Literatura, Literatura infantojuvenil,
Uma história sem fim
Duas novas versões de João e Maria recriam a aventura dos irmãos abandonados inscrita no imaginário de quem já foi criança
01out2026 | Edição #110Afora as inúmeras versões narradas oralmente desde pelo menos quatro séculos antes da primeira publicação — a dos Contos maravilhosos infantis e domésticos, dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm, em 1812 —, a história de João e Maria já inspirou um sem-número de recontos em vários países. Por aqui, ganhou até canção de Chico Buarque, além das recriações de Ruth Rocha, Tatiana Belinky, José Roberto Torero, Flávio de Souza e Rosinha, entre outros escritores. A esse elenco estrelado, unem-se agora os Joões e Marias revividos pelo paraibano Ariano Suassuna, com imagens criadas por seu neto, o artista visual Lucas Suassuna Wanderley; e de Stephen King, com ilustrações inéditas de Maurice Sendak.
Mas será que João e Maria ainda têm algo a dizer às crianças de hoje, num mundo tão diferente daquele em que fadas sopravam histórias contadas ao redor da lareira? A resposta é sim, e o fascínio que a aventura protagonizada pelos dois irmãos exerce sobre nós está na origem de todos os contos maravilhosos, um tipo de mágica que recria constantemente a mesma trama e a reconfigura com novos sentidos a cada época.
O que não muda nessa teia são os fios que ligam os leitores de todos os tempos a dramas eternos: pensando na jornada das crianças abandonadas na floresta, cá estão o desamparo, o desafio da sobrevivência, a passagem nem sempre fácil da infância à idade adulta, o medo do desconhecido e da própria morte e, ainda, a solidariedade e o vínculo entre os irmãos, a astúcia de João e a coragem de Maria — mais uma vez, a mesma outra história.
Sertão
Meu povo, abra o Sol do sangue/ e a Esmeralda da atenção/ pois vou cantar a Legenda/ do Reinado do Sertão/ que é a História de Maria/ e é a História de João
Seu pai era Tangerino/ vivia nessa Peleja/ Era, a casa onde moravam/ na Catinga Sertaneja/ Estrada que o Diabo espreita/ e Pedra que Deus Proteja.

Assim começa o Romance de João e Maria: ou seja, os dois meninos do mato no labirinto do mundo, escrito por Ariano Suassuna em 1965, publicado agora pela Nova Fronteira, que prepara vários relançamentos para celebrar o centenário do autor, em 2027.
Com ilustrações inspiradas no cordel, Suassuna recompõe o clássico a partir do imaginário sertanejo
Com ilustrações inspiradas nos tons e nos traços do cordel, a versão de Suassuna recompõe o enredo clássico a partir do imaginário do sertão — os gaviões e a caatinga, o Demônio e as garras dos maracajás, a Virgem Maria e o Pássaro de Ouro do Espírito Santo surgem nas sextilhas (estrofes de seis versos), tão caras à tradição cordelista. Cobras e sariguês entram em cena substituindo lobos e ursos, e a casa da bruxa é uma furna de pedra nada apetitosa, mudança de cenário que, mais do que recriação, resulta numa apropriação cultural, como explica a escritora e psicanalista Ninfa Parreiras no posfácio da edição:
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A história de Hansel e Gretel ganha o sotaque, a paisagem e os dilemas do povo do Sertão brasileiro. A fome, a seca e a luta pela sobrevivência tornam-se protagonistas tanto quanto João e Maria, o que eleva a narrativa ao patamar de uma alegoria da resistência humana.

Diferente da maioria dos recontos dessa história, aqui o maravilhoso se espalha pelos versos do cordel, com aves encantadas como o pássaro Verdelinho, uma espécie de anjo da guarda que guia as crianças pela caatinga; e os gaviões da Desgraça, que ao pai anunciam a fome e a morte. Como avisa o narrador logo no início: “muita coisa escondida e Simbólica! A sorte de João e Maria não é outra coisa que não o Desterro de todos nós”.
Pesadelo
E era outra vez a história de João e Maria, recontada agora por Stephen King, com tradução de Regiane Winarski e ilustrações de Maurice Sendak, um dos nomes mais importantes da literatura infantil do século 20, autor do clássico Onde vivem os monstros (trad. Heloisa Jahn, Companhia das Letrinhas, 2023).
Criadas para uma peça teatral inspirada no texto dos Irmãos Grimm, as imagens de Sendak despertaram o interesse de King e o convenceram a participar do projeto, especialmente duas delas: a da bruxa na vassoura carregando um saco de crianças sequestradas e a da casa feita de doces, que ganha um aspecto sinistro com olhos surgindo nas janelas, garras que descem do telhado e dentes nascendo nos pirulitos. Como explica King no prefácio:
Para mim, essa era a essência da história, e, na verdade, de todos os contos de fada: um exterior ensolarado, um interior terrível e sombrio, crianças corajosas e engenhosas. De certa forma, tenho escrito sobre crianças como João e Maria por grande parte da minha vida.

Ainda assim, o autor de Carrie e O iluminado, entre dezenas de títulos impactantes que não fogem ao lado tenebroso de seus personagens, preferiu seguir a versão em que os Irmãos Grimm transformam a mãe numa madrasta perversa, atenuando um dos traços mais violentos da história: “De modo geral, tenderam a suavizar a vileza do pai e a colocar outra mulher no lugar da mãe natural”, explica a crítica e historiadora inglesa Marina Warner em Da fera à loira: sobre contos de fadas e seus narradores (trad. Thelma Médici Nóbrega, Companhia das Letras, 1999). “Em seu idealismo romântico, os Grimm literalmente não toleravam que uma presença materna fosse equívoca ou perigosa, e preferiram bani-la completamente.”
Como a ideia da mãe que seja má continua sendo difícil de suportar, também na recriação de King a esposa do vassoureiro é uma madrasta-megera que convence o pai a abandonar os pequenos à mercê da própria sorte, sugerindo que, na floresta, talvez encontrassem um destino melhor do que a morte inevitável, já que em casa não havia comida para todos — aqui, uma clara alusão à Grande Fome, que devastou a população no início do século 14.
King capricha no suspense, acrescentando ao conto original cenas inspiradas nas imagens de Sendak
A vida na Idade Média não era nada fácil, e os rostos e formas monstruosas que se insinuam delicadamente na floresta criada por Sendak não só acompanham os irmãos durante a jornada como retratam o clima soturno e ameaçador que assombrava a todos. King capricha no que é sua marca registrada, o suspense, acrescentando ao conto original cenas inspiradas nas imagens de Sendak.
Na noite em que os pais conversam sobre largar as crianças no meio do bosque, Maria dorme tranquila e sonha com anjos flutuando ao redor da lua. Já João acorda assustado por um pesadelo: uma bruxa horrenda voando acima das nuvens com crianças desesperadas gritando dentro de um saco. Guiado por esse presságio, descobre os planos do pai e da madrasta.
Repaginada
Outra novidade é o final da história: na antiga fábula, os irmãos retornam sãos e salvos, com os bolsos cheios de pérolas e joias preciosas, que entregam ao pai, agora viúvo. Sem mais explicações, a morte da madrasta sugere por si só o merecido castigo. Na versão de King, o pai conta que mandou a madrasta embora e, arrependido pela fraqueza, promete “nunca mais fazer nada de errado” com os filhos, tornando-se mais aceitável para os leitores de hoje.

Reforçando o papel decisivo de Maria — afinal, ela jogava a bruxa no forno —, a menina se revela mais sagaz que o irmão: é ela quem descobre o baú debaixo da cama da bruxa e induz João a abri-lo, intuindo que havia ali um tesouro. Também ela pensa na comida de que precisariam para encarar o caminho de volta para casa. Na recriação de King, a personagem cresce e traz nova camada à figura feminina, antes representada apenas por mães brutais, madrastas desalmadas e bruxas más:
— Você sempre foi mais inteligente do que eu — disse João (…).
— Espero que você se lembre disso — disse Maria, sorrindo. — Os meninos pensam em tesouros, enquanto as meninas pensam nas coisas mais importantes da vida.
O encanto dessas fábulas se perpetua com a incessante reinvenção, ora acrescentando nuances e atualizações, como na versão de King e Sendak, ora ampliando referências, como faz Suassuna. Cada um executa a tarefa à sua maneira, mas sem se afastar demais do coração das narrativas clássicas, pois isso é o que pulsa, fazendo com que essas histórias nunca tenham fim.
Matéria publicada na edição impressa #110 em outubro de 2026. Com o título “Uma história sem fim”
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