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Braçadas prodígio

Livro de Daniel Gomes e Helio de la Peña suscita admiração por medalhista olímpica da natação e aproxima o leitor de um esporte pouco midiático

13nov2018 - 13h49 | Edição #6 out.2017

Do ponto de vista de fãs e espectadores, todo esporte tem uma dose de espetáculo e outra de narrativa. Os esportistas de modalidades mais espetaculares têm mais chance de promover, junto ao público e aos patrocinadores, as suas narrativas de superação, de tragédia e de conquista.

Poliana Okimoto, nascida em 1983, é uma nadadora de águas abertas. Foi a primeira medalhista olímpica brasileira nos esportes aquáticos e acumulou quebras de recordes, conquistas pioneiras e derrotas dramáticas. Mas a natação de águas abertas é um dos esportes menos espetaculares que existem. Os corpos dos atletas permanecem mergulhados na água durante horas, geralmente a uma grande distância do público. A evolução da prova se dá por incrementos vagarosos e boa parte dos detalhes decisivos permanecem invisíveis. Poliana é uma esportista de aparência e temperamento discretos, o que limita seu apelo midiático. Somado a tudo isso, a natação feminina brasileira sempre teve visibilidade e apoio menores que a masculina.

Ao destacar a narrativa da carreira de Poliana, esta biografia escrita pelo jornalista Daniel Takata Gomes e pelo humorista (e dedicado nadador) Helio de la Peña presta um serviço importante não somente aos fãs da natação, mas também ao esporte nacional como um todo, funcionando como lente de aumento para os feitos da atleta. 

A natação em águas abertas é um esporte recente. A prova de dez quilômetros só entrou no circuito mundial em 2000, e a maratona aquática se tornou esporte olímpico em 2008, nos Jogos de Pequim. O livro é bem-sucedido em demonstrar o pioneirismo de Okimoto numa modalidade até há pouco desconhecida do grande público.

Nenhuma história de triunfo esportivo é uma história linear de sucesso crescente, mas a trajetória da nadadora tem peculiaridades que a distinguem do roteiro clássico. Inscrita nas aulas de natação aos dois anos, Poliana foi um prodígio infantil. De 1996 a 1998, quebrou recordes nas piscinas, com destaque nas provas de quatrocentos e oitocentos metros, subindo no pódio ao lado de oponentes bem mais velhas. Destacava-se por sua técnica apurada, flutuação excepcional e grande disciplina. Em 1999, com dezesseis anos, entrando na idade em que se esperava dela uma evolução ainda maior, mirando nas Olimpíadas de Sydney e Atenas, Poliana teve uma queda de desempenho que quase a fez desistir das raias.

Em 2003, numa última tentativa de se manter no esporte, se mudou para Santos, onde conheceu o ex-nadador Ricardo Cintra. O namorado logo se tornou também treinador, numa parceria que dura até hoje. Cintra entendeu que Poliana era uma nadadora de longas distâncias, modificou seus treinos e a convenceu a participar da  Travessia dos Fortes, em Copacabana, em 2005. Poliana bateu o recorde da competição. Aos 22 anos, descobriu sua vocação. Entrou para a elite da modalidade nos anos seguintes.

Rivalidade

Na maratona aquática dos Jogos Olímpicos de Pequim, em 2008, entrou em disputa com outra estrela brasileira das águas abertas, Ana Marcela Cunha, que, de acordo com a versão do livro, teria prensado Poliana contra uma parede de pedras durante a prova. Os autores mostram como a rivalidade contribuiu para que as duas atletas superassem seus limites ao longo dos anos. No caso de Poliana, isso incluiu aprender a se impor fisicamente sobre as adversárias. A violência do esporte poderá ser surpresa para muitos leitores. Na largada e nas ultrapassagens, atropelamentos e agressões são comuns.

É tocante que Poliana tenha medo das profundezas do oceano, mas seja capaz de nadar uma prova inteira com o tímpano furado

A parte mais intensa do livro está nos capítulos que vão dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, até a conquista da medalha no Rio, em 2016. Em Londres, Poliana sucumbiu à baixa temperatura da água, seu maior ponto fraco, e precisou abandonar a prova com hipotermia. Foi muito criticada e perdeu a confiança. Aos trinta anos, idade avançada para uma atleta de elite, pensou que a carreira tinha chegado ao fim.

Ficou desolada por meses, mas conseguiu ressuscitar com o apoio da família e do treinador. Ficamos sabendo, por exemplo, que Cintra conseguiu fazer a esposa recuperar a fé na capacidade atlética lhe passando um assustador treino-surpresa de duzentos tiros de cem metros, que Poliana tirou de letra. Dali em diante, espantosamente, ela entrou na melhor forma física de sua vida. Os pormenores dos treinos e preparações nesse período que antecede os Jogos Olímpicos do Rio são deliciosos para quem se interessa por natação.

Hoje sabemos o resultado: Poliana Okimoto superou a rival Ana Marcela Cunha e conquistou o bronze olímpico. O capítulo que narra a prova, ritmado e carregado de tensão, é um dos mais bem escritos do livro. O texto é sempre claro, cheio de dados e bem estruturado, mas também apresenta chavões (“Desistir jamais esteve no vocabulário”), retórica motivacional (“Poliana sabe muito bem ser guerreira”) e citações despropositadas de autores como Augusto dos Anjos (“A mão que afaga é a mesma que apedreja”) e Dostoiévski (“Não se faz nada sem forças, e essas forças é preciso conquistá-las à força”).

É necessário ser justo com a proposta do livro: Poliana Okimoto é um panegírico a uma das maiores atletas da história do Brasil. Suas virtudes são mais jornalísticas do que literárias. Não se trata de uma biografia que busque destrinchar as complexidades de uma personagem, contrapor versões dos fatos ou se demorar nos aspectos menos abonadores das figuras humanas retratadas. Questões da vida pessoal de Poliana são mencionadas com frequência, mas a sensação que se tem é de que as arestas foram devidamente polidas.

Por outro lado, a vasta enumeração de suas conquistas é acompanhada de anedotas que prendem o interesse e de contextualizações para o leitor menos familiarizado. Saímos da leitura com simpatia e admiração por Poliana. É tocante que ela tenha medo das profundezas do oceano, mas seja capaz de nadar uma prova inteira com o tímpano furado. Para além de contar a trajetória da protagonista, o livro cumpre bem o papel de nos aproximar desse esporte, tornando palpável a dedicação quase inimaginável que ele exige em seus níveis mais competitivos. 

Quem escreveu esse texto

Daniel Galera

É autor de Barba ensopada de sangue e Meia-noite e vinte, ambos pela Companhia das Letras.

Matéria publicada na edição impressa #6 out.2017 em junho de 2018.