Vinte Mil Léguas,

As histórias não nascidas, pt. I

Uma carta de outro naturalista inglês, que passou anos pesquisando na Amazônia, fez com que Darwin entendesse a urgência de publicar seu livro sobre as espécies

26out2020 - 01h00

O novo episódio do Vinte Mil Léguas já está no ar! Ouça agora “As histórias não nascidas, pt. I”. O Vinte Mil Léguas é realizado pela Quatro Cinco Um em parceria com a Livraria Megafauna e com o apoio do Instituto Serrapilheira.

Foi uma carta súbita de um outro naturalista inglês que fez com que Darwin percebesse a urgência de publicar sua obra sobre a origem das espécies e a seleção natural. Já não havia mais como esperar, havia chegado a hora e o mundo teria de estar pronto para sua revolução. A origem das espécies foi um sucesso de público: a primeira edição esgotou logo que saiu. O estilo acessível do texto de Darwin gerou desconfiança de alguns críticos da época, mas isso não era uma falha do autor, e sim seu objetivo: ele estava encarando alguns dos mistérios mais profundos da biologia e da filosofia para trazê-los à luz de maneira que qualquer um pudesse acompanhá-lo e entendê-lo.
 

Ilustração: Deborah Salles

Aspas

“Esperar que o mundo receba uma nova verdade, ou mesmo uma velha verdade, sem contestá-la é buscar por um daqueles milagres que não ocorrem.”

Alfred Russel Wallace, em entrevista

Pessoas

Alfred Russel Wallace

Foi a carta de Alfred Russel Wallace enviada da Malásia que fez com que Darwin entendesse que chegara a hora de publicar seus estudos. Wallace nasceu em 1823, no País de Gales, e era professor quando conheceu o naturalista Henry Walter Bates, com quem desenvolveu uma paixão conjunta pela coleção e estudo de besouros. Juntos, eles viajaram à Amazônia, onde Wallace passou quatro anos coletando animais, financiando sua viagem com a venda dos espécimes que encontrava. A viagem terminou mal para Wallace: toda sua coleção e quase todas as suas notas foram perdidas quando o navio em que viajava pegou fogo. Mas ele não desistiu. De retorno da América do Sul, ele logo partiu para a Malásia, arquipélago onde continuou suas investigações zoológicas. Influenciado por muitas das mesmas ideias que inspiravam Darwin, Wallace chegou a conclusões muito parecidas sobre a origem e a mutação das espécies. Foi nessa viagem à Malásia que Wallace decidiu apresentar por carta suas ideias a Darwin. Nos anos seguintes, Wallace se tornaria um reconhecido cientista e naturalista na Inglaterra. Um artigo na Quatro Cinco Um conta sobre como ele foi um dos primeiros a combater o movimento terraplanista surgido no país.


Alfred Russel Wallace. Fotografia de Sims, 1889. [Crédito: Wellcome Collection]
 

Darwin & Wallace

“Eu nunca vi uma coincidência mais impressionante do que essa. Se Wallace tivesse o meu esboço que escrevi em 1842, ele não poderia ter feito um resumo melhor!”. Essa foi a reação de Darwin ao receber as notícias de Wallace. A solução, para manter a originalidade de sua pesquisa e ao mesmo tempo dar crédito ao jovem naturalista, foi apresentar um artigo assinado em conjunto pelos dois, Darwin e Wallace. A introdução do artigo, apresentado por Charles Lyell e John Hooker à Sociedade Lineana em 1858, dizia:

“Meus caros senhores, 
Os escritos em anexo, que temos a honra de comunicar para a Sociedade Lineana, e que tratam do mesmo assunto – as Leis que afetam a Produção de Variedades, Raças, e Espécies –, contêm os resultados das investigações de dois infatigáveis naturalistas, Sr. Charles Darwin e Sr. Alfred Wallace. Esses cavalheiros, de forma independente e sem saber um do outro, conceberam a mesma engenhosa teoria para descrever a aparência e a perpetuação de variedades e de formas específicas no nosso planeta. Ambos podem clamar, com justiça, o mérito de serem pensadores originais nessa importante linha de investigação; mas, como nenhum dos dois publicou as suas visões, mesmo que o senhor Darwin tenha, por muitos anos, sido repetidamente impelido por nós a fazê-lo, e como ambos os autores entregaram sem reservas seus escritos em nossas mãos, acreditamos que o melhor a fazer é promover os interesses da ciência com uma seleção dos dois para ser entregue à Sociedade Lineana.”


A coleção de besouros de Wallace. [Crédito: National History Museum]
 

Lugares

A Malásia de Wallace

Após perder todos os espécimes coletados em sua viagem pela América do Sul, Wallace partiu para o arquipélago malaio, território ainda desconhecido e pouco mapeado. Da mesma forma como as ilhas Galápagos foram um laboratório para Darwin, a viagem à Malásia foi decisiva para que Wallace formasse as suas ideias sobre a origem das espécies. Para saber mais sobre a passagem de Wallace pelo Sudeste Asiático, recomendamos estes dois textos em inglês do portal The Conversation, um sobre seu assistente local Ali e outro que retraça alguns dos passos do naturalista no arquipélago.


Mapa do arquipélago malaio por Alfred Russel Wallace, 1865. [Crédito: Wellcome Collection]
 

Ideias & invenções

Seleção artificial e seleção natural

No capítulo de abertura de A origem das espécies, antes de entrar propriamente na “seleção natural”, Darwin fala sobre a “seleção artificial”. A seleção artificial trata da domesticação de espécies animais e vegetais feitas pelo homem. No caso dos vegetais, esse processo fez com que pudéssemos adaptar frutas e legumes aos nossos gostos. Para curiosidades sobre esses tipos de alterações, confira este artigo em português. Você também pode conhecer mais sobre a história da melancia, contada com base em pinturas renascentistas, neste texto em inglês do portal Vox.


As melancias com polpa espiral. Obra de Giovanni Stanchi da segunda metade do século 17. [Crédito: Reprodução/Christie's]
 

Eventos

O incêndio do Helen

Conforme relato de Alfred Russel Wallace sobre o incêndio em seu navio: 

“As únicas coisas que salvei foram meu relógio, meus desenhos de peixes, e parte de minhas anotações e diários. A maior parte dos cadernos, notas sobre os hábitos dos animais e desenhos das transformações dos insetos foi perdida.
Minhas coleções eram em sua maioria do interior, próximo às origens do Rio Negro e Orinooko, uma das regiões mais selvagens e menos conhecidas da América do Sul, e sua perda, portanto, mais lamentável. Eu tinha uma bela coleção de tartarugas de rio (Chelydidae) consistindo de dez espécies, muitas das quais acredito que eram novas. Também mais de cem espécies de peixes pouco conhecidos do Rio Negro: destas últimas, no entanto, e de muitas outras espécies, salvei meus desenhos e descrições. Minha coleção particular de Lepidoptera continha ilustrações de todas as espécies e variedades que coletei em Santarém, Montalegre, Barra e no alto do Amazonas e no Rio Negro: deveria haver ao menos uma centena de espécies novas e únicas.”

Leia a íntegra, em inglês, neste link.

A publicação de A origem das espécies

Em 1859, um ano após lançado o artigo assinado em conjunto com Wallace, Darwin publicou Da origem das espécies por meio da seleção natural ou a preservação das raças favorecidas na luta pela vida. Os 1.250 exemplares da primeira tiragem já estavam vendidos quando saíram da gráfica, e novas edições se seguiram, sempre com correções e adições do autor. Se você perdeu quando indicamos da primeira vez, leia na Quatro Cinco Um a resenha de Maria Isabel Landim das duas recentes traduções brasileiras da obra.


Desenho de um vombate por Edward Burne-Jones. [Extraído de seus Memorials.]
 

A febre dos vombates

No episódio, ouvimos sobre como a criação de pombos era um passatempo comum na Inglaterra vitoriana. Outra moda mencionada é a dos vombates, pequenos marsupiais muito fofos nativos da Austrália que acabaram sendo cultuados por artistas ingleses. Tudo começou com os primeiros naturalistas que viajaram à Oceania, que descobriram e descreveram o animal, levando relatos e alguns poucos vombates vivos à Inglaterra. Na década de 1860, vários vombates já eram parte do zoológico de Regent’s Park. Mais ou menos nesse período, o artista Dante Gabriel Rossetti, que tinha uma coleção de animais exóticos, descobriu os vombates e se apaixonou por eles, declarando-os “as mais belas das criaturas de Deus”. Sendo ele uma celebridade nacional e influente nos meios culturais ingleses, sua obsessão acabou sendo compartilhada em seus círculos, e os vombates foram, de longe, os animais australianos que mais mexeram com o imaginário inglês na época. Leia mais, em inglês, neste artigo do Public Domain Review. O crítico literário Harold Bloom também tinha um vombate de pelúcia, de acordo com esta entrevista do portal Vulture.

Referências do episódio

  • Charles H. Smith & George Beccaloni, Natural Selection & Beyond – The intellectual legacy of Alfred Russel Wallace. Oxford University Press.
  • Charles Lesnay, Darwin. Estação Liberdade.
  • Michael Ruse, The Darwinian Revolution: science red in tooth and claw. University of Chicago Press.
  • Michael Shermer, In Darwin's Shadow – The life and science of Alfred Russel Wallace. Oxford University Press.
  • Stephen Jay Gould, Darwin e os grandes enigmas da vida. Martins Fontes.
  • Stephen Jay Gould, O sorriso do flamingo. Martins Fontes.
  • Stephen Jay Gould, The panda's thumb: more reflections in natural history. W.W. Norton & Company.

 

Vinte Mil Léguas recomenda

  • Evelyne Bloch-Dano, A fabulosa história dos legumes. Estação Liberdade.

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Criação do podcast e edição dos roteiros: Fernanda Diamant
Pesquisa, roteiros e apresentação: Leda Cartum e Sofia Nestrovski
Edição e finalização de som: Nicholas Rabinovitch
Trilha sonora e execução da trilha: Fred Ferreira
Projeto gráfico e ilustrações: Deborah Salles
Produção executiva: Mariana Shiraiwa
Edição das newsletters: Gabriel Joppert
Revisão técnica: Reinaldo José Lopes