Divulgação Científica,

O controle do controle

Jornalista ganhadora do Pulitzer explora as implicações e os dilemas de interferir na natureza para combater o aquecimento global

01jun2021 - 01h00 | Edição #46

Aspergir partículas de carbonato de cálcio, diamante ou dióxido de enxofre na estratosfera com o intuito de refletir a luz solar e baixar a temperatura. Aumentar a quantidade de vapor de água salgada sobre o oceano para que as nuvens fiquem mais brancas e isso faça com que a água, escura, absorva menos calor. Captar dióxido de carbono (CO2) — o carro-chefe do aquecimento global — da atmosfera para injetá-lo na terra, em regiões ricas em basalto, e transformá-lo em rocha. Triturar o basalto, captador natural de CO2, e espalhá-lo em regiões agrícolas amplas. Plantar trilhões de árvores. Usar a engenharia genética para recuperar e adaptar espécies ameaçadas — e eliminar as invasoras. 

Todos esses exemplos são categorias de projetos reais de intervenção e engenharia humana que estão em curso e cujo objetivo seria frear o desastre climático. A jornalista norte-americana Elizabeth Kolbert, colaboradora da revista New Yorker desde 1999, na área de divulgação científica e questões climáticas, deixou uma gigantesca pegada de carbono (viagens de avião são altamente poluentes em termos de CO2) para ir a campo — na Islândia, na Groenlândia, na Suíça e na Austrália, além dos Estados Unidos — e ver de perto alguns desses empreendimentos. O resultado é Sob um céu branco, livro forçadamente finalizado no meio da pandemia de Covid-19, quando a autora se viu impedida de fazer as últimas incursões que tinha planejado. 

Kolbert transforma o universo da ciência em narrativas envolventes e altamente informativas. Seus textos para a New Yorker são um prazer de ler. Ela tem a prodigiosa capacidade de preencher cada parágrafo com meia dúzia de informações sem ser maçante e de descrever seus entrevistados de forma bem-humorada. Não ficção literária da melhor qualidade.

Seu terceiro livro, A sexta extinção: uma história não natural (Intrínseca), ganhou o prêmio Pulitzer de não ficção em 2015. É leitura proveitosa para quem quiser entender o papel do ser humano na configuração daquilo que costumamos chamar de natureza. A cada capítulo Kolbert descreve a extinção, causada pelo homem, de uma espécie diferente. Ao mesmo tempo, vai contando a história das cinco extinções em massa que ocorreram na Terra ao longo de centenas de milhões de anos. A sexta extinção é esta que estamos praticando já de maneira bastante consciente. É um livro sombrio. E tem muitos pontos de contato com sua nova obra. 

Sob um céu branco retoma a temática do livro anterior para desembocar em uma perspectiva um pouco mais arejada. Mas só um pouquinho — seria exagero usar a palavra otimista. Começa contando a história da inversão do rio Chicago, no início do século 20, para desviar o esgoto que chegava ao lago Michigan e provocava, entre outras coisas, surtos de tifo e cólera. O empreendimento, segundo Kolbert, subverteu a hidrologia de dois terços dos Estados Unidos. A descrição que ela faz dá a dimensão territorial do que poderia parecer um ajuste “local”, mas tem reflexos que vão até o Golfo do México. A mudança impacta aspectos ambientais, incluindo a biodiversidade, já que a água carrega consigo uma infinidade de seres vivos.

Intervenções

Uma das formas mais eficientes e rápidas de extinguir espécies é a introdução de animais não nativos. O exemplo mais conhecido é o do rato, que foi levado pelo homem — de forma involuntária — para vários lugares do mundo, escondido em navios ou outros meios de transporte. Sua capacidade de adaptação e reprodução fez com que prosperasse e dizimasse espécies de pássaros e répteis, desequilibrando muitos ecossistemas. 

A introdução de espécies também se dá de forma voluntária na tentativa de mitigar problemas ambientais. Tais experimentos muitas vezes resultaram em catástrofe. Dentro dos rios norte-americanos artificialmente reorganizados, habita hoje uma criatura que é vítima e algoz do chamado “controle da natureza”. 

A natureza foi tão alterada que, para impedir condições catastróficas irreversíveis, é preciso seguir intervindo 

Kolbert nos apresenta a carpa-prateada chinesa (Hypophthalmichthys molitrix), introduzida nos Estados Unidos em meados dos anos 60 como agente biológico para combater outros agentes biológicos de maneira mais “saudável”. A ideia era evitar o uso de venenos — pesticidas e herbicidas, os maiores vilões da época. O procedimento foi resultado das críticas cada vez mais contundentes ao “controle da natureza”, motivo de orgulho de uma parte expressiva da humanidade durante muitos séculos. 

A proliferação da carpa fugiu do controle, é claro, e Kolbert elenca a espantosa quantidade de recursos financeiros e mão de obra gastos para tentar reduzir os danos. Essa é a porta de entrada para o grande dilema moral debatido no livro: o controle do controle. A natureza foi alterada de maneira tão profunda pela humanidade — na tentativa de domesticá-la — que para impedir condições catastróficas irreversíveis é preciso seguir interferindo — mesmo sabendo que as intervenções em geral têm consequências imprevisíveis. Essa situação traz muitas implicações e dilemas morais.

Mudamos o curso de rios, a composição dos oceanos e da atmosfera e a biodiversidade de grande parte do globo. Ao mesmo tempo, inventamos a agricultura e a pecuária — um controle da natureza que permitiu a sedentarização, levando à criação de sociedades com estruturas de governo e de produção mais “complexas”, das quais somos herdeiros diretos. Um controle que muitas vezes e por muito tempo “deu certo”. Kolbert mobiliza, além de sua exaustiva pesquisa jornalística, um amplo repertório de artigos científicos sobre o Antropoceno para mostrar que até as perguntas que precisamos fazer são menos óbvias do que poderíamos supor. 

Fica bastante claro ao final da leitura que desacelerar e reverter o quadro climático do planeta implica um grande conjunto de medidas que vão muito além da diminuição ou mesmo da interrupção completa do uso de combustíveis fósseis, ou seja, da emissão de carbono. O que é certo e incontornável é a necessidade de uma nova maneira de existir neste corpo celeste cuja condição preocupante atual é de nossa responsabilidade — de uns mais que de outros (Kolbert afirma que os Estados Unidos, por exemplo, são os responsáveis sozinhos por 30% do total de emissões de CO2 na atmosfera). 

Em tempo: publicar livros de divulgação científica é uma inciativa que deve ser sempre aplaudida, e a Intrínseca é uma das editoras que têm grandes livros dessa área em seu catálogo. Dito isso, seria irresponsável não apontar a falta de edição deste volume, que não teve o tratamento e o cuidado necessários para garantir uma leitura fluida e coerente.

Quem escreveu esse texto

Fernanda Diamant

É editora da revista Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #46 em abril de 2021.