Arte e fotografia, Teatro,

Querida Fernanda

Atriz paulistana faz leitura emocionada da obra que conta em imagens a trajetória da grande dama do teatro brasileiro

21nov2018 - 12h26 | Edição #13 jul.2018

Você não tem ideia do que este livro está fazendo comigo. Convenhamos, não é um livro, é uma festa, daquelas cujo convite se agradece de joelhos, balada generosa que se estende noite adentro sem que percebamos o dia chegar. Com que beleza você nos apresenta sua mãe, sua raiz italiana, “a voluptuosidade com que ia da risada à lágrima”. Vi nela seu gene de atriz. E também em seu pai, um artesão do qual você herdou “uma visão clara do que o ofício é. Não é trabalho. É ser um oficiante no trabalho”. 

Assim é essa fotobiografia: artesanato feito com cuidado, tempo, amor. Não é um livro, como você mesma diz, é um grande álbum de famílias. Nunca imaginei que seu avô tivesse sido pedreiro do Teatro Municipal do Rio de Janeiro, onde você, cinquenta anos mais tarde, estrearia Mambembe, loucura dirigida por Gianni Ratto com mais de sessenta pessoas no elenco. Que foto boa a de você e sua turma do Teatro dos Sete no aeroporto para buscá-lo. Gianni segura um exemplar da revista Il dramma e vocês em volta transpiram a alegria de quem está prestes a fazer algo importante. 

Imagino que parte das fotos e textos deste livro já estivessem por aí, espalhadas em jornais, revistas, baús, mas estarem aqui reunidas na sua ordem e seu tom é o que faz com que este livro seja um presente à nossa memória cultural. 

Quanta ternura e força no capítulo dedicado a seu companheiro Fernando Torres. A foto que seu filho Cláudio tirou na praia de Piratininga, ele atrás pescando e você sorrindo para a câmera, parece o poema “Casamento” da Adélia Prado, autora, aliás, de um dos seus maiores sucessos, Dona Doida

Ler as fichas técnicas de seus espetáculos é uma aula de história, um folhetim de curiosidades. Passando por A moratória, de Jorge Andrade (queria ter visto isso), às montagens do Teatro Maria Della Costa, do TBC, do Teatro dos Sete, até suas produções com Fernando — e que nome bom, Fernando Torres Diversões. 

Um parque de diversões poder ver os figurinos de Flávio Império e Zé Ronaldo, as fotos que, na ausência da máquina do tempo, nos levam até a primeira fila para assistir a você e seus parceiros: Henriette Morineau, Sérgio Britto, Ítalo Rossi, Nathalia Timberg, Tônia, Eugênio Kusnet, Otávio Augusto, Suely Franco, Jorge Dória, Mario Lago, Cleyde, Walmor e tantos outros com quem eu não sabia que você tinha trabalhado. 

Vocês se endividaram tanto, agradeço por não terem desistido. Aqui entendi nossa tradição de atores empresários e a relação ausente ou conflituosa do governo com nosso teatro. “Se olharmos os palcos de um país, saberemos exatamente que país é esse.” 

Você não tem ideia do que este livro está fazendo comigo. Não é um livro, é a correspondência entre você e Millôr, Nelson, Drummond, Paulo Autran, Bibi Ferreira, Bárbara Heliodora, Clarice e toda a nova geração que agora vos lê. E quando parece que você já fez de tudo, surgem as fotos com sua filha Nanda em The Flash and Crash Days, de Gerald Thomas. Você entregue a um diretor estranho, provocativo, numa estética possivelmente nova para você. Bonito mãe e filha em cena, marido e mulher no palco, filho dirigindo mãe, genro dirigindo sogra. Você trabalha muito em família e me parece que todos que trabalham com você acabam por entrar nela também. Somos todos seus filhos e você A mulher de todos nós.

E tem o rádio, as novelas, você no teleteatro. Quantos clássicos dando sopa na telinha, quanta gente assistiu sem querer, separando arroz, catando feijão, Shakespeare, Tennessee Williams, Feydau, Machado de Assis. Tentei fazer as contas juntando essas produções (não consegui!) das centenas de personagens que você deu vida na televisão, no teatro e no cinema. Depois imaginei todo esse repertório em você, assentado, fermentado, recriado e cheguei à conclusão de que é realmente uma loucura o quanto você trabalhou. 

E quando leio o Zelito Viana contando que a Odete Lara deu o cano nele no primeiro dia de filmagem de Minha namorada e ele te ligou convidando para o papel e você perguntou “quando?”, e ele respondeu “agora” e você simplesmente foi, levando seus figurinos meia hora depois, me dou conta do porquê dos seus títulos, a adoração à sua pessoa. Você não nega fogo, Fernanda. 

Aqui entendi nossa tradição de atores empresários e a relação conflituosa do governo com nosso teatro

Tem gente que lembra mais das novelas, da cena torta na cara em Guerra dos sexos, do beijo de dona Chica em Carlos, vivido por Claudio Marzo em Brilhante. Como escreveu o José Carlos Avellar, a gente não se esquece das suas mulheres no cinema. “É possível que o espectador não se lembre dela, mas o não se lembrar, aqui, é um modo de dizer que não se esquece dela, que tem a personagem que ela viveu bem viva na memória, como se existisse só a personagem e não ela, a atriz; (…) É o momento de agradecer à Fernanda pelos muitos momentos em que ela fez a gente se esquecer da presença dela e dizer que exatamente por isso ela é uma pessoa inesquecível.” 

Você catando feijão em Eles não usam black tie, sua cartomante em A hora da estrela, sua Dora olhando acima dos óculos em Central do Brasil. Você nos levando aos prêmios internacionais, ao Oscar, o país em festa e os tantos bilhetes sobre e para você. Para mim o melhor é o do Millôr “… se daí não há mais subida, também não há mais descida para aquele longínquo e modesto ponto no qual você começou; apenas um promontório”. 

Você diz que todos nós atores carregamos gestos e jeitos uns dos outros, quando assistimos e somos assistidos vamos “roubando” e nos nutrindo nessa antropofagia cênica, nunca um plágio: é “uma transferência celular, íntima, intrínseca, numa corrente que nos liga e nos credencia eternamente”. E se muito de Apôlonia Pinto chegou em você, há com certeza muito de você em mim e muito de mim e você em uma jovem atriz em 2053.

À política você dedica seu último capítulo. “Não sou ativista, sou atuante.” Sua carta a Figueiredo em 1984: décadas de resistência teatral, ditaduras, falta de incentivo. A coerência com que você declinou o convite ao Ministério da Cultura, a carta a Fernando Collor quando ele aniquilou a Embrafilme. Sempre pontual, respeitando seu espaço sagrado, o palco, “definitivamente, o espaço mais livre que o homem jamais criou”.

Termino o passeio com milhares de imagens flutuando no travesseiro. O telefone tocando na redação e Nelson Rodrigues sabendo que era você, cobrando O beijo no asfalto. A polícia na porta dos teatros, sua foto com Mario Lago num teleteatro de Tio Vânia. Cartinhas de amor, bilhetes de estreia, os desenhos de Millôr. Bibi Ferreira estatelada no seu colo e de Fernando, a carta de uma fã indignada com Volta ao lar e os tantos chapéus que você usou em cena. Incrível como um livro quase todo apoiado em fotos pode despertar um amor intenso às palavras. Não é um livro.

In bocca al lupo! Sempre!

Quem escreveu esse texto

Martha Nowill

Atriz, é autora do livro de poemas O que ela quer (Edith) e roteirista do filme Vermelho russo.

Matéria publicada na edição impressa #13 jul.2018 em junho de 2018.