Repertório 451 MHz,
Liberdade de exposição
Michel Laub fala sobre sua estreia na não ficção com Verão na névoa, em que discute assuntos como drogas e sexualidade
08maio2026Está no ar o 195º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição, o programa recebe o escritor Michel Laub. Ele fala sobre seu lançamento Verão na névoa (Companhia das Letras), misto de ensaio cultural e livro de memórias que parte de uma pergunta inusitada: o que a obra de Renato Russo, líder da Legião Urbana, teria a ver com a do sul-africano J. M. Coetzee, vencedor do Nobel de Literatura?
Autor de vários romances, Laub conta que Verão na névoa surgiu da vontade de escrever não ficção. Ele ainda fala sobre assuntos de que trata no livro, como sexualidade e sua relação com as drogas, especialmente a cocaína. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet e da Companhia das Letras.
Gaúcho radicado em São Paulo, Michel Laub é autor de nove romances. Entre eles, Diário da queda (2011), O tribunal da quinta-feira (2016), Solução de dois Estados (2020) e Passeio com o gigante (2024), todos pela Companhia das Letras.
Russo e Coetzee
Laub diz no episódio que, aos cinquenta anos, começou a sentir vontade de explorar outros gêneros literários além do romance, mas não queria se dedicar a um livro exclusivamente de memórias. A pergunta que motivou Verão na névoa, sobre os pontos em comum entre Renato Russo e J. M. Coetzee, surgiu do fato de ambos terem sido importantes para Laub em diferentes momentos da vida.
“A partir dessa relação minha com a obra deles, eu falo um pouco sobre o que é ser artista hoje, lidar com o público de arte hoje”, diz. “O livro todo é norteado por isso.”
Russo, conta o escritor gaúcho, despertou seu interesse pela poesia e outras formas de arte na adolescência. “A imagem que o Renato Russo projetava era muito mais ligada a uma ideia de rebeldia política”, diz o autor sobre o que atraiu sua atenção e pôs fim a um período de “certo anti-intelectualismo”.
Mais Lidas
Já Coetzee interessou Laub por sua história de vida e as ambiguidades que explora em livros como Juventude, que integra o volume Cenas da vida na província junto com Infância e Verão, todos publicados pela Companhia das Letras. Nascido na década de 40, o sul-africano cresceu sob o Apartheid e passou a questionar as iniquidades do regime, sem abrir mão das controvérsias que envolvem o papel de homens brancos, como ele. Laub se identificou com essa perspectiva.
“Ele sempre está questionando quem está narrando. É um homem falando sobre a intimidade de mulheres, é um ser humano falando sobre o sofrimento dos animais, é um branco falando sobre o racismo na África do Sul e daí por diante”, enumera. “Esse lugar ambíguo dele, para mim, é algo que sempre foi muito interessante.”
Para Laub, a identificação se deve à relação com o seu próprio lugar no mundo de hoje. “Como escritor branco cis classe média, escrevo numa língua periférica — e isso causa uma ambiguidade de posição no mundo e um desconforto na hora de narrar.”
Psicanálise e vícios
Na conversa, o escritor ainda reflete sobre a escrita de não ficção. Ele diz que, em comparação com o romance, por exemplo, o grau de exposição de quem escreve é muito maior. E traça um paralelo com a psicanálise.
“Em geral, você faz um relato em primeira pessoa, que, por mais que você esteja escondendo coisas, fugindo de coisas, é algo ligado ao [que é] seu, ao que você acha que é a sua essência.”
A partir da própria experiência, Laub também aborda sua relação com as drogas, que conduz o leitor em Verão na névoa. Ele reconhece que elas podem ser destrutivas e levar a comportamentos violentos e individualistas, mas recusa perspectivas moralistas. O autor diz que, em seu caso, a cocaína proporcionou momentos em que conseguiu “se libertar dos pudores da sociedade”.
Laub amplia a discussão para o contexto social e político, apontando para a nova indústria de vícios — por exemplo, a profusão de casas de apostas eletrônicas (bets). “As pessoas que estão aí fazendo lobby das bets, que fazem as pessoas se endividar, são as mesmas que acham que o grande problema do Brasil hoje é a maconha”, diz.
Livros e afins
Confira os títulos que aparecem nesta edição do 451 MHz e outras leituras ou referências mencionadas durante a conversa:
- Verão na névoa,de Michel Laub (Companhia das Letras, 2026)
- Verão, de J. M. Coetzee (Companhia das Letras, 2010)
- Juventude, de J. M. Coetzee (Companhia das Letras, 2005)
- Infância, de J. M. Coetzee(Companhia das Letras, 2010)
- Diário da queda, de Michel Laub(Companhia das Letras, 2011)
- Casagrande e seus demônios, de Walter Casagrande e Gilvan Ribeiro (Record, 2024)
- The Book of Sheen: A Memoir, de Charlie Sheen (Gallery Books, 2025)
Mais na Quatro Cinco Um
Em dezembro de 2020, a revista dos livros publicou uma resenha da crítica literária Leyla Perrone-Moisés sobre o romance de Laub Solução de dois Estados.
“Mais importante do que o enredo é a forma como as personagens vão sendo apresentadas. Elas não são construídas por um narrador onisciente, nem por um narrador personificado”, escreveu. Leia na íntegra.
Já o romance Passeio com o gigante foi tema de resenha da escritora Thais Lancman, em março de 2024. No texto, ela lembra que, no livro, que se seguiu a Solução de dois Estados, “o autor continua a explorar a penetração avassaladora do extremismo de direita no cotidiano brasileiro”. Leia aqui.
O melhor da literatura LGBTQIA+
O episódio traz uma dica literária de Marcos Visnadi, doutor em literatura brasileira pela USP. Ele indica Grrrls: garotas iradas (GLS, 2001), da cantora e compositora Vange Leonel.
“Esse é um livro que reúne as crônicas que a Vange Leonel escreveu no final dos anos 90 para a revista Sui Generis. É muito legal como registro de uma época e registro do que era ser dissidente sexual no final do século 20; mas também é muito bom ler a Vange, que era uma excelente cronista, além de uma excelente cantora”, diz.
Leia mais dicas da seção O Melhor da Literatura LGBTQIA+.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]
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