticada e essencial das nações indígenas no Brasil. Na lida com o mundo das artes visuais, Glicéria foi a primeira artista indígena em uma exposição individual do Brasil na Bienal de Veneza, em 2024. É uma das vencedoras do prêmio Pipa 2023 e curadora da mostra “Eu chorei rios: arte dos povos originários da América”, em exibição até setembro na FGV Arte, no Rio de Janeiro. 

Em uma aproximação entre os mais velhos das aldeias e os museus, Glicéria diz que desperta o conhecimento guardado porque os interroga — o que também faz ao ouvir os “não objetos”. Ela acredita que uma consequência da compreensão dos mantos como não objetos é a ideia de que eles têm agência. E encontra nesse caminho o mercado, que de forma voraz aumentou o interesse comercial pela arte plumária, justamente devido à mudança do seu valor simbólico. 

Isso implica uma relação democrática de acesso, desafiando a própia concepção das instituições sobre posse e conservação. O Manto Tupinambá circula, dialoga, viaja. O manto não tem preço.

Quem escreveu esse texto

Duda Nascimento

É jornalista e assistente de comunicação no Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros (Ipeafro).

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