Doce celebração

Ciências Sociais, Literatura infantojuvenil,

Doce celebração

Obra delicada apresenta os santos Cosme e Damião dialogando com crenças populares e sincretismo religioso no Brasil

29set2025 • Atualizado em: 01out2025 | Edição #98

A tradição nos conta que, no século 3, em algum lugar onde hoje é a Síria ou a Turquia, dois irmãos gêmeos e médicos, Cosme e Damião, cuidavam de crianças sem cobrar qualquer tipo de remuneração. Numa época de perseguição à religião católica pelo imperador romano Diocleciano, os gêmeos se recusaram a negar a fé cristã e foram mortos, transformando-se em mártires para sua comunidade religiosa.

A história atravessou oceanos, e o culto a são Cosme e são Damião foi ganhando força com a crença de que as estrelas mais brilhantes da constelação de Gêmeos eram os irmãos ao lado de uma criança de quem cuidaram. Com a diáspora negra no Brasil, a crença popular adquiriu novos contornos. 

Ilustração de Camilo Martins (Divulgação)

Influenciando e recebendo influências, o povo iorubá atravessou o Atlântico trazendo consigo orixás como os Ibejis, que representam os gêmeos e as crianças. E, na Umbanda, com a influência africana e indígena, temos os Erês, espíritos de crianças que encantaram.

A narrativa é uma festa que homenageia tradições, mas não deixa passar batida a intolerância religiosa

Com quantas culturas se faz a canoa da tradição popular brasileira? 

Uma celebração a essa tradição, às ancestralidades e à infância: assim é As três estrelas do céu: uma história de Cosme e Damião, obra delicada e gentil que dialoga com diversos públicos sobre crenças populares e sincretismo religioso no Brasil.

Ilustração de Camilo Martins (Divulgação)

Enquanto avançamos pelas páginas, as imagens vivas e alegres de Camilo Martins nos levam a viajar pelas estrelas no céu, a navegar por mares e rios e a pisar em terra firme entre a meninada que se espreme para conseguir saquinhos de doces.

A narrativa é uma festa que homenageia tradições, mas não deixa passar batida a intolerância religiosa que ainda alcança as terras de cá e que tenta apagar orixás e encantados. Se no século 3 houve a perseguição a Cosme e Damião, no Brasil do 21 há a perseguição a Ibejis e Erês. Para completar, Luiz Antonio Simas presenteia os leitores com explicações sobre Cosme e Damião, constelações e cultura popular brasileira, criando ainda mais conexão com a história narrada e ilustrada.

Memória

Enquanto eu lia a história, meus amados alunos não me saíam da mente (aquele clichê de professores sempre pensando em suas turmas). Nem sempre é fácil debater culturas e povos que saem de um padrão imaginado e reforçado para as crianças — justamente por isso o tema é tão necessário. E, quando temos acesso a uma produção literária que o faz de modo tão doce, tudo flui melhor; afinal, livros são pontes poderosas.

É possível que, enquanto você lê este texto, memórias tenham sido despertadas; talvez você tenha se lembrado de canções, talvez tenha sentido o gostinho de doces que recebeu em comemorações setembrinas. Essa é a força da tradição popular originada na teia de influências culturais carinhosamente retratada nesse livro. 

O que mais desejo é que histórias como essa alcancem as infâncias brasileiras e que sejamos capazes de compreender e abraçar as complexas e múltiplas facetas da cultura popular brasileira.

Quem escreveu esse texto

Lavínia Rocha


Professora e escritora, é autora de O que você pensa quando eu falo África? (Yellowfante).

Matéria publicada na edição impressa #98 em outubro de 2025. Com o título “Doce celebração”

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