Repertório 451 MHz,
O que a poesia fez por mim
Nina Rizzi conversa com Bruna Beber sobre como a leitura transformou sua vida de menina da zona rural e sobre a mistura de línguas nos poemas de Diáspora não é lar
05dez2025Está no ar o 175º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição, a poeta Nina Rizzi conversa com a também poeta Bruna Beber, colunista do podcast, sobre sua história com os livros e com a leitura e as diferentes formas literárias que explorou na sua recém-lançada coletânea de poemas Diáspora não é lar (Pallas).
Também tradutora, professora, pesquisadora e autora de livros para as infâncias, a convidada fala ainda sobre seu interesse pela tradução, sobretudo de formas de expressão que ela chama de “linguagens de não conformidade”, como o “pretuguês” e o black english, variante do inglês falada pela comunidade negra dos Estados Unidos. Ela conta que acredita na leitura como forma de emancipação, como aconteceu em sua trajetória. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.
Nascida em Campinas (SP), Nina Rizzi cresceu na comunidade de Bonfim Paulista, perto de Ribeirão Preto, e hoje vive em Fortaleza, no Ceará. Entre os livros que publicou, estão a coletânea de poemas Tambores pra N’Zinga (Multifoco, 2012) e o infantojuvenil A melhor mãe do mundo (Companhia das Letrinhas, 2022). Como tradutora, trouxe para o português obras de escritoras como Alejandra Pizarnik e bell hooks
No programa, ela conta que descobriu a leitura na biblioteca da escola onde estudava no interior paulista, por incentivo de uma bibliotecária chamada Teresa. “Eu morava na zona rural, muito longe. Então, ler foi uma descoberta de outros mundos, outras narrativas — de que o mundo não era fechado ali na minha fazenda, que não era minha”.
Ao longo dos anos, as leituras foram se multiplicando: da poesia de Manuel Bandeira — que lhe chamou atenção para as possibilidades das palavras — a fanzines da cena punk de Ribeirão Preto. Na mesma cidade, Rizzi foi militante do Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), numa atuação que incluiu a montagem de uma biblioteca.
Com a popularização da internet, no início dos anos 2000, ela começou a participar de projetos dedicados à literatura feita por mulheres, como o blog Putas Resolutas, junto às poetas Líria Porto e Roberta Silva, e o site Escritoras Suicidas, de Silvana Guimarães e Mariza Lourenço. Na época, já tinha se mudado para a capital cearense.
Mais Lidas
“Eu não tinha nem computador. Eu morava na Praia do Futuro, tinha acabado de chegar aqui no Ceará, não tinha emprego, não tinha casa. Eu vendia artesanato na praia e contava as moedinhas para ir na lan house digitar os textos que eu escrevia à mão”, conta.
De lá para cá, a literatura de Rizzi extrapolou o virtual e virou livro (Tambores pra N’Zinga foi o primeiro). Sobre o recente Diáspora não é lar, a poeta diz que partiu da sua história para construir uma “história de falta” — a falta de fotografias de família e de sua infância ou de informações sobre quem foi a avó.
A escrita acabou topando com a história coletiva dos brasileiros afrodescendentes, mas num diálogo com o presente. Isso inclui a intenção de cativar, pela poesia, novos leitores. “Não tenho pretensão de futuro longínquo, quando eu já estarei morta. Me interessa que o que a poesia fez por mim faça também por outras pessoas, por outros caminhos”, diz no programa.
Iansã e Baldwin
Em Diáspora não é lar, Rizzi dedica cada seção a uma uma língua ou dialeto, como o “pretuguês” e outros registros mais orais. Na segunda parte, convoca sua experiência de tradutora em poemas escritos a partir de “traduções críticas”. No episódio, ela explica: “Tem um poema que se chama ‘Iansã’, a partir do James Baldwin, que no original é ‘Senhor’. O James Baldwin estava escrevendo contra o fanatismo religioso. Então, eu faço uma digressão, um recorte crítico, já pensando na frente, que talvez Iansã que deveria ser enunciada nesse poema do Baldwin”.
Para Rizzi, que começou a delinear o primeiro poema de Diáspora não é lar quando fazia o parecer sobre um livro de uma escritora árabe, todos os seus trabalhos com a linguagem se entrelaçam. “Me interessam essas línguas que talvez sejam como a minha língua também. Uma língua mais quebrada, uma língua mais torta, que é cearense, que é paulista, muito marcada por acentos. Uma língua marcada pela história”, diz.
Livros e afins
Veja os títulos que aparecem nesta edição do 451 MHz e outras leituras ou referências mencionadas pelos convidados durante a conversa:
- Seleta em prosa e verso, de Manuel Bandeira (Editora José Olympio, 2007)
- Iracema, de José de Alencar (Penguin-Companhia, 2016)
- Lucíola, de José de Alencar (Panda Books, 2023)
- Tambores pra N’Zinga, de Nina Rizzi (Multifoco, 2012)
- A cabeça do santo, de Socorro Accioli (Companhia das Letras, 2014)
- Amor de Cabelo, de Matthew A. Cherry (Galerinha, 2020)
Mais na Quatro Cinco Um
Na edição 66 da revista dos livros, Nina Rizzi conversou com a jornalista e historiadora Paula Carvalho sobre a experiência de traduzir obras infantojuvenis de bell hooks: Meu crespo é de rainha, Minha dança tem história e A pele que eu tenho. “Os livros partem da positividade. Quando vai falar sobre pele, ela não traz um episódio racista. Quando fala de cabelo, não traz microagressões, ela faz uma dobra na linguagem”, disse Rizzi. Leia na íntegra.
Elza: a voz do milênio, uma biografia de Elza Soares para crianças, escrita por Nina Rizzi e ilustrada por Edson Ikê, foi resenhada pela cantora e escritora Karina Buhr na edição 77 da Quatro Cinco Um. “Que bom as crianças terem a chance de ler essa história”, escreveu. Leia na íntegra.
O primeiro livro infantil de Nina Rizzi, A melhor mãe do mundo, foi resenhado por Renata Penzani para o número 58 da Quatro Cinco Um. A história retrata, pelos olhos de uma criança que visita a mãe na prisão, a maternidade vivida à distância. “Retratar especificamente essas mães é prestar um serviço social”, escreve Penzani. Leia na íntegra.
O melhor da literatura LGBTQIA+
O episódio traz ainda uma dica literária do escritor e roteirista Raphael Montes, autor de Uma família feliz (Companhia das Letras, 2024) e Dias Perfeitos (Companhia das Letras, 2014), entre outros livros.
Ele indica Quarto aberto, de Tobias Carvalho, publicado em 2023 pela Companhia das Letras. Narrado por Artur, um jovem gay introvertido que, à noite, vira uma drag queen exuberante, o livro aborda a fluidez dos encontros amorosos e sexuais.
“Tobias Carvalho escreve sobre as relações contemporâneas sem moralismo e sem muita definição”, diz Raphael. “É um jovem autor para ficar de olho. Sou bem fã.”
Leia mais dicas da seção O Melhor da Literatura LGBTQIA+.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza, Clarissa Stycer e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]
Porque você leu Repertório 451 MHz
Lugar de fala
Djamila Ribeiro apresenta a nova edição de seu livro que marcou o debate público no Brasil e comenta os desafios relacionados à publicação de autoras e autores negros
JUNHO, 2026