Ciências Sociais,
‘Dizer que livre-arbítrio existe é invocar a magia’
Robert M. Sapolsky afirma que tudo que um ser humano faz é determinado por condicionamentos ou heranças impregnadas em sua mente
20out2025 | Edição #99As decisões mais comezinhas, como a escolha da roupa pela manhã, ou as mais complexas, como o casamento ou o voto em uma eleição, não são tomadas livremente. Não existe livre-arbítrio. Essa é a afirmação central do neurocientista estadunidense Robert M. Sapolsky em seu novo e polêmico Determinados.
As decisões humanas são determinadas por fatores preestabelecidos — desde a evolução da espécie, por milhões de anos; a cultura da sociedade, por séculos; a vida familiar, por décadas; até a experiência pessoal durante a gestação, o processo educacional ou ainda aquilo que aconteceu pela manhã antes de se tomar a decisão.
Executivos dizem que a seleção de um investimento ou de um funcionário ocorre nos primeiros três minutos de uma reunião — o resto do tempo serve apenas para racionalizar e justificar uma opinião formada antes da razão. O mesmo aconteceria quando se conhece alguém: na primeira fração de segundo, cria-se uma impressão apoiada na experiência acumulada da espécie, nos padrões herdados e nas influências da própria educação. E não há escapatória para isso.
Sapolsky explora como até os ambientes impactam nossas decisões. Ele explica: há estudos clássicos em que são feitas perguntas sobre as visões políticas de uma pessoa. Em seguida, ela é colocada em uma sala com cheiro terrível de lixo. As pessoas se tornam mais conservadoras quando sentem nojo do cheiro. Já os cheiros agradáveis, como o de pão recém-assado, despertam a bondade.
‘A criatividade é apenas uma recombinação de peças que já existiam antes’
Criado em uma família de judeus ortodoxos, Sapolsky ficou conhecido por estudos sobre estresse, como “Por que as zebras não têm úlcera”. Tornou-se mais popular pelas histórias de suas expedições anuais ao Serenguéti, no Quênia, para longas observações do comportamento de babuínos (“Memórias de um Primata”), cujo comportamento ele associa a personagens do Antigo Testamento, como Salomão, Nabucodonosor, Urias ou Ruth.
Hoje, as aulas de Sapolsky em Stanford atraem plateias; os teds no YouTube têm milhões de visualizações. Ele é um dos pesquisadores mais influentes das ciências humanas nos Estados Unidos e ocupa a posição em que antes brilhou o autor de Tempo de despertar, Oliver Sacks (1933-2005): a do neurologista que produz relatos deliciosos a partir de pesquisas científicas.
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Na entrevista feita por vídeo-chamada, de sua casa na Califórnia, ele falou das decisões predeterminadas apesar da crença no livre-arbítrio, das opções políticas e de como não alteramos o modo de vida diante da emergência climática. Só não quis responder à pergunta que intitula uma recente resenha de seu livro: “Jesus Cristo tem livre-arbítrio?”. “Nem em um bilhão de anos vou tentar dar uma resposta. Não, obrigado. Não, não, nunca.”
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Se tudo está determinado, qual é a margem para o livre-arbítrio ou para qualquer tipo de vontade?
Ao passar tempo suficiente olhando o que faz a gente se comportar como se comporta, ao olhar de verdade para isso, não há lugar para o livre-arbítrio. Quer dizer, estudar apenas o cérebro não prova que não há livre-arbítrio. Estudar apenas genes, apenas hormônios ou apenas antropologia cultural — nenhuma disciplina sozinha pode provar que não há livre-arbítrio. Mas, juntando todas as peças, as disciplinas se combinam. Simplesmente não há lugar [para o livre-arbítrio].
Ao discutir os efeitos dos genes no comportamento, estamos falando sobre milhões de anos de evolução; sobre os nove meses em que os genes foram programados no feto; e sobre esta manhã, como esse gene estava ativo, quanta proteína produziu. Tudo isso forma um arco de causalidade.
Analisando isso, quem disser que encontrou uma pequena rachadura para acomodar o livre-arbítrio está, de certa forma, invocando magia. A mágica aparece em algum lugar — onde tudo que sabemos sobre ciência e leis do universo físico estaria suspenso. É aí que encaixamos o livre-arbítrio nesse grande arco.
Entre os milhões de determinantes, as combinações tendem a ser únicas em cada indivíduo. Não é irrelevante, então, discutir o livre-arbítrio?
A realidade é que 50% do que sabemos sobre o comportamento biológico aprendemos nos últimos vinte anos; 75% nos últimos trinta. Então, tudo isso são insights muito recentes e a cada ano dobraremos a quantidade de conhecimento. Mas é difícil partir da sua premissa de que existem milhões de pequenas influências e lidar conceitualmente com isso.
Pegue um júri, por exemplo, e um assassino que, aos dez anos, teve um acidente de carro que destruiu seu córtex frontal. Tudo estava bem até aquele dia. No dia seguinte, ele se tornou um assassino violento. É fácil, para as pessoas na época do julgamento, conectar o acidente ao comportamento. É muito mais difícil dizer que há um bilhão de pequenas teias que o levaram a tal ponto.
É muito complicado porque ainda não descobrimos como funciona metade dessas teias de aranha. Em casos de pessoas que se tornam assassinas porque seu córtex frontal foi destruído, é fácil ver que o livre-arbítrio se torna irrelevante. Para o resto de nós, tudo se resume a essas teias — e é difícil não só aprender sobre elas e acreditar nelas, mas também acreditar que, quando você as junta, de fato explicam quem você é atualmente.
Mas há sempre instantes em que tomamos decisões, boas ou ruins. Todas estão predeterminadas?
Existem vários futuros possíveis a qualquer momento por causa de coisas como o caos, sistemas não lineares e complexidade emergente — o futuro não está definido. Mas, olhando para o que aconteceu, para o passado, podemos ver por que alguém reagiu de determinada forma. É aí que notamos a ausência do livre-arbítrio.
Nada disso é incompatível com o fato de fazermos escolhas. É aí que surgem mais problemas com a ideia de que não há livre-arbítrio. Você está ali escolhendo entre sorvete de chocolate e de baunilha. Sabe que está fazendo uma escolha — está consciente disso. Sabe o que acontecerá se disser chocolate. Acima de tudo, sabe que não precisa escolher este; pode escolher aquele.
‘As pessoas buscam explicações simples, intolerantes e de direita para as coisas’
Para a maioria das pessoas — e para o sistema de justiça criminal —, a pergunta é: “Você estava consciente? Sabia qual era o resultado provável?”. Isso é suficiente para condenar alguém criminalmente. O problema é que ignoram 99% do que acontece de fato. A pergunta deveria ser: “Como você se tornou a pessoa que escolhe sorvete de chocolate? Que queria tomar sorvete? Que tinha dinheiro para comprá-lo? Que tinha conhecimento para ler a placa que diz chocolate? Como chegou a esse momento?”.
O problema é que, naquele instante, parece óbvio que você está fazendo uma escolha livre e com consciência. Então é difícil entender que esse é o nível errado do pensamento. “Como você se tornou esse tipo de pessoa?” Quando você disseca a questão cientificamente, vê todas as coisas sobre as quais não teve controle. Não há nada além do que ocorre biológica e ambientalmente, daquilo de que você não tinha controle e que o levou a estar naquele balcão de sorvete prestes a dizer “chocolate”.
A principal determinante sobre os seres vem da herança evolutiva e da necessidade de sobrevivência. Então, como uma pessoa sem livre-arbítrio pode optar pelo suicídio?
Já sabemos muito sobre a biologia disso, os graus de trauma ou luto. Esses são os preditivos de se uma pessoa é mais propensa a ser gravemente afetada pela depressão. Há ainda conhecimento científico que nos mostra, entre duas pessoas igualmente afetadas pela depressão, qual tem mais probabilidade de cometer suicídio.
No que diz respeito à evolução, é apenas uma parte da história. Muito já se afastou da visão da evolução como a sobrevivência do mais apto. Trata-se de deixar genes na próxima geração. No geral, observamos os organismos se comportando de maneira a assegurar essa transmissão. Mas existem alguns grupos religiosos que não se reproduzem ou pessoas que abdicam da vida para proteger um estranho. Portanto, é complicado.
Mas, sim, a versão contemporânea da evolução do comportamento é uma das partes — assim como o ambiente fetal, a comida do café da manhã e os efeitos químicos dos nutrientes no cérebro. Tudo isso é relevante. Mas a evolução é apenas uma parte.
[O pensador] Charles Sanders Peirce vê a epifania como uma invenção, a criação de uma nova ideia. Como a criatividade aparece em sua teoria?
O mais desanimador como estudante universitário foi quando escolhi fazer uma aula de linguística bem conceitual. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo. Nos mandaram ler Charles Sanders Peirce. Nunca me senti tão perdido. O nome dele ainda me dá arrepios, cinquenta anos depois.
Sobre a noção de epifania, trata-se de uma versão extravagante da pergunta “Será que algo é verdadeiramente criado?”. Nas artes se debate isso eternamente, assim como quem estuda Peirce. Mesmo quando algo parece vir do nada — nada realmente vem do nada.
Existe explicação para você ter se tornado a pessoa que pensa, por exemplo, no caso de Einstein, sobre tempo e espaço diferente de qualquer físico. Do ponto de vista artístico, acho que ainda está em aberto se algo poderia ser realmente criado do nada. Mas, biologicamente, nada vem do nada. Há uma razão pela qual alguém acaba sendo o tipo de pessoa que gera algo que o mundo nunca viu antes.
Você pode nos ajudar a entender o que determina o nosso voto ou comportamento político?
Sim. Há uma razão pela qual grande parte do mundo está sendo varrida por ideologias de direita, intolerantes, nacionalistas, chauvinistas e religiosas. O Brasil acabou de passar por um presidente horrível, exemplo disso.
As pessoas buscam explicações simples, intolerantes e de direita para as coisas. Isso acontece quando estão com medo, ansiosas, sentindo que a sociedade não presta atenção nelas e que são irrelevantes. E vem alguém carismático que diz: “Não só é aceitável você estar com raiva e ser odioso; isso é algo bom. Também sou assim, merecemos ser assim”.
Não é por acaso que Donald Trump é quem é. Que os Estados Unidos têm um líder como ele, enquanto o Canadá, a Islândia e a Nova Zelândia não têm. Nem que Hitler conseguiu persuadir algumas pessoas e falhou em convencer outras. Nada disso é fruto do acaso.
Estamos num mundo que se dirige à autodestruição. Sabemos disso, mas seguimos em frente. Como entender esse comportamento?
Há um par de psicólogos — Daniel Kahneman, que ganhou o Nobel de Economia, e Amos Tversky, que morreu jovem demais para receber um — que iniciou o campo das heurísticas cognitivas, que são atalhos mentais. É um jeito fácil de pensar: se estou nessa circunstância, provavelmente isso é o que está acontecendo. E 90% das vezes as heurísticas funcionam bem.
Mas então surgem as situações em que isso não ocorre. E o que acontece neste instante é muito mais impactante do que aquilo que pode acontecer daqui a uma semana, um século. Os economistas chamam isso de “desconto temporal”. Não somos bons em ver consequências que se revelam em níveis maiores, como a degradação de ecossistemas enquanto o planeta aquece. É muito difícil acreditar que coisas grandes e complicadas no futuro são construídas com pequenos pedaços que se juntam hoje. O presente conta muito. Então, como espécie, somos péssimos em lidar com o aquecimento global.
Você escreve que sentir um cheiro ruim tende a afetar nosso comportamento. Qual e por quê?
Eu adoro esse estudo. Mostra que, ao colocar uma pessoa em uma sala e fazer perguntas sobre suas visões políticas, sociais, econômicas e geopolíticas, vamos observar uma mudança de comportamento se ela for exposta a um cheiro terrível de lixo. As pessoas se tornam mais conservadoras em termos sociais porque inconscientemente sentem repulsa pelo cheiro.
‘Em julgamentos, os jurados tomam suas decisões nos primeiros dez minutos da fala do réu’
O cérebro tem dificuldade em distinguir nojo sensorial de nojo moral, já que a mesma parte do cérebro lida com essas sensações. Isso leva a um aumento da intolerância social e a posturas políticas mais à direita. Mas, quando você pergunta a uma pessoa por que, uma semana antes, ela não tinha objeções ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, mas agora se opõe a isso, a explicação não será o cheiro incômodo. Em vez disso, a pessoa vai inventar uma explicação cognitiva, uma justificativa temporal.
É verdade que formamos uma opinião sobre uma pessoa no primeiro milissegundo em que a conhecemos? Podemos mudar esse sentimento com o tempo?
Uma versão disso é que, em julgamentos, os jurados tomam suas decisões nos primeiros dez minutos de fala do réu. Pessoas que dirigem peças relatam decidir sobre um ator nos primeiros dez segundos da audição. Essa tendência é forte entre os seres humanos, que têm uma categorização forte de “nós” e “eles” — e uma aversão generalizada a “eles”. (Estudos com primatas não humanos observam fenômenos semelhantes.)
Uma pesquisa revela que, em 75% dos americanos brancos, quando veem a imagem de um rosto negro, a amígdala cerebral — relacionada a medo, agressão e ansiedade — se ativa em 70 milissegundos. Isso é mais rápido do que perceber conscientemente o que vimos. Você pode ver a imagem por apenas 10 milissegundos, você nem sabe que a viu, mas a amígdala sabe e se ativa. Cerca de 75% das pessoas fazem isso automaticamente.
Então, má notícia: distinguimos automaticamente entre “nós” e “eles”. A boa notícia é que é fácil manipular o que conta como “nós” e como “eles”. Podemos mudar essa percepção rapidamente.
Você costumava trazer metáforas bíblicas ao escrever sobre grandes macacos. Recentemente, um neurologista (Álvaro Machado Dias) comentou seu livro na Folha de S.Paulo. Ele perguntou: Jesus Cristo tinha livre-arbítrio? O que você acha?
[Sapolsky pula para trás levando as mãos à cabeça e ri.] Nem em um bilhão de anos eu tentarei responder essa pergunta. Não, obrigado. Não quero me envolver nessa questão. Não tenho resposta para isso.
Na primeira vez que conversamos, há uns 25 anos, você tinha acabado de ter um bebê. Como você percebe sua influência nas escolhas dele ou dela? E como ele ou ela te influencia?
Aqui está ela [vira a câmera para a filha, ao seu lado no sofá], agora com 25 anos mesmo. Isso é só para alarmá-la.
Eu não sei. Meus dois filhos são ateus. Ambos céticos quanto ao livre-arbítrio. Além disso, ambos têm uma visão política bem à esquerda. O que isso tem a ver com a mãe deles e comigo — não vou começar a especular. Mas estamos muito contentes com quem se tornaram. Estamos dispostos a receber crédito, mesmo sem merecer todos. Especialmente se não houver livre-arbítrio. Enfim, eles se parecem conosco em alguns aspectos importantes, embora sejam muito diferentes em outros. Minha filha está dizendo que isso vale principalmente em termos de higiene!
Matéria publicada na edição impressa #99 em novembro de 2025. Com o título “‘Dizer que livre-arbítrio existe é invocar a magia’”
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