Ilustrações de Jindřich Janíček

As Cidades e As Coisas, Literatura infantojuvenil,

Uma história do pedal

Poeta e ilustrador percorrem a trajetória da bicicleta, que pode ser, além de transporte, paixão e transformação urbana

01out2026 • Atualizado em: 28set2026 | Edição #110

A bicicleta é a ponta de um gigantesco iceberg e, abaixo da linha da água, existe um imenso mundo diverso e inimaginável para os que não pedalam. Traduzir em um livro as múltiplas facetas que unem esporte, lazer, cidadania, modo de vida, mobilidade, transformação urbana, sustentabilidade e paixão é um desafio que poucos escritores conseguem cumprir tão bem quanto o poeta tcheco Ondřej Buddeus em Bicicleta: meio de transporte do futuro.

Já nas primeiras frases — “A bicicleta é um objeto feito pelo ser humano. Mas às vezes, ela se comporta como se estivesse viva” —, o autor resolve em pouquíssimas palavras o que os amantes do ciclismo têm muita dificuldade em explicar. Humaniza a bicicleta, conferindo-lhe generosidade, companheirismo e imensa fidelidade ao seu dono. Começar o texto desobjetificando a bicicleta escancara autenticidade e profundo conhecimento sobre o assunto. Só quem pedala entende.

A narrativa parte da primeira draisiana — uma bicicleta feita em madeira, sem pedais —, no início do século 19, e passa por sua fabricação e o impacto no empoderamento das mulheres, trazendo às páginas inúmeros tipos de bicicleta e práticas esportivas sobre elas. Tudo ilustrado pelo também tcheco Jindřich Janíček.

Além de espelhar o texto, as imagens complementam a narrativa e inserem uma fotorreportagem paralela, deixando o livro ainda mais curioso para crianças e adolescentes.

Há enormes desafios em estimular uma criança a ser ativa. Em um futuro próximo, a conta virá

Um ponto alto é o detalhamento das invenções decisivas para a evolução da bicicleta: aros e raios de metal, pneumáticos, câmbio, rolamentos e mais. Algumas delas viriam a servir de fonte para a criação das indústrias do automóvel e da aviação no século seguinte.

Quem pedala sabe: cair é inevitável. E o capítulo sobre isso é hilário. O autor cria uma escala de dor a partir da superfície onde ocorre a queda. Vai do asfalto à lama e à grama, com humor fino para aliviar a adversidade.

Soluções simples trazem uma pertinente reflexão política, como quando o ilustrador coloca dois desenhos idênticos de um infernal congestionamento urbano, com as legendas: “A cidade antes da invenção do carro elétrico” e “A cidade depois da invenção do carro elétrico”. Ou seja: de nada adianta substituir congestionamentos de carros a combustão por congestionamentos de carros elétricos, como reza a indústria de automóveis. A cidade precisa mesmo é de mais bicicletas.

Ferramenta poderosa

A história de como Amsterdã e outras cidades dos Países Baixos se transformaram, em meados do século 20, em amigas dos ciclistas — a partir de protestos de mães, indignadas pela alta mortalidade de crianças atropeladas por motoristas incautos — ilustra bem como tudo corresponde a escolhas políticas.

A tradução de Guido André Araújo é impecável, como se evidencia na descrição das peças, dos processos construtivos, das práticas esportivas, do que é o cicloturismo… Notam-se pesquisa, consulta e muito respeito às nuances do português falado no Brasil.

Com tantas qualidades editoriais, fica a pergunta: conseguirá Bicicleta: meio de transporte do futuro furar a bolha dos que já amam o ciclismo e gerar novos apaixonados? Certamente isso dependerá tanto de uma excelente divulgação quanto do necessário ativismo de adultos, que hoje têm dificuldade em atrair jovens para o pedal.

Cidades violentas, pouco tempo dos pais e facilidade de entretenimento das telas são, sem dúvida, os principais desafios em estimular uma criança a ser ativa. Em um futuro próximo, a conta virá.

Mais que uma bela obra de arte, com texto de pura poesia e ilustrações que nos convidam a viajar, este livro é uma poderosa ferramenta de encantamento para ajudar a salvar nossa sociedade.   

Quem escreveu esse texto

Renata Falzoni

Fotógrafa e cicloativista, acaba de lançar o documentário Elo perdido: O Brasil que pedala.

Matéria publicada na edição impressa #110 em outubro de 2026. Com o título “Uma história do pedal”

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