

Ciências Sociais,
Fábulas reais para tempos modernos
Ensaio sobre teorias da conspiração e livro-reportagem da compra do Twitter mostram como redes sociais criaram um mundo paralelo
25out2024 | Edição #87“O espelho e a pia” poderia ser uma fábula para tempos modernos. Nela, o espelho serviria como forma de escape para um mundo que reflete apenas o que se quer ver. Já a pia, seria carregada porta adentro do escritório simplesmente para render uma piada nas redes sociais (mais sobre isso adiante).
O espelho e a pia não são como os animais de Esopo, mas ajudam a contar como a internet virou um celeiro para extremismos, teorias da conspiração e toda sorte de aproveitadores. Essa não é apenas uma história sobre como as pessoas usam as redes (e são usadas por elas), mas também sobre os responsáveis por transformar as supostas novas praças públicas em virtuais praças de guerra.
Duplos

Em Doppelgänger, a canadense Naomi Klein mergulha em uma experiência pessoal e reveladora sobre como as pessoas podem encontrar nas redes respostas para suas frustrações e anseios, levando à formação de uma identidade de grupo que compartilha a percepção de que a realidade é fruto de uma manipulação permanente.
O que motivou Klein a perseguir esse tema foi ser constantemente confundida com Naomi Wolf, escritora norte-americana que fez muito sucesso nos anos 90 com a publicação de O mito da beleza (Rosa dos Tempos, 2018).
A confusão entre as duas Naomis começou pelo fato de ambas serem autoras de livros sobre grandes ideias. As duas têm cabelo castanho, são judias e tiveram parceiros que são produtores de cinema e se chamam Avram. As semelhanças param por aí. Wolf se tornou uma participante de podcasts sobre teorias da conspiração, além de especular nas redes sociais sobre os efeitos das vacinas contra a Covid-19.
Klein analisou em um livro anterior, Sem logo: a tirania das marcas em um mundo vendido (Record, 2002), como a noção de que marcas não vendem apenas produtos, mas principalmente estilo de vida, contribuiu para alargar as desigualdades, incentivando as pessoas a verem a si próprias como uma marca que precisava ser vendida. Essa percepção foi acelerada com as redes sociais, nas quais os usuários se tornaram um duplo de si mesmos.
Mais Lidas
A ideia de bifurcação acompanha toda a trajetória do seu novo livro. A investigação de Klein começa com Wolf, um duplo que espelha seus valores e visões de mundo com os sinais trocados, mas acaba por diagnosticar como grupos e nações passam a contar com duplos, forçando uma construção da identidade através do antagonismo: nós não acreditamos no que eles acreditam, nós somos o que eles não são.
O mundo-espelho repleto de teorias da conspiração explorado por Klein também se conecta com outra obra anterior da escritora. Em A doutrina do choque: a ascensão do capitalismo do desastre (Nova Fronteira, 2008), a autora descreveu como tragédias geram descrença na capacidade do Estado e se transformam em oportunidades de lucro para agentes privados. Diferentes matizes desse movimento podem ser percebidos desde a passagem do furacão Katrina, em Nova Orleans, em 2005, até a tragédia das chuvas de 2024 no Rio Grande do Sul, quando as redes sociais brasileiras foram tomadas por um discurso anti-Estado e de reconhecimento exclusivo do esforço do voluntariado em conter os danos.
Uma tragédia que fez com que muitas pessoas pulassem para dentro do mundo-espelho foi a pandemia de Covid-19. Confusas com a enxurrada de informações desencontradas sobre o vírus, muitos foram presa fácil para oportunistas que procuravam capitalizar em cima de uma nova audiência em busca de respostas fáceis.
Klein começa na tecnologia, mas deságua em efeitos de natureza política e econômica
A mensagem explorada por Klein começa na tecnologia, mas deságua em efeitos de natureza política e econômica. A persona digital tem o seu valor medido em número de curtidas, comentários e compartilhamentos. Quanto maiores os números, maior a possibilidade de monetização dos conteúdos. As redes viraram assim uma apoteose da marca pessoal. Essa dinâmica tecnológica gera um capital que pode ser explorado não apenas para vender produtos e serviços, mas também cria um capital que pode ser explorado politicamente. Os seguidores são potenciais clientes, mas também são potenciais eleitores.
Poucos personagens simbolizam essa junção de capital midiático, econômico e político como Elon Musk. Sua atuação na compra do Twitter (atual X) joga luz sobre o que acontece quando uma plataforma digital com milhões de usuários se transforma no playground de uma só pessoa.
‘Bem-vindo ao inferno’
Limite de caracteres, de Kate Conger e Ryan Mac, jornalistas do New York Times, oferece uma janela para os tensos meses em que se desenrolou a compra do Twitter, assim como um relato contundente das transformações realizadas na empresa por Musk.
Os jornalistas estadunidenses Kate Conger e Ryan Mac (Divulgação)
Conger e Mac exploram como Musk — usuário assíduo da plataforma — resolveu comprar a rede social depois de diversos episódios em que ele discordou da forma que a empresa atuou na moderação de conteúdo. Não se pode necessariamente caracterizar uma compra de 44 bilhões de dólares como um impulso, mas todo o processo de aquisição levou a questionamentos sobre se o valor oferecido por Musk era mesmo adequado.
O próprio empresário chegou a disputar o tema nos tribunais, alegando que a empresa teria inflado o número de usuários. No final, o tribunal obrigou Musk a honrar a proposta feita e a rede social, com centenas de milhões de usuários, passou a ser sua.
O temperamento e o modus operandi do novo dono do influente Twitter não demorou para entrar em cena. Na primeira reunião com diretores e funcionários, Musk entrou pela porta da frente do escritório em São Francisco carregando uma pia. Todo o esforço era para publicar nas redes uma foto do momento acompanhada do texto “let that sink in” (expressão para algo como “se acostume com isso”).
A compra do Twitter rendeu muitas análises, mas talvez poucas tenham sido tão proféticas como um artigo de Nilay Patel, editor do site The Verge, especializado em tecnologia. O texto se chama “Bem-vindo ao inferno, Elon”:
Agora você estragou tudo de vez, garoto. O Twitter é uma empresa desastrosa, um verdadeiro circo de erros, que é bem–sucedida apesar de si mesma, e não há como aumentar o número de usuários e a receita sem fazer uma série de compromissos enormes que, no final, destruirão sua reputação e possivelmente causarão danos graves às suas outras empresas.
Patel argumenta que os principais problemas do Twitter não são questões de engenharia, mas sim políticas. O valor da empresa não estaria na sofisticação tecnológica, mas na base de usuários, que são “políticos, repórteres, celebridades e outras pessoas completamente viciadas que deveriam entender melhor, mas continuam postando”. Patel então conclui: “Você [Elon Musk] acabou de se comprar por 44 bilhões de dólares”.
Os jornalistas retratam como a rede social que deveria ser uma janela se tornou um espelho distorcido
A simbiose entre a rede social e o seu dono não tardaria para acontecer. Conger e Mac narram que Musk foi assistir à final da Copa do Mundo de 2022 no Qatar. Sentado ao lado de Jared Kushner, genro de Donald Trump, acompanhou o jogo enquanto esperava para se reunir com possíveis novos investidores e anunciantes da plataforma. Por determinação de Musk, a conta oficial do X anunciou no mesmo dia que a rede não mais iria permitir que publicações de seus usuários contivessem links que levassem o leitor para plataformas concorrente. A medida causou um furor na rede social, contradizendo regras básicas sobre liberdade de expressão e livre mercado. Em vez de fechar negócios, Musk passou a viagem tentando apagar um incêndio que ele mesmo criou.
No final das contas, o bilionário publicou nas redes que se arrependia da decisão e que a partir daquele momento escolhas importantes seriam tomadas através de enquetes na plataforma. Musk publicou uma enquete perguntando se ele deveria continuar como CEO do X. Mais de 17,5 milhões de perfis votaram e 57,5% pediam a sua renúncia.
Conger e Mac narram dezenas de outras situações em que a vontade do dono leva a modificações súbitas no modo que a rede social opera, incluindo um algoritmo que garante a visibilidade de publicações feitas pelo próprio Musk.
Pontos de encontro
Os pontos de encontro entre Doppelgänger e Limite de caracteres se revelam na maior facilidade com a qual teorias da conspiração e ataques passaram a circular no X. Musk demitiu parte importante da equipe de moderação de conteúdo, que ele associava a práticas de censura. Donald Trump e outras contas que haviam sido banidas da plataforma foram trazidas de volta.
A recusa de Musk em cumprir as decisões do Poder Judiciário brasileiro, em especial do ministro Alexandre de Moraes, veio depois que Limite de caracteres já estava pronto, embora o livro aponte que Musk já se mostrava incomodado com a atuação do magistrado, que ordenou a remoção de conteúdos e de contas da plataforma.
Em termos gerais, o mundo nunca tinha visto o dono de uma rede social tão popular se transformar abertamente em um agente político, passando a interferir nas discussões políticas locais, escolhendo aliados e apontando inimigos para uma multidão de seguidores. Se for somado ainda o fato de que Musk, através da Starlink, leva o acesso à internet via satélite para áreas em que o governo falha em atender, fica fácil perceber o poder político que exerce.
Se Doppelgänger investiga as razões, a gramática e as consequências de tantas pessoas pularem para dentro do mundo-espelho, Limite de caracteres oferece um retrato contundente de como uma das mais populares redes sociais, que deveria ser uma janela para o mundo, se tornou esse espelho distorcido. Como alertam Conger e Mac: “O que antes foi chamado de praça pública digital está se tornando o espelho de Musk”.
Matéria publicada na edição impressa #87 em novembro de 2024.
Chegou a hora de
fazer a sua assinatura
Já é assinante? Acesse sua conta.
Escolha como você quer ler a Quatro Cinco Um.
Faça uma assinatura anual com até 56% de desconto e ganhe uma ecobag exclusiva!
Entre para nossa comunidade de leitores e contribua com o jornalismo independente de livros.