Repertório 451 MHz,

Outras histórias do Brasil

O jornalista e apresentador do podcast Projeto Querino e a historiadora e autora de ‘Racismo brasileiro’ quebram alguns dos mitos do Brasil independente

09set2022 - 11h58

Está no ar o 71º episódio do 451 MHz, o podcast da revista dos livros. Na semana em que se comemora a Independência do país, o jornalista e apresentador do podcast Projeto Querino e a historiadora e autora de Racismo brasileiro quebram alguns dos mitos da fundação do Brasil independente.

Duas vezes por mês, trazemos entrevistas, debates e informações sobre os livros mais legais publicados no Brasil. O 451 MHz tem apoio dos Ouvintes Entusiastas. Seja um você também! Este episódio tem ainda apoio da Companhia das Letras.

Projeto Querino

O jornalista Tiago Rogero e a historiadora Ynaê Lopes dos Santos fazem parte do Projeto Querino, idealizado por Rogero e que tem Santos como consultora em história. O Projeto Querino é um podcast produzido pela Rádio Novelo, que também é a produtora do 451 MHz. Em oito episódios, o podcast conta as histórias não contadas pela história oficial brasileira, trazendo protagonismo a à população negra, cuja contribuição para a formação do país foi invisibilizada e minimizada. 

O Querino nos propõe a ideia de conhecer a história brasileira através de um olhar que, de certa forma, nos é negado durante a nossa formação na escola: um olhar afrocentrado. Um olhar que coloca nos seus devidos lugares tanto a contribuição afro-brasileira para a formação do país, quanto a ganância dos escravizadores. E foi inspirado no podcast 1619 Project do New York Times, criado pela jornalista Nicole Hannah-Jones, que trata da presença da escravidão e do racismo na história dos Estados Unidos.

O Brasil, esse país que comemora duzentos anos de independência saudando o "coração em conserva" do próprio colonizador, foi o país que mais importou escravizados no mundo. Também foi o último das Américas a abolir a escravidão. 

O Querino é mais que um podcast: ele tem um site próprio em que são publicados outros materiais que expandem os episódios e também traz textos na revista Piauí. Ele procura trazer para um público mais amplo uma visão da história brasileira que já estava consolidada dentro da universidade, mas que tem dificuldade de sair da esfera acadêmica. 

Rogero já é veterano dessa linguagem, tendo ficado à frente de outros podcasts de sucesso, o Vidas Negras, também da Rádio Novelo, e o Negra Voz, do jornal O Globo, em que trazia à luz histórias de importantes figuras negras brasileiras.

“O podcast não comete exageros, está baseado nos documentos”, comenta Rogero, que ainda aponta o importante trabalho de Paula Scarpin, Flora Thomson-Deveaux e Mariana Jaspe como consultoras de roteiro, elemento essencial para que as histórias fossem bem contadas. Mesmo assim, ele diz que o podcast “não tem a pretensão de contar toda a história, só apontar caminhos”.

Já Santos trabalhou pela primeira vez como consultora de um podcast. “Me emocionei ouvindo. Já sabia o que ia ser dito, pois já tinha lido roteiro”, conta ela no episódio. “Acredito em história pública que converse com mais gente para além da academia. Foi um aprendizado para mim, a forma é muito nova, fundamental para chamar o ouvinte, para enredá-lo, para fazer com que a história chegue.”

Para ela, um dos problemas em torno do ensino da história do Brasil é a ideia de que ela não apresenta conflitos. “Essa pretensa falta de conflito torna desinteressante a história do Brasil, o que tem mais é conflito, e a gente foi condicionado a não ver o conflito”, conta ela, que falou um pouco da sua experiência em sala de aula e destacou que o ineditismo do Projeto Querino é trazer o que está consolidado na universidade e que não chega a um público mais amplo.


 

Santos adentrou esse trabalho como intelectual pública ao publicar recentemente o livro Racismo brasileiro: uma história da formação do país, pela editora Todavia. A obra procura desconstruir a ideia de que o Brasil não era racista. “A história do racismo no país é a própria história do Brasil”, resume a autora.

Escolha pelo racismo

O apresentador Paulo Werneck comenta que se deu conta da história da escravidão brasileira depois de ler Histórias de quilombolas, Flávio dos Santos Gomes, lançado pela Companhia das Letras, em 2006.


 

A obra retrata o mundo interligado das senzalas e dos quilombos no Rio de Janeiro do século 19, a partir de pesquisa realizada em arquivos policiais e judiciários, descrevendo com detalhes as ligações dos quilombolas com grupos livres e com os cativos e mostrando como os fugitivos abalavam o equilíbrio das relações escravistas.

Tiago Rogero falou que estava relendo O pacto da branquitude, de Cida Bento, lançado pela Companhia das Letras, e relembrou que ela escreve que “quase nunca se fala na herança escravocrata e o quanto isso beneficiou as pessoas brancas”.


 

Nesse sentido, Ynaê Lopes dos Santos observou que o modo como a história foi contada, é clara a escolha pelo racismo, pois existe uma agenda da elite brasileira feita para conceder privilégios à população branca. Isso veio especialmente da Primeira República, que é um período importante para entender o Brasil de hoje, que foi de grande transformação política, assim como o momento da Independência. A questão é que se substituiu uma estrutura que não é escravista por outra que é claramente racista. 

O antirracismo também foi discutido no episódio, sobre que medidas práticas as pessoas brancas podem adotar para serem antirracistas. “O antirracismo não é uma camiseta que você veste, um post no Instagram. É uma decisão que você toma na sua vida e que você vai escorregar, porque a estrutura é feita para que você seja racista”, disse Santos. 

“Votar só em candidatos negros [nas eleições de outubro] já é uma forma prática de antirracismo”, conclui Rogero.

Mais na Quatro Cinco Um

Na edição 60, a jornalista Yasmin Santos escreveu sobre como Cida Bento lidera debate sobre branquitude enquanto pesquisadores trabalham para que reflexão ultrapasse os muros das universidades. A intelectual já havia sido entrevistada na Quatro Cinco Um antes, em 2020, pela jornalista Carine Nascimento, em que compartilhou reflexões sobre a questão racial e sua produção acadêmica e atuação na sociedade civil.

Em março de 2020, a nossa editora Paula Carvalho entrevistou a jornalista Nicole Hannah-Jones, criadora do 1619 Project, a partir do qual o Projeto Querino foi criado. Hannah-Jones participou do 3º Festival serrote, promovido pela revista de ensaios serrote e pelo Instituto Moreira Salles (IMS), na companhia de Ana Maria Gonçalves, autora de Um defeito de cor (Record, 2006), com mediação da jornalista Flávia Oliveira. Ela falou sobre o projeto, racismo e história: “Há uma razão para aprendermos que George Washington foi o primeiro presidente dos Estados Unidos, mas não que ele possuía milhares de seres humanos”, comentou ela à Quatro Cinco Um.

Ainda dentro do tema da Independência, a edição 61 traz um especial sobre esse momento histórico e o podcast 451 MHz já havia entrevistado a historiadora Lilia Schwarcz e a jornalista Isabel Lucas sobre o tema em janeiro deste ano.

O melhor da literatura LGBTI+

O escritor Stefano Volp, autor de Homens pretos (não) choram  e O beijo do rio (Harper Collins), recomenda o livro O quarto de Giovanni, de James Baldwin, pela Companhia das Letras, com tradução de Paulo Henriques Britto.


 

Davi, um jovem estadunidense que mora em Paris, bissexual, mas que para aquela sociedade ele é mais um homem heterossexual. Na cidade, ele conhece Giovanni, um garçom italiano por quem ele se apaixona, sua relação com esse novo desejo e essa nova relação e como as pessoas têm muitas suas vidas pautadas pela repressão social

Confira a lista completa de indicações dadas no podcast 451 MHz, no bloco O Melhor da Literatura LGBTQIA+.

451 MHz é uma produção da Rádio Novelo e da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Coordenação Geral: Évelin Argenta e Paula Scarpin
Produção: Gabriela Varella
Edição: Cláudia Holanda
Produção musical: Guilherme Granado e Mario Cappi
Finalização e mixagem: João Jabace
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Coordenação digital: Juliana Jaeger e FêCris Vasconcellos
Gravado com apoio técnico da Confraria de Sons & Charutos (SP)
Para falar com a equipe: contato@arevistadoslivros.com.br