Repertório 451 MHz,
Primeiras poetas
Na coluna Bruna Beber Entrevista, Ana Rüsche e Lubi Prates apresentam Inesquecíveis, uma antologia da poesia brasileira escrita por mulheres desde o século 18
27fev2026 • Atualizado em: 06jul2026Está no ar o 185º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição, a colunista Bruna Beber conversa com as escritoras Ana Rüsche e Lubi Prates sobre a antologia Inesquecíveis: quatro séculos de poetas brasileiras, organizada pelas duas e recém–lançada pela editora Bazar do Tempo. O livro traz um panorama da poesia brasileira escrita por mulheres desde o século 18, reunindo perfis e uma seleção de poemas de trinta grandes poetas, algumas pouco conhecidas ainda hoje.
As convidadas contam como foi a pesquisa e o processo de organização do livro. Elas também relatam quais poetas pioneiras mais chamaram sua atenção e falam sobre como o machismo contribuiu para o apagamento histórico das autoras. O programa ainda traz uma novidade: a partir desta edição, a coluna de Beber passa a se chamar Bruna Beber Entrevista. O episódio foi realizado com apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.
Poeta, editora e tradutora, Lubi Prates publicou quatro livros de poesia. Entre eles, Um corpo negro (Nosotros, 2018) e Até aqui (Peirópolis, 2021). Ela também é fundadora da Nossa Editora, dedicada à publicação de livros de autoria negra.
Já Ana Rüsche, que também atua como professora de literatura na UnB, já publicou mais de uma dezena de livros de poesia, ficção e não ficção. Em 2025, lançou o romance Carga viva (Rocco) e o livro de crítica Quimeras do agora: literatura, ecologia e imaginação política no Antropoceno (Bandeirola).
Histórias apagadas
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No episódio, Prates e Rüsche destacam como muitas poetas brasileiras que tiveram destaque em sua época foram esquecidas ao longo do tempo, tendo que enfrentar o privilégio masculino. “A história das mulheres na literatura, na poesia, foi construída com base no machismo, tentando criar fissuras ali”, diz Prates. Ela e Rüsche contam que a indignação com a quase ausência de autoras nas antologias e estudos literários sobre os primórdios da poesia brasileira as levaram a criar um curso sobre poetas esquecidas no festival Eu Sou Poeta, realizado em São Paulo em 2016.
O projeto daria origem à antologia Inesquecíveis, que nasceu depois do convite de Ana Cecília Impellizieri Martins, fundadora e editora da Bazar do Tempo, para Prates e Rüsche transformarem a pesquisa em livro.
Rüsche revela que a tarefa foi emocionante, na medida em que ela e Prates se aprofundaram na vida das poetas selecionadas. “Quando a gente trabalha com a recuperação de obra é muito dolorido”, diz. “Chorei nas trinta poetas perfiladas”, continua, acrescentando que, além dos perfis das autoras escolhidas, o livro menciona mais de cem escritoras que desafiaram as convenções sociais para se dedicarem à literatura. “Escrever o Inesquecíveis foi confrontar histórias que dão muita indignação: como uma mulher que em seu tempo histórico era famosíssima nem para nome de rua ficou?”
O livro, que percorre quatro períodos da história do país — Brasil Colônia, Brasil Império, Brasil República até 1940 e as décadas de 40 a 70 —, destaca a biografia e poemas de autoras da época colonial como Ângela Rangel, Bárbara Heliodora e Ildefonsa Laura César; percorre o período imperial com Maria Firmina dos Reis, Adélia Fonseca, Adelaide de Castro Alves Guimarães e Auta de Souza, entre outras; chega ao fim do século 19 e início do 20 com nomes como Gilka Machado, Martha Hollanda, Julieta Baraba, Pagu e Olga Savary; e completa a lista com poetas contemporâneas, entre elas Conceição Evaristo, Eliane Potiguara, Marilia Kubota e Micheliny Verunschk.
Na conversa, as convidadas detalham o processo de curadoria das poetas e os critérios utilizados. Ângela Rangel, por exemplo, ganhou destaque por ser a primeira poeta brasileira de que se tem conhecimento. “Hoje nós sabemos que começou por ela. Amanhã podem surgir outros nomes. Mas a gente achou importante, nessa primeira parte do livro, trazer todas as poetas do século 18 a que tivemos acesso”, diz Lubi.
No século 19, destacam as organizadoras da antologia, o campo da poesia feminina foi dominado por mulheres educadoras que também eram professoras. Rüsche associa o trabalho na educação à capacidade de pagar as próprias contas e ser menos dependente, inclusive do marido. “Eu acho interessante pensar nessa relação do ensino e também dessa dependência menor, muitas vezes, do próprio companheiro que impedia a mulher de escrever ou de publicar”, afirma.
República e Brasil moderno
Depois da Proclamação da República, durante o período de 1893 até 1933, o número de poetas mulheres cresceu, mas o movimento não garantiu protagonismo. Ana Rüsche lembra que mesmo com as vanguardas da Semana de Arte Moderna de 1922 o espaço feminino continuou reduzido. “A semana de 22 é sobre poesia, mas não é sobre as mulheres poetas”, diz. Patrícia Rehder Galvão, a Pagu, por exemplo, tinha visibilidade, mas isso não se estendeu à sua poesia. “A Pagu é muito vista, mas ela é muito pouco lida, principalmente pelo seu caráter extremamente revolucionário, questionando frontalmente as ideias capitalistas.”

Já entre os anos 40 e 70, as convidadas ressaltam a questão racial, que começa a ser discutida mais intensamente. “Temos muitas mulheres negras nesse capítulo. Temos [também] a Eliane Potiguara, que é uma mulher indígena, a Marilia Kubota, que é descendente de japoneses”, diz.
Elas lembram que, especialmente no período da ditadura militar (1964-85), o número de mulheres publicadas cresceu, mas a censura afetou a circulação de muitos livros. Ana Rüsche cita a escritora Cassandra Rios, uma das principais vítimas dos censores.
Rüsche ainda faz um balanço da importância de contar as histórias das poetas que aparecem no livro e de muitas outras hoje pouco lembradas. “Essas histórias são interessantes de serem contadas justamente para que a gente veja a história do Brasil de uma forma mais multifacetada, mais complexa, mais colorida, e para pensar justamente o que nós queremos da poesia brasileira no futuro.”
Mais na Quatro Cinco Um
Na edição #94 da revista dos livros, de junho de 2025, Ana Rüsche falou sobre seu mais recente romance, Carga viva, em entrevista a Iara Biderman. Na conversa, a escritora contou de onde veio a inspiração para a escrita do livro.
“Quis trazer uma história alternativa, uma das funções da literatura é abrir um horizonte imaginativo. Será que a gente não consegue imaginar um país em que o Bolsonaro não tivesse vencido [a eleição de 2018]? Para mim, a graça do livro é achar uma saída utópica que é construída em conjunto pelas pessoas.” Leia na íntegra.
Colaboradora da Quatro Cinco Um, Rüsche resenhou o romance A trama das árvores, de Richard Powers, também em 2025. “Powers curva a forma literária para conceder a dimensão de algo difícil de retratar: a essência de uma floresta, com suas interrelações e magnitudes”, escreveu. Leia aqui.
Já Lubi Prates escreveu sobre o infantojuvenil Com qual penteado eu vou? (Melhoramentos, 2021), de Kiusam de Oliveira. No texto, ela diz que a trama “nos conecta com saberes e práticas vindos de África e que se mantêm nas nossas comunidades, passando de geração em geração”. E exemplifica: “como uma avó que penteia os cabelos da mãe que penteia os cabelos da filha — que aprende desde cedo a necessidade desses cuidados para crianças e adultos”. Leia mais.
O melhor da literatura LGBTQIA+
O programa traz uma dica literária da professora e escritora Lavínia Rocha, uma das convidadas do episódio #184 do 451 MHz. Ela recomenda o livro Nada digo de ti, que em ti não veja, de Eliana Alves Cruz, que foi publicado em 2020 pela Pallas.
“A protagonista é uma mulher negra e trans, […] ela faz uma narrativa, ela constrói uma história que é tão emocionante e com vários personagens. Assim, a gente vai vendo várias questões acontecendo ao mesmo tempo. Eu não conseguia parar de ler; até hoje eu fico pensando muito em todos os sentimentos que esse livro arrancou de mim”, diz.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]
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