A Feira do Livro, Arte,

A língua visual maleável e descontrolada de Lenora de Barros

Artista visual reflete sobre arte, linguagem e sua trajetória desde os anos 70

29jun2024 - 19h30 • 10jul2024 - 13h33
Fotografias de Matias Maxx.

“Na época em que desenvolvi meus primeiros trabalhos não existia o Google, então minha maior fonte de pesquisa era a associação de memória: definia um tema e ia atrás de referências em arquivos de jornal, pesquisas históricas e da minha própria cabeça”, diz a poeta e artista visual Lenora de Barros. Em atividade desde a década de 70, ela conversou sobre sua trajetória pessoal e artística com Ana Carolina Ralston, jornalista, pesquisadora de artes visuais e uma das curadoras da ArPa, feira de arte que divide o espaço da praça Charles Miller com A Feira do Livro desde 2022.

A artista deu início à mesa “Minha língua” – mesmo título da mostra de Lenora que esteve em cartaz na Pinacoteca de São Paulo, de janeiro a abril de 2023 e que reuniu mais de quarenta de seus primeiros trabalhos — recitando os poemas visuais “Garotas pop”, publicado ao longo dos três anos em que colaborou como colunista do Jornal da Tarde e “Há mulheres”, de 2005, que questionam a visão social acerca das mulheres e do corpo feminino.

A poeta e artista visual Lenora de Barros e a jornalista Ana Carolina Ralston

“Me convidaram para desenvolver uma coluna no Jornal da Tarde, com poemas visuais que brincassem com a ideia das colunas dos jornais. Isso foi um divisor de águas no meu trabalho, uma espécie de desafio que tive por três anos. Foi um convite oferecido com toda a liberdade para arriscar”, diz Lenora. Em 2020, a artista compilou uma série desses poemas no livro …Umas (Família Editions).

Jogo de palavras

Formada em linguística pela Universidade de São Paulo, a língua é um tema constantemente abordado por Lenora, que a analisa não somente como um instrumento da fala, mas também como um músculo, como voz, como língua de países e de culturas diferentes, e ligação para as palavras e outras formas de comunicação. “A língua não é só o órgão da fala, conformada pela própria linguagem em relação aos sons e captura de sentido. Mas aí quem poderia falar mais sobre isso é a Lenora linguista. Como artista visual, eu quero falar também da maleabilidade, da língua molenga e descontrolada, dessa que é uma espinha dorsal para o domínio sobre si”.

Filha do pintor e fotógrafo Geraldo de Barros, um dos pioneiros do movimento modernista brasileiro, Lenora descreveu sua trajetória, que mescla poesia, fotografia, vídeos e instalações, a partir de seu envolvimento desde cedo com a arte visual e da palavra — a primeira estimulada pelo pai, e a segunda, pela mãe, por meio dos livros.

Entre jogos de palavra, visualidade, som, foto-performances e ironia textual, Ralston definiu a trajetória artística de Lenora como disruptiva na década de 80. “O grande desafio era trabalhar com a imagem e a palavra quando a poesia concreta não era tão vista. Mas eu quis saber como levar para frente as conquistas desse estilo de poesia e as novidades daquela época”, diz a criadora de obras como Homenagem a George Segal, de 1975 — uma série de fotografias em que vai cobrindo o próprio rosto — ou em Procuro-me, de 2002, em que dá vida aos seus diversos traços de personalidade.

Questionada sobre sua visão sobre a passagem do tempo, Lenora elenca suas últimas exposições, que passeiam sobre a ideia de encadeamento dos efeitos, como uma coisa em constante transformação. “Meu trabalho Linguagem, uma sequência de imagens da minha própria língua feita ao longo dos anos, conta sobre o processo natural de envelhecimento marcado pelo aumento das ranhuras da minha língua. Outra obra, em que retrato meu umbigo, me fez refletir sobre nossa marca de contagem regressiva. Ele é o que marca o início dessa contagem, quando o cordão umbilical é cortado”, disse a artista.

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Jaqueline Silva

É estudante de Jornalismo na ECA-USP e estagiária editorial na Quatro Cinco Um.