Repertório 451 MHz,
Sonetos subversivos
Glauco Mattoso e Paulo Henriques Britto falam sobre como subvertem o soneto, a mais clássica das formas fixas da poesia, com humor e obscenidade
03abr2026 • Atualizado em: 02abr2026Está no ar o 190º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Esta edição traz um bate-papo entre os poetas Glauco Mattoso e Paulo Henriques Britto, que renovaram a poesia brasileira praticando o soneto e mostrando que a mais clássica das formas fixas pode ser subversiva. Eles falam sobre o tom bem-humorado e até obsceno ou escatológico de seus sonetos e recitam poemas divertidos e surpreendentes.
A conversa aconteceu durante A Feira do Livro 2025, com mediação do jornalista e colunista da Quatro Cinco Um Fernando Luna. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet.
Glauco Mattoso é o pseudônimo do poeta e ensaísta paulistano Pedro José Ferreira da Silva — o nome adotado foi inspirado no glaucoma que o deixou cego nos anos 90. Autor de vários livros, ganhou o prêmio Oceanos de 2015 pela coletânea de sonetilhos Saccola de feira (nVersos, 2014). Mais recentemente, publicou Amorosissimamente (Clóe, 2025), com poemas amorosos e transgressores.
Já o carioca Paulo Henriques Britto também é contista, ensaísta e um dos grandes tradutores brasileiros da língua inglesa — adaptou para o português obras de George Orwell, James Baldwin, Philip Roth, Thomas Pynchon e Elizabeth Bishop, entre outros. Ano passado, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras. É autor dos livros de poesia Formas do nada (2012), Nenhum mistério (2018) e Fim de verão (2022), entre outros, e do livro de contos O castiçal florentino (2021), todos pela Companhia das Letras. Seu nono livro de poemas, Embora, acaba de ser lançado pela mesma editora.
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Na conversa, Paulo Henriques Britto conta como descobriu a poesia de Glauco Mattoso, que começou a se tornar um nome familiar para os leitores brasileiros nos anos 80, com sua coluna “Banana Purgativa”, publicada na revista Chiclete com Banana. Britto diz que, no fim da década de 70, encontrou poemas de Glauco em publicações underground do movimento Poesia Pornô, fundado pelo amigo Eduardo Kac, artista visual radicado nos Estados Unidos.
“Fiquei fascinado com o primeiro poema que eu li dele, que era o ‘Manifesto obsoneto’, um soneto completamente obsceno, com versos de onze sílabas, um esquema de rimas absolutamente fantástico”, lembra. Britto, inclusive, escreveu um ensaio sobre o poema, publicado em 2017 na revista Texto Poético, da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Letras e Linguística (Anpoll).
“Manifesto obsoneto” também foi musicado e entrou no álbum Melopéia (2011), que reúne versões de cantores como Arnaldo Antunes e Itamar Assumpção para sonetos de Glauco Mattoso.
Britto menciona também o Jornal Dobrabil, que Glauco Mattoso começou a produzir em 1977 na máquina de escrever. O nome da publicação satírica era um trocadilho com o do Jornal do Brasil. O poeta paulistano enviava as edições em formato de carta para “medalhões da época”, diz, como Tom Jobim, Antônio Houaiss, Augusto de Campos e Caetano Veloso. Em 2001, uma coletânea do Jornal Dobrabil foi publicada em formato de livro pela editora Iluminuras.
Os convidados ainda lembram que Glauco Mattoso é citado por Caetano na canção “Língua”, do álbum Velô (1984). O artista baiano canta: “Adoro nomes/ Nomes em ã/ De coisas como rã e ímã/ Ímã, ímã, ímã, ímã, ímã, ímã, ímã/ Nomes de nomes/ Como Scarlet Moon de Chevalier, Glauco Mattoso e Arrigo Barnabé”.
Forma fundamental
Sobre a predileção pelo soneto, Glauco diz que a métrica e a rima foram fundamentais para seu trabalho depois de perder a visão, em 1995. No caso de Britto, o interesse veio da ideia de dominar a forma clássica antes de partir para o verso livre. “Para fazer um filme experimental, você tem que saber fazer um filme com começo, meio e fim”, compara.
No percurso, o poeta carioca acabou se interessando mais pela possibilidade de explorar a forma fixa buscando variações. O resultado, visto também na poesia de Glauco Mattoso, foi uma renovação do soneto para além da forma clássica de dois quartetos e dois tercetos ou do chamado soneto shakespeariano, dividido em três quartetos e um dístico. Britto cita como exemplo “Soneto reformado”, de Glauco, em que o número de sílabas métricas dos versos aumenta e diminui:
Se chama
Gil Gama
Foi comandante
dum centro de tortura
num tempo não muito distante.
Tirou do guerrilheiro a confissão.
Da esposa, filha e irmã tirou a candidez.
Capacho de outros rostos brincando ele fez.
E deu por encerrada a sua missão.
Agora não há o que levante
sua pica outrora dura.
Veste elegante
pijama
na cama.
Glauco Mattoso lembra de outro soneto escrito com a mesma fórmula, “O preguicista”, musicado pela banda Inocentes.
Na conversa, Britto ainda menciona o poeta da Roma Antiga Catulo — conhecido por sua poesia direta e, muitas vezes, obscena —, que teve uma antologia publicada ano passado pela Edusp.
Da doença à escrita
Os convidados falam também de como doenças crônicas os levaram para o mundo dos livros. Diagnosticado com asma e miopia severa na infância, Paulo Henriques Britto diz que nunca pôde brincar na rua. Ficava em casa vendo TV, cujos anúncios precários, nos anos 50, reproduziam cartazes. “Então, sem ninguém me ensinar, aprendi a ler vendo televisão. Aí passei para os gibis e, em pouco tempo, com seis anos mais ou menos, eu comecei a escrever.”
Glauco recorda que também “não jogava futebol, não empinava pipa, não andava de bicicleta”, devido à miopia severa — só enxergava com o olho esquerdo. Como Britto, lia gibis, e, posteriormente, livros. “Através dos livros eu entrei em contato com autores e também com os poetas”, diz. Um deles, Gregório de Matos, o levou a desdobrar, num pseudônimo, o nome da doença que o fez perder a visão por completo, por volta de 1995, aos 44 anos.
Ele conta que, na época, interrompeu a carreira literária, até que conheceu o programa de computador Dosvox, que transforma texto em áudio e foi desenvolvido na UFRJ. “Pude reencontrar a poesia através do computador falante”, diz.
Livros e afins
Confira os títulos que aparecem nesta edição do 451 MHz e outras leituras ou referências mencionadas durante a conversa:
- Tarde (Ateliê Editorial, 2025), de Olavo Bilac
- Amorosissimamente (Clóe, 2025), de Glauco Mattoso
- Soneto: a exceção à regra (Círculo de Poemas, 2024), org. de André Capilé e Paulo Henriques Britto
- O castiçal florentino (Companhia das Letras, 2021), de Paulo Henriques Britto
- Paraísos artificiais (Companhia das Letras, 2004), de Paulo Henriques Britto
- Jornal Dobrabil (Iluminuras, 2001), de Glauco Mattoso
- Eu quero é botar meu bloco na rua, de Sérgio Sampaio (Língua Geral, 2009), de Paulo Henriques Britto
- Fervor de Buenos Aires, de Jorge Luis Borges
- Velô (1984), disco de Caetano Veloso
Mais na Quatro Cinco Um
Em 2024, Glauco Mattoso foi fotografado por Renato Parada para a sessão Folha de Rosto da Quatro Cinco Um. Já Paulo Henriques Britto esteve no episódio 141 do 451 MHz, ao lado da intérprete simultânea Anna Vianna, para falar sobre tradução literária e os desafios da profissão com a inteligência artificial. Britto também participou do episódio 17 do podcast, no qual falou sobre Elizabeth Bishop, a homenageada da Flip em 2020.
O melhor da literatura LGBTQIA+
No quadro de dicas literárias LGBTQIA+, o episódio traz uma recomendação do escritor Ernesto Mané. Ele é autor de Antes do início, publicado em 2025 pela Tinta-da-China Brasil (selo editorial Associação Quatro Cinco Um). Mané recomenda o livro Planta oração (Nós, 2022), de Calila das Mercês.
“É um livro de muita sensibilidade, que aborda seus temas com uma delicadeza impressionante. A obra reúne narrativas curtas, com uma linguagem bastante poética, trabalhando memórias, afetos e experiências de vida de um jeito muito íntimo, quase como uma oração, como sugere o próprio título”, diz.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]
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