Ciências Sociais,

Um colapso chocho

Pesquisadores franceses descrevem riscos planetários de forma didática, mas com análises vagas e apolíticas

20maio2024 - 19h39 • 22maio2024 - 18h18
Os pesquisadores franceses Pablo Servigne e Raphaël Stevens (Divulgação)

Sucesso na França ao ser publicado em 2015, Como tudo pode desmoronar: pequeno manual de colapsologia para uso das gerações presentes introduziu na língua francesa o termo palavroso que traz no seu título, hoje dicionarizado, e ajudou a criar esse pequeno campo acadêmico interdisciplinar dedicado ao estudo do futuro colapso da sociedade industrial. Além da academia, os colapsólogos reúnem comunidades de entusiastas online e têm entre si adeptos notáveis — como Yves Cochet, ex-ministro francês do Meio-Ambiente —, constituindo um pequeno movimento multimídia de cara bastante francesa (capitaneado também por um think tank chamado Instituto Momentum).

Há quase dez anos, a emergência climática não era um cenário tão urgente para a maioria das pessoas, apesar dos relatórios do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas e do consenso dos especialistas. Reconhecendo a dificuldade de as pessoas engolirem a realidade dos dados, os autores empreendem um esforço de trazer essa complexidade ruidosa, por vezes avassaladora, a termos que leigos consigam entender. A intenção é preencher o vazio entre dados frios em tabelas e a realidade material do cotidiano das pessoas (“Fazer a ligação entre o Antropoceno e o seu estômago”).

Nessa direção, Servigne e Stevens mobilizam um vocabulário que vem principalmente da economia, mas também de outras disciplinas — como os estudos de sistemas complexos e não lineares — para descrever os diversos pontos frágeis que sustentam nossa sociedade global industrializada, apresentando diferentes modelos possíveis para sua futura autodestruição. Uma inspiração direta é o relatório de Limites do Crescimento, apresentado pelo Clube de Roma em 1972. A crise climática não é a única fonte de colapso aventada pelo livro, embora certamente seja o seu principal fundo dramático, digamos. (Um dos outros cenários que os autores mencionam é de uma pandemia.)

Parece uma boa ideia, né? Se cenários de colapso se anunciam, faz sentido estudá-los. No entanto, o projeto colapsólogo apresenta de cara uma série de limites, e o principal deles é que tanto o diagnóstico quanto o receituário de Servigne e Stevens se mostram vagos e deliberadamente apolíticos. Diria que o resultado é anódino, mas talvez esteja mais para nocivo.

O linguajar neutro do livro reconhece que a disparidade econômica galopante é um grande problema e as elites econômicas e políticas são cegas, mas praticamente se recusa a usar a palavra capitalismo ou considerar a sério as bases estruturais dos problemas que o livro descreve. Parece implícito na postura dos autores que já não caberia, a essa altura do campeonato, ficar especulando soluções políticas esdrúxulas ou arranjos institucionais inovadores. O colapso já está dado, afinal.

Servigne e Stevens sabem sintetizar informação de maneira fluida, apresentando descrições compreensíveis dos limiares planetários que já ultrapassamos e dos que estamos em curso de ultrapassar. Esse seria o ponto forte do livro, mas mesmo esse panorama de riscos planetários tem uma hierarquia de prioridades bem discutível. Em momentos, parecem mais preocupados com os impactos sobre os hábitos de consumo de um europeu médio do que com as futuras ondas de refugiados climáticos (dezenas de milhões apenas de Bangladesh até 2050, segundo algumas estimativas). Reconhecem a disparidade abissal entre a culpa e a carga do Norte e do Sul global na crise climática — uma das questões políticas centrais do nosso tempo — e dedicam um total de dois parágrafos ao assunto.

Não é só que os autores sejam politicamente menos radicais do que eu gostaria, dentro do seu fatalismo (embora certamente o sejam), mas que o livro seja objetivamente insuficiente mesmo para o seu propósito explícito (de situar o tamanho e o grau da treta).

A coisa vai ganhando os contornos de uma receita para wellness durante o apocalipse

A retórica dos autores sugere que o nó político da crise climática seria no fundo uma questão de comunicação científica e psicologia de massas. Eles reconhecem que existe um lobby negacionista ativo (não são tontos), mas não parecem dimensionar sua força política nem destrinchar seus modos (como fazem, no Brasil, Déborah Danowski e Alyne Costa, por exemplo).

Talvez em 2015 esse tipo de retórica soasse mais convincente, tentando fazer crer que a realidade conseguirá ser persuasiva apenas se valendo de potências de dez e boas metáforas. Mas depois da ascensão neofascista — e sua disposição irresoluta de contrariar a realidade verificável mesmo diante da morte de familiares — fica cada vez mais difícil achar que esse tipo de estratégia possa surtir grandes efeitos.

Se o papo dos colapsólogos comover executivos de petróleo a levar a sério a emergência climática, bacana, precisaremos de todo tipo de aliado na barriga da Besta (como diria Donna Haraway). Mas é difícil imaginar grande serventia para esse tipo de linguagem voluntarista, de resto.

Infantilização

Apesar do sucesso, e por causa dele, os colapsólogos também acumularam críticas duras. Os pesquisadores belgas François Thoreau e Benedikte Zitouni entendem que os autores empreendem uma operação de infantilização dos leitores. O que oferecem seria uma narrativa de desenvolvimento pessoal que desembocaria, com sorte, na autocura do planeta. Mas isso pós-colapso, bem-entendido, e só para uma pequena seita de iluminados e survivalists (depois de eliminada uma certa gordura populacional, quem sabe).

A coisa vai ganhando os contornos de uma receita para wellness durante o apocalipse. Leia romances, assista filmes, se puder monte sua fazenda autossuficiente. E espere o pior (Servigne chegou a dizer depois da publicação que o colapso viria até 2020…).

De fato, fala-se aqui de ajuda mútua mas não de movimentos sociais. Um elogio genérico é feito a redes periféricas de resiliência local, mas sem dar atenção a pesquisas sobre o assunto ou enumerar coletivos existentes (talvez seja melhor ler autores do Sul global para isso, assim como acompanhar, por aqui, o desdobramento de iniciativas como a Teia dos Povos).

O erro não está no pessimismo, o comportamento dos países ricos nos últimos anos não nos convida a imaginar que respostas institucionais adequadas virão. Mas existe todo um mundo entre aceitar a realidade brutal da situação e ceder a um fatalismo que recuse de cara qualquer possibilidade coletiva. Sou tão pessimista quanto eles, mas também sei que as decisões políticas nos próximos anos terão efeitos enormes sobre o tamanho do desastre. Não é porque este mundo de hoje já foi-se que nada importa. Pelo contrário: é porque este mundo já acabou que tudo importa. Servigne e Stevens parecem entender que seu vocabulário apolítico é nada mais do que realismo. Daqui de onde leio parece mais falta de imaginação.

Quem escreveu esse texto

Vinícius Portella