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Angústia da influenza

Reações políticas à epidemia do novo coronavírus repetem erros cometidos durante a Gripe Espanhola há mais de cem anos

01ago2020 - 01h00 | Edição #36 ago.2020

“De repente, passou a gripe. Ninguém pensava nos mortos atirados nas valas, uns por cima dos outros. Lá estavam, humilhados e ofendidos, numa promiscuidade abjeta. A peste deixara nos sobreviventes não o medo, não o espanto, não o ressentimento, mas o puro tédio da morte. Eu me lembro de um vizinho perguntando: — Quem não morreu na Espanhola?”, escreveu Nelson Rodrigues, em suas memórias, publicadas no jornal Correio da Manhã, em 1967. A pergunta absurda do sujeito faz lembrar a indiferença das declarações do atual presidente da República quando o assunto é o número de mortos por Covid-19 no Brasil. Mais de cem anos nos separam da Grande Gripe, mas o comportamento humano, em suas falhas e virtudes, parece ter mudado muito pouco.  

A pandemia do novo coronavírus já tem uma história a ser contada — e que inclui falas e atitudes repugnantes de Jair Bolsonaro. Apesar das inúmeras dúvidas que ainda pairam, a velocidade frenética do espalhamento da doença gerou uma narrativa complexa, global e com uma miríade de dados disponíveis graças ao aparato tecnológico de que dispomos hoje. A impressão é de que a humanidade reagiu quase no ritmo do vírus.

Ainda assim, o episódio sombrio da gripe espanhola, considerada a mais mortífera epidemia de todos os tempos (entre 50 milhões e 100 milhões de pessoas morreram em poucos meses), teria muito a nos ensinar. Entre 1918 e 1920, estima-se que as duas ondas pandêmicas causadas por um vírus influenza — que hoje conhecemos como H1N1 — atingiram um quarto da população mundial. Apesar do nome “espanhola”, o primeiro registro de sua aparição foi nos Estados Unidos, em uma cidadezinha do Kansas chamada Haskell. Essa é a tese defendida pelo historiador John M. Barry no livro A grande gripe. Há outras hipóteses, como a de que a doença tenha se originado na China.

Publicado em 2004, o livro chega só este ano ao Brasil, na onda dos lançamentos temáticos, que incluem também o ótimo Contágio, de David Quammen (Companhia das Letras), de 2012. O livro de Barry é um dos mais completos relatos dos acontecimentos que antecederam e acompanharam o período da epidemia. O autor dedicou alguns capítulos a explicar de forma introdutória e clara temas como epidemiologia, imunidade e a diferença entre vírus e bactérias. Essa estratégia realça a importância do grande desenvolvimento da ciência e da medicina que precedeu a pandemia e o tamanho do salto que veio depois, em parte impulsionado pela catástrofe. Em alguns casos, no entanto, os assuntos parecem acrescentar muito pouco ao tema do livro, como uma esquemática história da medicina desde Hipócrates.

Presidindo o pânico

É contundente para quem está vivendo a crise no Brasil a história da resposta política à chegada da gripe espanhola. O presidente americano do período, Woodrow Wilson, jamais se pronunciou publicamente sobre a pandemia. O mundo sofria o impacto de uma Guerra Mundial desde 1914, e a máquina de propaganda do governo já mentia regularmente com a desculpa de “manter o moral” da população. A estratégia, então, foi minimizar a ameaça, chamar de “gripezinha”.

As cidades cujos líderes tomaram atitudes contrárias ao governo federal — San Francisco foi a mais bem-sucedida —, admitindo a real gravidade da situação, tiveram comprovadamente menor mortalidade e menos pânico entre seus cidadãos. Os sentimentos de medo e pânico levam a atitudes muito diferentes. O pânico causado pela insegurança de perceber que a informação oficial não correspondia à realidade gerou caos e falta de solidariedade entre as pessoas. Em cidades como San Francisco, ao contrário, formou-se uma rede de apoio popular aos que estavam na linha de frente.  

A gripe espanhola impactou o fim da 1ª Guerra Mundial e o coronavírus pode causar a derrota de Trump

De forma geral, o isolamento social foi tardio e malfeito. Na época, havia cerca de 120 bases de treinamento militar nos Estados Unidos, com dezenas de milhares de soldados. Concebidas sem nenhuma preocupação com distanciamento ou salubridade, tinham aquecimento precário, o que aumentava as aglomerações e agravava a contaminação no inverno. A circulação dos soldados entre Estados Unidos e Europa também foi um fator importante para o avanço da doença. Para completar, e diferentemente da Covid-19, a gripe espanhola matava mais os jovens, cuja reação imunológica à infecção era mais agressiva.

Outro aspecto que interessa no momento em que estamos preocupados com os efeitos dos governos populistas de direita, que estão no topo da parada de piores condutores da pandemia do novo coronavírus, é o impacto da gripe espanhola na trajetória da Primeira Guerra Mundial. O livro deixa claro que a explosão da doença nos campos de batalha, especialmente no exército alemão, precipitou o fim do conflito. Em 2020, a condução da pandemia pode ser a principal razão da derrota de Donald Trump na reeleição em novembro, como as pesquisas parecem apontar. A derrota de Trump, por sua vez, teria peso relevante na eventual campanha de Bolsonaro à reeleição.

A grande potência da pesquisa médica que hoje são os Estados Unidos se constituiu pouco tempo antes do H1N1 atacar, e com bastante atraso em relação à Europa. No final do século 19, universidades como Harvard ainda tinham faculdades de medicina que mal exigiam formação escolar de seus alunos e muitas vezes nem sequer  tinham laboratório. A criação da Universidade Johns Hopkins (que tem papel fundamental na pesquisa sobre a Covid-19) foi o ponto de inflexão num país que valorizava muito mais seus cursos de teologia e considerava a medicina uma profissão sem futuro. O salto foi ligeiro e imenso. Mais uma vez, é impossível não pensar nos atuais governos que desprezam a ciência, a pesquisa e mesmo as evidências médicas mais elementares.

Infelizmente, a tradução de A grande gripe parece ter sido feita sem o cuidado editorial devido, a toque de caixa e a várias mãos. Frases incompreensíveis, anglicismos, termos médicos equivocados e erros de digitação prejudicam a leitura. Também é importante lembrar que todas as informações científicas estão desatualizadas em pelo menos uma década. Ainda assim, o livro vale a pena para quem não consegue largar o noticiário e, ao mesmo tempo, não aguenta mais a repetição de informações.

Este texto foi realizado com o apoio do Instituto Serrapilheira

Quem escreveu esse texto

Fernanda Diamant

É editora da revista Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #36 ago.2020 em maio de 2020.