Arte,

Entre a arte e o mundo

Biografia e catálogo de exposição revelam obra de Hilma af Klint, pioneira da arte abstrata que ficou desconhecida por décadas

01ago2018 - 01h51 | Edição #14 ago.2018

Paul Klee afirmou que a arte é como uma árvore da qual o artista “se situa no tronco”, sorve a seiva que vem das raízes e envia-a em direção à copa, onde se desdobram as obras. A função do artista seria “recolher e redirecionar o que vem do fundo, nem servir nem dominar, mas transmitir”. A declaração de 1924 foi publicada e comentada diversas vezes sem jamais ser usada para relativizar o trabalho do artista suíço, reconhecido como um dos mais importantes do século 20.

Por outro lado, em exposição em 2012 no MoMa de Nova York sobre as origens da arte abstrata ocidental, os trabalhos de Hilma af Klint não foram incluídos por causa do seu interesse pelo “ocultismo”. Segundo uma curadora da exposição, só poderiam ser considerados inventores da abstração aqueles que “formulassem sua prática como uma recusa consciente a qualquer referência ao mundo exterior”.

De certa forma a pintora sueca, plenamente estabelecida como artista figurativa em Estocolmo ao final do século 19, escolhe conscientemente fazer circular suas pinturas abstratas somente em meio ao grupo com o qual realizava sessões espiritualistas inspiradas pela teosofia de Helena Blavatsky e, mais tarde, em meio aos seguidores da antroposofia de Rudolf Steiner, com o qual teve contato direto. O segredo que pairou sobre a obra de Hilma af Klint por mais de 40 anos depois da sua morte, em 1944, talvez não tivesse existido se ela tivesse obtido a autorização da Sociedade Antroposófica para expor suas obras no Goetheanum em Dornach, na Suíça, conforme relata a biógrafa Luciana Pinheiro. Depois de sucessivas recusas, a pintora sueca, então aos 80 anos de idade, determinou em meio às disposições testamentárias que “somente depois de passados vinte anos, as obras poderiam ser reveladas”.

Infelizmente demorou mais do que isso para que as imagens ditadas pelos “Mestres Superiores” para a pintora sueca ganhassem visibilidade no mundo da arte. Em 1984 o historiador da arte Åke Fant apresentou a pintura de Hilma ao proferir uma conferência em Helsinque, e em 1986 diversas pinturas integraram uma exposição sobre arte abstrata em Los Angeles, informa o curador Jochen Volz no catálogo da exposição Hilma af Klint: mundos possíveis, na Pinacoteca do Estado. Desde então as pinturas procuram seu lugar na história entre os pioneiros da arte abstrata. Fossem eles o tcheco Frantšiek Kupka com os estudos para Amorpha (1910-1911), o russo Wassily Kandinsky com Composição V (1911), ou o francês Robert Delaunay com o Disco (1912), a pintora sueca antecede todos com as séries O caos primordial (1906), WU/Rosa (1907) e As dez maiores (1908), todas expostas na Pinacoteca entre outros trabalhos igualmente inspirados pela ciência, religião, filosofia e teosofia.

A “cartografia da alma” de Hilma impressiona pelas suas qualidades estéticas. O jogo das cores e formas, simbologias e grafismos, pode lembrar, principalmente ao público brasileiro, a pintura de Mira Schendel, que, nascida na Suíça em 1919 e radicada no Brasil, também produziu trabalhos com referências filosóficas e forte teor reflexivo. Seria possível relacionar também alguns trabalhos mais orgânicos, como os da série W e os desenhos automáticos a alguns desenhos de Tunga dos anos de 1970 que procuram representar a simetria dos corpos com linhas soltas e uma atmosfera ao mesmo tempo erótica e mística.

Há semelhanças com certas obras de Kandinsky, com quem Hilma pode ter se encontrado em Malmö na Exposição do Báltico, em 1914, onde a pintora apresentou apenas as obras figurativas. Analogias com as imagens, cores e formas de Klee são bastante visíveis. Para esses artistas, tudo se passa como se “flertassem com os próprios limiares da visibilidade”, conforme o filósofo Daniel Birnbaum escreve sobre Hilma no catálogo da Pinacoteca.

Porém, para ingressar no universo da pintora, seria preciso decifrar seu simbolismo, registrado nas milhares de páginas dos seus 124 diários. Felizmente, o público brasileiro conta com o trabalho de Luciana Pinheiro, que pesquisou esses diários e produziu uma biografia sensível e meticulosa, repleta de mapas, fotos da época, imagens das pinturas, trechos de cartas e manuscritos que funciona como um guia para mergulhar nas imagens místicas, frutos de experiências mediúnicas. Luciana narra com precisão cada momento da vida de Hilma, explorando ao máximo o imaginário associado ao espírito de época e aos lugares habitados pela jovem sueca do fim do século 19, reconstituindo seu desenvolvimento intelectual, sua formação na Academia Real das Artes de Estocolmo (uma das primeiras instituições artísticas a admitir mulheres), sua carreira bem-sucedida e as incríveis experiências com o grupo De Fem (as cinco) em seu convívio com entidades espirituais. A biografia prossegue documentando o contato com Rudolf Steiner e as convergências e divergências entre as visões de Hilma e a ortodoxia antroposófica.

Graças à biógrafa conhecemos a origem e o sentido de certas letras e palavras recorrentes nas pinturas, como “W = matéria, U = espírito e H = ponte de conexão de amor entre duas polaridades”, a palavra “Kärlek — amor em sueco” e que “a rosa e o lírio, assim como as cores amarelo e azul, trazem os aspectos da alma, masculino e feminino respectivamente”. Além disso, “a cruz e o trigo, como um símbolo cristão, assim como o caramujo, que traz a espiral em sua sua casca e a vida em seu interior”. Seria tão enriquecedor contemplar as pinturas de Hilma depois de ler sua biografia quanto, inversamente, ler a biografia depois de ter admirado suas imagens incríveis.

Pinturas como As dez mais e Os retábulos impressionam, as primeiras pela vivacidade e alegria, os outros pela solenidade quase hierática de sua cosmologia pictórica. As séries Botânica e do Átomo demonstram como Hilma fazia coincidir a curiosidade científica e a vida espiritual — um traço da época, comum a outros artistas. O caos primordial, série produzida depois que o “Mestre Superior Ananda” a encarregou de “trazer imagens do mundo sutil para o plano físico”, impressiona pela força do traço e das cores, na iminência de começo de mundo, além de uma economia de cores e formas aliada ao mistério das siglas e palavras empregadas. Certamente um ponto alto na história da arte moderna. 

Quem escreveu esse texto

José Bento Ferreira

É crítico de arte e professor de filosofia.

Matéria publicada na edição impressa #14 ago.2018 em agosto de 2018.