Repertório 451 MHz,
Ideologia hoje
Marilena Chaui fala sobre a reedição de seu clássico sobre o discurso ideológico e critica a lógica empresarial que penetrou todas as esferas da vida
24out2025 • Atualizado em: 01jul2026Está no ar o 169º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Neste programa, a filósofa Marilena Chaui conversa com o jornalista Fernando de Barros e Silva, do podcast Foro de Teresina, da revista piauí, sobre as origens de ideias que construíram a sociedade de hoje, como a exploração do trabalho e as hierarquias. O ponto de partida é seu recém-lançado livro Ideologia: uma introdução (Boitempo), que atualiza o clássico O que é ideologia, publicado em 1980 na coleção Primeiros Passos da editora Brasiliense.
Na conversa, gravada em junho durante A Feira do Livro 2025, Chaui relembra o contexto em que lançou O que é ideologia e apresenta os dois capítulos incluídos na nova versão, nos quais discorre sobre seu conceito de discurso competente e sobre o neoliberalismo. Para a filósofa, o sistema econômico dominante hoje é uma forma de totalitarismo porque faz a lógica empresarial penetrar todas as esferas da vida. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.
Professora do Departamento de Filosofia da USP e especialista em história da filosofia contemporânea, Marilena Chaui é autora de vários livros que exploram as ideias de pensadores como Karl Marx, Espinosa e Merleau-Ponty para refletir sobre política, cultura e autoritarismo no mundo de hoje.
Ela começa a conversa recordando como surgiu a ideia de escrever O que é ideologia, num momento em que intelectuais e lideranças sindicais discutiam a criação de um partido de esquerda: o PT. Para uma corrente, a legenda deveria ser um “partido ideológico”.
“Houve uma reunião com várias das pessoas que mais tarde iam formar esse partido, e eu disse: ‘eu levo uma facada no estômago cada vez que alguém diz que a gente precisa criar um partido de esquerda, um partido ideológico’”, conta.
Para Chaui, isso seria uma contradição, já que Marx — que fundou os primeiros partidos de esquerda na Europa — era crítico da ideologia. “Uma das principais coisas que Marx fez foi mostrar como a ideologia surge e qual é o seu papel em termos de ocultamento da realidade, da divisão social de classes, da mais-valia. É um ideário que tem como função fazer com que a gente aceite como normal e natural a exploração econômica e a dominação política.”
Entre os presentes naquela reunião estava Caio Graco, editor da Brasiliense, que acabou convidando Chaui para escrever um volume sobre ideologia para a coleção Primeiros Passos. O que é a ideologia foi um sucesso imediato e continuou a atrair leitores ao longo dos anos: já teve mais de cinquenta edições. A nova versão, agora com o título Ideologia: uma introdução, vem repetindo o bom desempenho: foi, inclusive, o livro mais vendido na livraria oficial d’A Feira do Livro 2025.
A filósofa explica que sua ideia inicial era aproximar o conceito de ideologia da vida cotidiana. “Era trazer aquilo que estava na propaganda, no cinema, nos teatros, na música para esmiuçar a noção de ideologia.”
Atualização
Mais Lidas
Em Ideologia: uma introdução, Chaui expande o livro original, atualizando-o com um capítulo sobre o discurso competente — a transformação do saber em instrumento de autoridade e poder em uma sociedade autoritária — e um novo texto sobre a ideologia neoliberal, em que a filósofa reflete também sobre o avanço tecnológico.
No episódio, a filósofa ainda analisa o autoritarismo na sociedade brasileira. “A gente está acostumado a achar que o autoritarismo é um fenômeno que ocorre no aparelho de Estado quando tem um golpe de Estado. A minha ideia é que o autoritarismo é aquilo que é a alma e a constituição, a forma mesma da sociedade brasileira”, afirma.
Segundo ela, nossa sociedade é “vertical, violenta, autoritária institucionalmente, cindida entre o privilégio e a carência”, e todas as relações sociais se dão entre quem manda e quem obedece. A expressão “sabe com quem está falando?” é, para Chaui, “a forma canônica da violência e do mandonismo e do autoritarismo” no Brasil.
Ela ainda explica que o conceito de discurso competente nasce depois da Primeira Guerra Mundial, quando a ciência deixa de ser um pensamento aproveitado na produção de mercadorias e passa a ser ela própria uma mercadoria. “Ela [a ciência] é completamente tomada pelas forças produtivas. Quer dizer, a tecnologia do mundo digital é isso. Ela é um elemento decisivo na acumulação do capital.”
É nesse momento no entreguerras, prossegue Chaui, que o saber se converte em autoridade. “Você tem uma ciência que se torna força produtiva e que manda. Uma sociedade autoritária em que as pessoas são hierarquizadas segundo o grau de mando e o grau de obediência. E uma forma da política em que, de um modo geral, os partidos políticos são clubes privados das oligarquias variadas”, resume a professora.
“O que eu chamei de discurso competente é o instante no qual aquele que se considera portador de conhecimentos se considera dotado do direito natural à autoridade e do direito natural de mandar”, conclui.
Neoliberalismo
Ainda no programa, Chaui explica por que considera o neoliberalismo um sistema econômico totalitário. A professora da USP volta aos primórdios do capitalismo e ao surgimento do calvinismo para traçar seu retrato do neoliberalismo. “A gente está acostumado a pensar que o totalitarismo é a existência do grande líder de massa e do partido de massa e da identificação social de todos com o partido e com o líder. O totalitarismo não é isso.”
Segundo ela, o que caracteriza esse sistema é sua influência em todas as esferas da vida — e no caso do capitalismo neoliberal, todas as relações passam a ser regidas pela lógica empresarial. “Desde a relação de trabalho, a relação familiar, o mundo do saber, o mundo das artes, o mundo da cultura, o mundo do pensamento, tudo”, diz Chaui.
“A casa é uma empresa. A escola é uma empresa. O hospital é uma empresa. O centro cultural é uma empresa. A igreja é uma empresa. O Estado é uma empresa. E é por isso que você não fala o governante, você fala o gestor.”
A origem da ideologia neoliberal, aponta a filósofa, está nas ideias calvinistas de predestinação, de associação do trabalho a uma bênção divina, e de riqueza como sinal da aprovação de Deus. Na visão de Chaui, o neoliberalismo atualizou esse ideário religioso ao fazer do sucesso econômico a prova de mérito individual.
“Quando o neoliberalismo introduz a empresa como forma de todas as relações sociais, ele produz ideologicamente o retorno ao mundo calvinista, ao mundo do empresário de si mesmo, destruído pela falta do trabalho, pelo baixíssimo salário, pelo fato de ele estar no interior de uma divisão social que lhe parece irremediável”, diz a professora, que ainda aponta que o neoliberalismo se manifesta também na vida religiosa, especialmente nas igrejas pentecostais.
“Ele [o neoliberalismo] opera através da consolação”, afirma. “O catolicismo fez isso durante séculos e séculos. Agora são os pentecostalistas que estão fazendo uma compensação [religiosa] e uma justificação para você ser empresário de si mesmo.”
Livros do episódio
Veja os títulos que aparecem nesta edição do 451 MHz e outras leituras ou referências mencionadas pelos convidados durante a conversa:
- O que é ideologia, de Marilena Chaui (Brasiliense, 1980)
- Experiência do pensamento, de Marilena Chaui (WMF Martins Fontes, 2022)
- A nervura do real, de Marilena Chaui (Companhia das Letras, 1999)
- A nervura do real II: imanência e liberdade em Espinosa, de Marilena Chaui (Companhia das Letras, 2016)
- Introdução à história da filosofia – volume 1, de Marilena Chaui (Companhia das Letras, 2002)
- Introdução à história da filosofia – volume 2, de Marilena Chaui (Companhia das Letras, 2010)
- Introdução à história da filosofia – volume 3, de Marilena Chaui (Companhia das Letras, 2023)
- Cidadania cultural: política cultural e cultura política novas, de Marilena Chaui (Autêntica, 2024)
- Manifestações ideológicas do autoritarismo brasileiro, de Marilena Chaui (Autêntica, 2013)
- A ideologia da competência, de Marilena Chaui (Autêntica, 2014)
- Brasil: mito fundador e sociedade autoritária, de Marilena Chaui (Fundação Perseu Abramo, 2007)
- Repressão sexual: essa nossa (des)conhecida, de Marilena Chaui (Brasiliense, 1984)
- A ideologia alemã, de Karl Marx e Friedrich Engels (Boitempo, 2007)
- O trabalho da obra Maquiavel, de Claude Lefort (Todavia e Editora UFMG, 2024, tradução de Gabriel Pancera, Helton Adverse e José Luiz Ames)
- A invenção democrática: os limites da dominação totalitária, de Claude Lefort, (Autêntica, 2011, tradução de Isabel Loureiro e Maria Leonor Loureiro)
Mais na Quatro Cinco Um
Marilena Chaui foi uma das professoras que o ex-ministro da Educação e professor de filosofia Renato Janine Ribeiro apontou como importantes para sua formação em artigo publicado em 2019 na edição #25 da revista dos livros. “Penso que, de todas as professoras que tive, Marilena foi a que sentiu mais o seu ofício como um desafio”, ele escreve. Leia o texto na íntegra.
O melhor da literatura LGBTQIA+
O episódio traz ainda uma dica literária da pesquisadora e tradutora Ana Carolina Mesquita, que verteu para o português várias obras da escritora britânica Virginia Woolf. Entre elas, quatro diários e uma nova edição do clássico Mrs Dalloway, publicados pela editora Nós.
Ela sugere o relato E se eu fosse puta, de Amara Moira, que foi inicialmente publicado em 2016 pela editora Hoo e, em 2023, ganhou uma nova edição pela N-1 Edições. “É um livro maravilhoso de ler, muito gostoso. Amara foi uma das primeiras a trazer a temática queer e trans para o centro da narrativa, misturando seus relatos autobiográficos com ficção de uma maneira surpreendente”, recomenda.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]
Porque você leu Repertório 451 MHz
Tudo sobre Dercy
Biógrafa de Dercy Gonçalves, Adriana Negreiros fala sobre a vida e as contradições da humorista em episódio gravado ao vivo n’A Feira do Livro 2026
JULHO, 2026
