Alimentação, Ciências Sociais,

Colonialismo edulcorado

Inventário das referências culinárias de Gilberto Freyre não problematiza sua obra

15nov2018 - 18h27 | Edição #9 mar.2018

Não faz muito, militantes de movimentos negros ostentaram, na avenida Paulista, faixa com os dizeres: “Miscigenação também é genocídio!”, expressando algum ideal de pureza racial. Algo que confronta o ideal corrente de nação, que nos toma por um povo mestiço. E deve-se especialmente a Gilberto Freyre a fixação, em nossas letras, dessa tese.

Ele via a miscigenação como algo que diminuía as distâncias sociais entre negros, índios e o colonizador. Seria, portanto, um expediente de dominação que acabou resultando no seu contrário, a igualdade como “povo”. Ao mesmo tempo, considerava que “o português se tem perpetuado, dissolvendo-se sempre noutros povos a ponto de parecer perder-se nos sangues e nas culturas estranhas”.

O livro Gilberto Freyre e as aventuras do paladar, de Maria Lecticia Monteiro Cavalcanti, de 2013, que acaba de ser relançado, é dessas obras que vêm para reiterar o que, sob muitos aspectos, já se sabe. Em especial, detalhar o que ele entendeu por miscigenação culinária. O objetivo é, antes de tudo, a louvação e não a análise crítica, que o autor bem merecia, dada a antiguidade e permanência de sua obra.

Prato cheio

Bem cuidado e ricamente ilustrado, indicando 82 trabalhos de Freyre (muitos surgidos em fontes dispersas, como revistas populares), o livro é um prato cheio para admiradores do seu pensamento. Talvez seja essa a função de uma fundação dedicada a sua memória e seu louvor. Mas ele, por sua importância, já não pertence apenas a herdeiros testamentários ou a um pequeno grupo de cultores. Patrimônio nacional, pertence inclusive aos que refutam o seu pensamento, como negros militantes antimiscigenação.

Miscigenação é conceito que espelha outro — o de raça histórica —, que se deve mais propriamente a uma dinastia de autores que se inicia com Gobineau e passa por Gustave le Bon e Gumplowicz, acentuando que “raças” são entidades a um só tempo físicas e histórico-culturais, cujo amálgama se fixa, em termos de caráter, nas “raças” misturadas. Trata-se de uma teoria de aculturação que abstrai os mecanismos impositivos para contemplar o resultado no tipo mestiço. É do mestiço que Freyre parte para, num caminho de volta, deduzir os elementos que concorreram para ele ser o que é. O predomínio português, por exemplo.

De saída, Freyre não reconhece o caráter impositivo da indústria colonial do açúcar na nossa alimentação. Prefere dizer que “por influência árabe […] a cozinha portuguesa que se transmitiu ao Brasil foi uma cozinha muito chegada ao açúcar”. Prefere, portanto, o argumento culturalista ao materialista. Isso porque vê o português com seu “gênio de assimilação” que trouxe “para sua mesa alimentos, temperos, doces, aromas, cores, adornos de pratos, costumes e ritos de alimentação das mais requintadas civilizações do Oriente e do Norte da África. Esses valores e esses ritos se juntaram a combinações já antigas de pratos cristãos com quitutes mouros e israelitas”.

Dado o caráter da raça histórica lusitana, ele explica sobre a formação da culinária brasileira: “Aos portugueses é que devemos, principalmente, a excelência da mesa brasileira”. Entende-se que tudo o mais, no léxico que se fixou para a cozinha brasileira, assume o caráter de “contribuição”, algo que alguém (negro ou índio) deu a outro. E fica a “dívida da cozinha brasileira” para com Portugal, nas palavras da autora; inversamente, os lusos “não tardaram em descobrir, entre os indígenas, valores culinários em potencial”.

O livro é a narrativa da “raça histórica” atuante no campo da alimentação, que faz de Portugal o centro do movimento centrípeto que assimila a cozinha dos dominados. Uma concepção de nação unitária, que já não corresponde aos anseios dos brasileiros por um país plural, rico e diversificado, onde as múltiplas tradições das nações indígenas e dos povos africanos pesam mais do que a cor da pele.

A investigação moderna sobre a culinária brasileira vai no sentido inverso ao da interpretação freyriana. O doce, presente no mel e nos sucos de frutas, antecede o doce do açúcar colonial de que Freyre fez o panegírico. O pernambucano vai assim ficando cada vez mais distante da definição do Brasil moderno. É sintomático que se conteste o valor explicativo da miscigenação nas ruas. E que os herdeiros de Freyre precisem reafirmar o seu pensamento sobre a formação da cozinha brasileira também o é.

Quem escreveu esse texto

Carlos Alberto Dória

É diretor da ONG C5 – Centro de Cultura Culinária Câmara Cascudo, coautor de A culinária caipira da Paulistânia (Três Estrelas) e autor de Formação da culinária brasileira (Três Estrelas).

Matéria publicada na edição impressa #9 mar.2018 em junho de 2018.