Bagagem Literária, Escrever melhor,
Aqui escreve quem vai morrer
Num tempo em que escrever parece cada vez mais automatizado, Sérgio Rodrigues nos convida a pensar o fazer literário
13out2025 | Edição #99Dia desses ouvi uma pessoa dizer, diante de uma dúvida: “vamos perguntar a quem sabe”. O que pareceu um hábito corriqueiro era a busca por informações no ChatGPT, uma das mais conhecidas plataformas LLM (Large Language Model), que simula a escrita como se fosse um de nós, humanos. Ainda que não sejam uma ferramenta de busca, como insistem os especialistas, são muito usadas para obter informações — e também para dar forma à escrita, seja ela cotidiana ou profissional.
Motivado por essa “curiosa” onda tecnológica, o escritor Sérgio Rodrigues nos convida em seu mais recente livro, Escrever é humano: como dar vida à sua escrita em tempo de robôs, a pensar a produção literária (e também a não literária) em tempos cada vez mais automatizados. Hoje, atividades humanas, como a escrita e a comunicação, são emuladas por modelos de linguagem propagados como a grande solução para a falta de tempo, de inspiração, entre otras cositas más.
Mas não se iluda: o livro não se dedica exclusivamente a desbravar os mares da inteligência artificial, chamada de “papagaio estocástico” por Emily Bender. O termo da linguista americana poderia inclusive ser explicado com o que Rodrigues nos diz sobre o robô dos modelos de linguagem:
Tendo achado essas sequências de palavras, ele, por assim dizer, as copia e cola. Passa longe de pensar e nem sequer escreve propriamente, na amplitude dos sentidos culturais e antropológicos que a palavra “escrever” ganhou ao longo da história. Junta signos que já foram unidos muitas vezes antes — quanto mais vezes, melhor.
Escrever é humano é, antes de tudo, um livro sobre escrita e sobre fazer literatura. Ou, no dizer do próprio autor, uma obra “que procura dar conta de uma vida inteira dedicada à vida literária”. Sérgio Rodrigues nos mostra o que faz da escrita uma atividade estritamente humana. As escolhas que precisam ser feitas todo o tempo, os experimentos ao longo da escrita, os jogos de palavras pensados e repensados, a definição da voz narrativa, as questões éticas em torno da escrita ficcional e também o que nos revelam escritoras e escritores de diferentes épocas sobre esse ofício.
Para o criação artística e literária é preciso um corpo que sente, erra, vive, reflete sobre o que faz
Um dos aspectos que chamam a atenção da leitora (no livro fica claro por que escolho o gênero feminino) é a busca por não definir um caminho único para um projeto de escrita. Ainda que o autor discuta, por exemplo, clichês e lugares-comuns, ele nos mostra que há muito espaço para a ambiguidade e a surpresa. Aquilo que parece não dar certo para tantas pessoas se encaixa bem no estilo de outras. O autor, mais de uma vez, reconhece o caráter humano, demasiadamente humano, da escrita literária.
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Os mesmos recursos podem ser empregados, e os efeitos — dados o contexto, a história e a trajetória de quem escreve — não são previsíveis. A recepção não será a mesma. A escrita, e a leitura, parte inevitavelmente do conhecimento que cada pessoa consolida ao longo da vida e constitui, inevitavelmente, sua subjetividade — elemento fundamental na produção literária.
Trabalho
Dividido em cinco capítulos, um deles chamado “E a sua vida com isso?”, o livro desmistifica um dos mitos mais comuns da escrita: a inspiração. Ainda que reconheça que ela possa existir, Rodrigues reforça que escrever vai muito além. Esse aspecto em particular me interessa muito e costumo repetir em meus cursos: a percepção de que uma pessoa se senta, se vê abruptamente tomada por uma ideia e, a partir daí, escreve sua obra-prima é uma falácia. Pode acontecer? Pode. Mas, como bem nos lembra o autor, “é preciso trabalhar, ir em frente, tanto nos dias de alta quanto nos de baixa”.
A escrita é, então, apresentada e entendida como um trabalho, um fazer que envolve uma rotina. Rodrigues trata também da importância do silêncio. E aqui um ponto fundamental: reconhece que o silêncio — tantas vezes idealizado por quem almeja escrever — não é alcançado por boa parte das escritoras e escritores. O afastamento exclusivo para se dedicar apenas à escrita é certamente um privilégio. No entanto, isso não impede a busca por um silêncio crucial: o das redes, esses espaços digitais nos quais nos vemos cada vez mais imersos e, com isso, menos atentos.
E os robôs?
Ao longo da leitura, Rodrigues nos lembra que “a mais alucinante máquina de viajar é o cérebro”, mas é no epílogo “Aqui só entra quem vai morrer” que somos convidadas a refletir de maneira direta sobre a relação entre robôs e escrita. O cenário, infelizmente, não é animador em muitas frentes. O uso das diversas “inteligências” artificiais vem desempregando muita gente. O pequeno grupo que faz literatura pode, sim, ser afetado, afinal a literatura está inserida na história e no tempo do mundo.
No entanto, alguns aspectos podem manter a escrita literária como estritamente humana — e aqui, claro, podemos nos perguntar o que estamos chamando de escrita literária. O autor acredita que o fazer artístico não pode ser (ainda?) capturado pelas máquinas coletadoras de textos, vídeos, músicas, pinturas e desenhos. Aquilo que tais modelos produzem está mais para fake art, ou f-art (uma divertida e vingativa analogia com fart, peido em inglês).
Para o fazer artístico e literário é preciso um corpo que sente, erra, vive, reflete sobre o que faz, quer compartilhar aquilo que pensou, elaborou e, por fim, escreveu e publicizou. Essa parece estar longe de ser uma realidade para os modelos de linguagem conhecidos. É disso que Sérgio Rodrigues nos lembra o tempo todo. É disso que não podemos nos esquecer sempre que a urgência se desvelar diante de nós, propondo que deixemos de lado aquilo que há de mais imperfeito e legítimo: a comunicação, suas falhas e rearranjos.
Escrever é humano é daqueles livros para os quais temos que voltar sempre que o automatizado e o apressado de nosso tempo se revelam como algo inescapável. A escrita, ao menos alguns modos dela, acontece a partir da nossa subjetividade, da nossa relação com a finitude, das experiências e imaginações da vida. Acontece, enfim, com o que há de mais humano.
Matéria publicada na edição impressa #99 em novembro de 2025. Com o título “Aqui escreve quem vai morrer”
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