Repertório 451 MHz,
Vozes da guerra
Beatriz Bracher fala sobre a costura de relatos reais no romance que abre sua trilogia sobre a Guerra do Paraguai e ressalta pessoas que viveram o conflito
22maio2026Está no ar o 197º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição, a escritora Beatriz Bracher fala sobre a escrita e a montagem do seu romance Guerra — I: ofensiva paraguaia e reação aliada (Editora 34, 2024). O livro é o primeiro volume da trilogia sobre a Guerra do Paraguai e tem uma narrativa construída com documentos e relatos reais de combatentes e pessoas que viveram o conflito.
A convidada conta o que a levou a se interessar pela Guerra do Paraguai (1864-70), como foi a pesquisa para a realização da obra e o que descobriu “ouvindo as vozes” das pessoas mortas que estão no romance, vencedor do Prêmio Machado de Assis, da Biblioteca Nacional, em 2025. O encontro aconteceu durante A Feira do Livro 2025 e foi mediado pelo escritor Joca Reiners Terron. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet.
Também editora de livros e uma das fundadoras da Editora 34, Bracher é autora de romances e coletâneas de contos, como Meu amor (2009), Garimpo (2013) e Anatomia do paraíso (2015), todos publicados pela Editora 34. Ela ainda escreveu o roteiro dos filmes Os inquilinos (2009), de Sergio Bianchi, e O abismo prateado (2011), de Karim Aïnouz, e o argumento de Cronicamente inviável (2000), também dirigido por Bianchi.
Costura
Memórias, livro escrito entre 1890 e 1899 pelo Visconde de Taunay, foi o que despertou a curiosidade de Bracher sobre a Guerra do Paraguai. Ela conta que a maneira como Taunay narra sua experiência no conflito, aliando sensibilidade e veracidade, fez com que ela se questionasse sobre o tema e quisesse saber mais do que é ensinado nas escolas brasileiras.
Mais Lidas
“Fui lendo, lendo, desde 2016, separando fragmentos e cada vez me apaixonando mais. Só que eu não me apaixonava pela guerra; eu me apaixonava pelos textos, pelos homens, pela paisagem, pelos cavalos, as moscas…”, diz. “Realmente era muito forte aquilo.”
Só em 2021, após “recortar e colar” fragmentos de diários e de documentos históricos, Bracher começou a escrever Guerra — I. Ela conta que a ideia inicial era estruturar a narrativa com um personagem ficcional, mas achou o resultado “bobo”. Percebeu então que precisava apenas costurar os retalhos para criar a narrativa.
“Para mim, é muito importante que não seja um livro sobre a Guerra do Paraguai, mas um livro da Guerra do Paraguai”, comenta. Questionada se a costura e a colagem lhe causaram dúvidas quanto à sua autoria, Bracher é taxativa: “Não tive dúvida nenhuma, porque não é só uma seleção. São os meus olhos ali, selecionando e já vendo a história que vai ser contada”.
Os mortos falam
A narrativa com vozes daqueles que já morreram é o grande diferencial de Guerra — I e da trilogia, diz Bracher. Ela afirma, concordando com o mediador Joca Reiners Terron, que no livro os mortos efetivamente “falam”. E cita o filme A escavação (2021), do cineasta Simon Stone, como obra que a levou a refletir sobre sermos fruto de quem nos deixou — na trama, que se passa no interior da Inglaterra, uma fazendeira e um escavador descobrem registros arqueológicos que revelam um passado inesperado.
“Nós somos compostos por tanta gente e por tantas coisas que a gente leu, por tantas coisas que a gente viveu. Então, quando a gente escreve um romance, a impressão é de uma passagem. Passam umas coisas através de você”, diz.
Descoberta do Brasil
A escritora também fala da importância da Guerra do Paraguai para que se conheçam as diversas realidades do Brasil, já que o conflito reuniu pessoas de norte a sul do país.
“Um brasileiro do Pará lutar porque uma moça de Corumbá foi estuprada era uma coisa que não tinha cabimento, mas passou a ter”, exemplifica. “É uma coisa que nunca tinha acontecido antes, esse sentimento de brasilidade.”
Escravidão
Apesar da dificuldade de encontrar testemunhos de pessoas escravizadas do período, Bracher destaca a participação delas no conflito e as brutais condições de recrutamento e de tratamento pelo Exército. “Até abril de 1866 os escravizados iam nessa ideia de substituto. Você não ia [para a guerra] se entregasse alguém no seu lugar.”
Em 1866, a lei foi alterada e o Império passou a comprar escravizados, o que levou muitos senhores a vender os que tinham problemas de saúde para ganhar dinheiro com quem não servia mais para trabalhar. Sobre a hipótese, bastante difundida, de que a convivência entre pretos e brancos no front teria apressado a abolição, Bracher é cética. “A explicação é boa, mas se você pensa que a guerra acabou em 1870 e a abolição veio dezoito anos depois — se não tivesse sido apressada, quando seria?”
Livros e afins
Confira os títulos que aparecem nesta edição do 451 MHz e outras leituras ou referências mencionadas durante a conversa:
- Guerra — I, de Beatriz Bracher (Editora 34, 2024)
- As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift (trad. Paulo Henriques Britto, Companhia das Letras, 2010)
- Memórias, de Visconde de Taunay (Iluminuras, 2000)
- Anatomia do paraíso, de Beatriz Bracher (Editora 34, 2015)
- Os mortos indóceis: necroescritas e desapropriação, de Cristina Rivera Garza (trad. Joca Reiners Terron, WMF, 2024)
- A escavação, filme de Simon Stone (Netflix, 2021)
Mais na Quatro Cinco Um
Na época do lançamento de Guerra — I, a revista dos livros publicou uma resenha do romance acompanhada de entrevista de Bracher a Ronaldo Bressane. “Sabemos mais como os americanos lutaram no Vietnã, ou os europeus nas guerras mundiais, do que sobre esse conflito [a Guerra do Paraguai]”, disse a autora. Leia na íntegra.
O melhor da literatura LGBTQIA+
O episódio traz uma dica literária da escritora Natércia Pontes, que esteve no 193º episódio do 451 MHz. A autora de Os tais caquinhos (2021) e Vida doçura (2026), ambos publicados pela Companhia das Letras, indica A Palavra que Resta, de Stênio Gardel, publicado em 2021 também pela Companhia das Letras.
“É um livro que eu não li, mas tenho certeza que vou adorar. É do meu conterrâneo Stênio Gardel. A palavra que resta está aqui na fila de leitura e eu estou querendo muito, muito concluir, porque muita gente já falou super bem dele — eu vou gostar e eu tenho certeza”, diz.
Leia mais dicas da seção O Melhor da Literatura LGBTQIA+.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura – Lei Rouanet
Para falar com a equipe: [email protected]
Porque você leu Repertório 451 MHz
Escrever para lembrar
A portuguesa Lídia Jorge, vencedora do Prêmio Camões 2026, fala sobre seus romances Misericórdia e Diante da manta do soldado e sobre a escrita que celebra a memória
JULHO, 2026
