Vinte Mil Léguas,

Massacres e libertos: entrevista com Matheus Gato

Historiador aponta a coragem de Darwin ao propor uma teoria que batia de frente com as estruturas de poder e mostra como as fronteiras raciais vão sendo redesenhadas

16nov2020 - 01h00

O novo episódio do Vinte Mil Léguas já está no ar! Ouça agora a entrevista com o sociólogo Matheus Gato de Jesus. O Vinte Mil Léguas é realizado pela Quatro Cinco Um em parceria com a Livraria Megafauna e com o apoio do Instituto Serrapilheira.


Ilustração: Deborah Salles

Matheus Gato de Jesus

O entrevistado dedica-se a pesquisas nas áreas de relações raciais, sociologia política e cultura, com ênfase na história do pensamento social brasileiro. Matheus graduou-se em ciências sociais pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e é mestre e doutor pela Universidade de São Paulo (USP). Também realizou pesquisas pelas universidades de Princeton e Harvard. Matheus nasceu em Campinas, mas mudou-se ainda criança para São Luís do Maranhão. Como ele conta, o fato de seus pais serem professores e militantes do movimento negro ajudou a formar seus interesses de pesquisa.

Conferência de Durban e as ações afirmativas

Matheus comenta ter ingressado na universidade logo após a Terceira Conferência Mundial contra Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Formas Correlatas de Intolerância, ocorrida em Durban, África do Sul, em 2001. O encontro promovido pela ONU declarou que a escravidão e o tráfico de pessoas escravizadas foram crimes contra a humanidade e propôs que as nações desenvolvessem medidas de reparação histórica. Neste período pós-Durban, coletivos e mobilizações estudantis se formaram no Brasil para defender ações afirmativas, não só na forma de cotas, mas também no âmbito epistemológico, buscando uma diversificação da produção do conhecimento e da multiplicação das referências possíveis na academia.

Revisionismo histórico

Ainda na intersecção entre história e memória, o entrevistado comenta que alguns intelectuais negros estão finalmente sendo mais editados e tendo suas relevantes contribuições valorizadas. Alguns dos nomes citados são Beatriz Nascimento, Lélia Gonzalez e Clóvis Moura. Na literatura, Matheus cita a redescoberta da maranhense Maria Firmina dos Reis, a primeira romancista mulher brasileira, que publicou o romance antiescravista Úrsula em 1859. Na Quatro Cinco Um, leia mais sobre Maria Firmina e confira também um artigo sobre outras mulheres que foram vozes de resistência. Sobre Darwin, Matheus comenta que é importante não esquecer que ele foi original e corajoso ao defender uma teoria que batia de frente com as estruturas de poder de sua época. Sua teoria também, de certa forma, unificaria todos os homens, derrubando as barreiras raciais. Essa hipótese é discutida em A causa sagrada de Darwin, de Adrian Desmond e James Moore.

Memória e história

Como pesquisador da história da formação social do Brasil, Matheus usa como fonte tanto a historiografia oficial quanto obras de literatura. Neste cruzamento ele encontrou, na obra do maranhense Raul Astolfo Marques, seu objeto de pesquisa para o livro O massacre dos libertos, que recupera um episódio escondido da história brasileira. A relação entre literatura, história e sociologia permite entender que a história não é formada apenas de “fatos”, mas de acontecimentos posteriores aos fatos, como a experiência social, os sentimentos, as memórias e as representações artísticas dos acontecimentos. 
 

Racismo científico no Brasil

Sobre o tema, o entrevistado recomenda O espetáculo das raças, de Lilia Schwarcz e Preto no branco, de Thomas Skidmore. Quando se olha para o censo de 1872 no Brasil, vê-se que a maioria das pessoas é livre. As ideias do racismo científico vêm para defender a manutenção de uma hierarquia social em uma sociedade que já não estava mais dividida entre senhores e escravos. Os eugenistas brasileiros (dentre os quais o entrevistado cita Nina Rodrigues como um nome de influência) eram inspirados por leituras de autores como Arthur de Gobineau e Enrico Ferri, que defendiam que havia raças biologicamente superiores a outras. Essas ideias entraram no país com muitas mediações e muitas expectativas locais, mas, de modo geral, o pensamento de que o lugar social está enraizado no corpo das pessoas foi um fator importante para a formação da sociedade brasileira moderna.

O grupo social dos “negros” no Brasil

As fronteiras raciais estão sendo constantemente redesenhadas, em processos sociais de longa duração, não planejados e sem uma finalidade específica (em um paralelo entre a sociologia e a seleção natural de Darwin). A fronteira que desenha o que é um grupo racial se redefine constantemente. O grupo dos negros no Brasil do século 19 e início do 20 era muito variado (os nascidos livres, os nascidos escravizados, os libertos de ventre livre, libertos no 13 de Maio, os africanos, entre outros). A visão desse grupo como um conjunto homogêneo diz respeito a pressões da racialização, que estendiam o estigma da escravidão a todos os negros, livres ou não. Frente a essa pressão, a maneira como as pessoas racializadas vocalizavam suas posições sociais foi outro fator de conformação da sociedade brasileira desde o início da República. Sobre o tema, em uma perspectiva contemporânea, Matheus recomendou o romance recente de Paulo Scott, Marrom e amarelo.


Cabeça de negro (1906), de Arthur Timotheo da Costa, exemplo do “nativismo negro” da Primeira República citado por Matheus – um esforço de valorizar a cultura negra como elemento nacional. Crédito: Museu Afro Brasil

Raça e racismo no Brasil de hoje

Para Matheus, uma das muitas conquistas importantes do movimento negro no Brasil diz respeito ao próprio debate sobre racismo. Se hoje entendemos que a democracia racial é um mito, o racismo é estrutural e o povo brasileiro é negro, isso vem da luta dos movimentos sociais. O que é positivo, pois um melhor entendimento da formação e dos problemas da nossa sociedade pode beneficiar a todos na luta contra aquilo que o entrevistado considera o mistério dos mistérios hoje em dia: a existência e a reprodução da desigualdade.

Cruz e Sousa

Matheus lembra ao fim da entrevista o poeta simbolista Cruz e Sousa (1861-1898) e o poema “O emparedado”, uma obra que marca a luta por reconhecimento para além do olhar racista do mundo. Leia aqui “O emparedado”, de Cruz e Sousa.

Quem faz

A primeira temporada do Vinte Mil Léguas chega ao fim neste episódio. Se você gostou do programa e nos acompanhou até aqui, conheça melhor algumas pessoas que ajudaram a fazer este podcast acontecer.

Criação do podcast e edição dos roteiros
Fernanda Diamant
Graduada em filosofia pela Universidade de São Paulo. Trabalhou na Publifolha e na Editora 34. É uma das criadoras da revista Quatro Cinco Um, na qual foi editora até 2019. Foi a curadora da Flip (Festa Literária Internacional de Paraty) em 2019. Em 2020, está abrindo a Megafauna, livraria independente no centro de São Paulo.

Edição e finalização de som
Nicholas Rabinovitch
Engenheiro de som formado no Instituto de Áudio e Vídeo (IAV), atua autonomamente em seu próprio estúdio de produção e gravação. Desde o ano de 2012 atua na cena independente paulistana trabalhando com bandas como Os Amanticidas, Semiorquestra, Zé Pereira, tanto em shows ao vivo como em gravações. No estúdio já trabalhou com artistas como Tom Zé, Paulo Lepetit e a Banda Isca de Polícia. Outra vertente de seu trabalho é a parceria com diretores e grupos de teatro como Cristiane Paoli Quito, Eric Nowinski, Fabulosa Companhia e o Grupo 59 de Teatro, operando som ao vivo. Hoje vem realizando a gravação, edição e finalização de podcasts. Nicholas é também formado em psicologia pela PUC-SP e pai da Dora.

Trilha sonora e execução da trilha
Fred Ferreira
Guitarrista, arranjador, diretor musical e produtor de trilhas sonoras. Graduado  em composição (2003) e viola de orquestra (2004) pela Unicamp, atua tanto no meio erudito quanto popular. Foi finalista do Prêmio Profissionais da Música 2019 nas categorias arranjador e produtor musical. Nos últimos anos apresentou-se em aproximadamente vinte países na Europa, Ásia, Oriente Médio, América do Sul e do Norte. Gravou o disco DUO (2012) em parceria com a cantora Lívia Nestrovski, com quem realizou centenas de shows. Em 2017, foram os primeiros artistas brasileiros a pisar na Síria desde o início dos conflitos no país, apresentando-se na Ópera de Damasco em um evento promovido pela Embaixada do Brasil. Em 2018 produziram e tocaram ao vivo a trilha sonora do desfile histórico da SPFW As Mudas, de Ronaldo Fraga, que é também quem assina seus figurinos. Foi diretor musical, arranjador e instrumentista de espetáculos como Mulheres de ’90, com Monica Salmaso, Fabiana Cozza e Ceumar (2016); Nossa Copacabana, de João Sabiá (2014); Antigamente aqui era o mar – histórias e canções de Jorge Amado e José Saramago, com Lívia Nestrovski; Benneditto Seja, de Rita Benneditto (2020). Com esta última, produziu o clipe de "Sete Marias" (2019), com mais de 1,6 milhões de visualizações no Youtube. Foi arranjador dos espetáculos Cartas e Canções (2011), com Lívia Nestrovski, o contratenor Paulo Mestre e a teorbista Silvana Scarinci e Imagine: a canção inglesa de Purcell a Beatles, com Paulo Mestre, Silvana Scarinci e o gambista Juan Manuel Quintana, que uniram música popular e barroca. Em 2020, fez a produção musical do disco Sarabanda, de Lívia e Arthur Nestrovski.

Projeto gráfico e ilustrações
Deborah Salles
Designer e ilustradora. Já colaborou com a revista Quatro Cinco Um, Tag Livros e The Intercept Brasil. Fez as identidades visuais do podcast Vinte Mil Léguas e do último disco da banda Quartabê, o que lhe rendeu uma indicação ao 20º Grammy Latino. É coautora de Viagem em volta de uma ervilha (Editora Veneta, com Sofia Nestrovski).

Produção executiva
Mariana Shiraiwa
Formada em comunicação social pela Universidade Estadual Paulista (Unesp). Trabalha com produção e coordenação de projetos culturais e integrou projetos para a TV Cultura (“Pedro & Bianca”, de Cao Hamburguer; e a adaptação para TV do longa “Trago Comigo”, de Tata Amaral), Canal Brasil (programa de entrevistas Cineastas do Real), produções cinematográficas (curtas metragens “Um guarda real” e “A maior massa de granito do mundo”, de Luis Felipe Labaki; e o longa metragem “Marias”, de Joana Mariani), produção de festivais de cinema (É Tudo Verdade – Festival Internacional de Documentário, e Mostra Internacional de Cinema de SP), e a produção da peça teatral “Depois do Ensaio”, com texto de Ingmar Bergman adaptado e dirigido por Mônica Guimarães. Atualmente integra a equipe da Associação Quatro Cinco Um.

Edição das newsletters
Gabriel Joppert
Jornalista com 10 anos de experiência nas áreas de cultura e mercado editorial, com passagens pela Casa do Saber, Associação Objeto Brasil e Editora Estação Liberdade.

Revisão técnica
Reinaldo José Lopes
Jornalista de ciência há quase 20 anos, a maior parte deles na Folha de S.Paulo, onde trabalha hoje. Autor de nove livros, incluindo Darwin sem frescura, pela editora Harper Collins, tenta agora terminar o décimo. Fez mestrado e doutorado sobre a obra de J.R.R. Tolkien na Universidade de São Paulo. 

A revista Quatro Cinco Um é uma publicação da Associação Quatro Cinco Um, entidade sem fins lucrativos voltada para a difusão da cultura do livro, do pensamento crítico e das ciências, fundada em 2017 por Fernanda Diamant e Paulo Werneck. Contribua com nossas atividades.

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