Repertório 451 MHz,

Cenas de São Paulo

Dois cronistas da vida paulistana, Fabrício Corsaletti e Ricardo Terto conversam sobre a relação da crônica com a rua e o cotidiano de São Paulo, que completa 472 anos

23jan2026

Está no ar o 180º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição, o programa reúne dois cronistas da vida na cidade de São Paulo, que completa 472 anos no domingo (25): Fabrício Corsaletti, autor de Um milhão de ruas: crônicas 2010-2015 (Editora 34, 2025), e Ricardo Terto, de Brincadeira sem futuro (Todavia, 2024). Na conversa, os convidados falam sobre a relação da crônica com a rua e o cotidiano. 

O encontro aconteceu durante A Feira do Livro 2025, em junho, e foi mediado pela escritora e professora Luana Chnaiderman. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.

Poeta premiado, Fabrício Corsaletti nasceu em Santo Anastácio, no interior paulista, em 1978. Aos 19 anos, mudou-se para a capital e cursou letras na Universidade de São Paulo. Estreou na poesia com Movediço (Labortexto Editorial, 2001) e venceu o Prêmio Jabuti 2023, na categoria Melhor Livro, com Engenheiro fantasma (Companhia das Letras). Um milhão de ruas, seu livro mais recente, é uma coletânea com mais de 190 crônicas e reúne versões revistas de Ela me dá capim e eu zurro (2014) e Perambule (2018), além de Bar Mastroianni, até então inédito.

“Cria da ZL”, a Zona Leste da capital paulista, Ricardo Terto nasceu e viveu na periferia de São Paulo até os 31 anos. Formado em produção audiovisual, é também roteirista e editor de áudio. Brincadeira sem futuro é seu quarto livro, publicado depois de Marmitas frias (Lamparina Luminosa, 2017) — reeditado pela Fósforo em 2025 —, O dia antes de nenhum (Patuá, 2019) e Quem é essa gente toda aqui?: Internet e acessibilidade no Brasil da pandemia (Todavia, 2020). 

Brincadeiras de rua

O bate-papo começa com os autores falando sobre os títulos de seus livros. Corsaletti conta que Um milhão de ruas foi inspirado no verso “um milhão de ruas sem saída” (“one million dead end streets”), da música “Changes”, de David Bowie. Para o escritor, a rua é “um pouco uma metáfora de ir de encontro ao outro, do alheio, do que não é você”.

Brincadeira sem futuro surgiu de uma expressão que costumava ser usada pelo pai de Terto. “Quando a gente ficava jogando tempo fora, brincando com coisas ali do quintal, ele falava que isso era uma brincadeira sem futuro porque não era uma coisa que era destinada ao trabalho ou ia te dar um retorno direto”, recorda.

Crônica e movimento

Os dois cronistas também compartilham no episódio sua visão sobre o gênero. 

Terto destaca a capacidade da crônica de “se intrometer na vida das pessoas”. Segundo ele, um bom texto no formato pode proporcionar uma imersão tão intensa que faz o leitor se desconectar do espaço e do tempo — se distraindo, por exemplo, ao ponto de deixar passar a parada de ônibus. “A distração é uma forma de autonomia”, afirma Terto.

Para Corsaletti, andar distraído é fundamental para o cronista. “Você pode se surpreender quando sai para a rua e passa a enxergar coisas que antes não via”, comenta.

Preconceito

Durante a conversa, os autores também falam sobre obstáculos que a crônica ainda enfrenta. Corsaletti afirma que o gênero precisa lidar com um “preconceito terrível” por parte de editores e exemplifica citando a escassez de novas edições de grandes cronistas como “Drummond, Clarice [Lispector], Cecília Meireles, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Carlinhos Oliveira, Rubem Braga, Antônio Maria, Nelson Rodrigues”, enumera.

Fabrício Corsaletti, Ricardo Terto e Luana Chnaiderman durante a A Feira do Livro 2025 (Flávio Florido)

“Eu acho que, se o Brasil fosse um país que se levasse mais a sério, esses cronistas seriam super bem-editados, em todas as boas editoras, sempre”, diz o escritor. Ao lembrar da quantidade de grandes autores brasileiros do gênero, Corsaletti ainda destaca que muitas crônicas deles alcançam “a mais alta qualidade”, aproximando-se do poema em prosa ou mesmo do conto, ainda que preservem as características próprias que definem a singularidade da crônica.

Terto concorda e conta uma história pessoal para ilustrar como a crônica pode ser erroneamente considerada um gênero literário menor. “Eu lembro que a primeira vez que eu comentei com uma pessoa que eu era cronista, uma pessoa da literatura, a pessoa falou assim: ‘ah, é um bom começo’”, brinca. “Acho que a crônica é um bom começo, um meio incrível e um final sensacional. Experimentem e cuidado com a próxima estação.”

Livros e afins

Veja os títulos que aparecem nesta edição do 451 MHz e outras leituras ou referências mencionadas pelos convidados durante a conversa:

  • “O ovo e a galinha”, conto de Clarice Lispector publicado em A legião estrangeira (1964)
  • Um milhão de ruas: crônicas 2010-2015, de Fabrício Corsaletti (Editora 34, 2025)
  • Brincadeira sem futuro, de José Falero (Todavia, 2024)
  • Marmitas frias, de Ricardo Terto (Fósforo, 2025)
  • Quem é essa gente toda aqui?: Internet e acessibilidade no Brasil da pandemia, de Ricardo Terto (Todavia, 2021)
  • Dias antes de nenhum, de Ricardo Terto (Patuá, 2019)

Mais na Quatro Cinco Um

Engenheiro fantasma, de Fabrício Corsaletti, foi resenhado em outubro de 2022 pelo poeta João Bandeira na revista dos livros. O texto analisa a “nova” escrita de Corsaletti, que utiliza formas poéticas tradicionais, porém com sua própria dicção. 

“Seus 56 sonetos, embora estritamente metrificados e rimados, conduzem em linguagem francamente coloquial o divagar narrativo de um sujeito que fala em primeira pessoa, ninguém menos do que Bob Dylan revelado em sonho ao nosso Autor, segundo diz o prólogo”. Leia a resenha na íntegra. 

Em 2023, Corsaletti esteve no 90º episódio do 451 MHz, numa conversa com a psicanalista Vera Iaconelli sobre a obra do cineasta Pedro Almodóvar — que inspirou a escrita de La ley del deseo y outras películas (Corsário-Satã, 2023), em que o autor dedica poemas para filmes do espanhol. Ouça aqui,

Ricardo Terto também já colaborou com a Quatro Cinco Um, com um ensaio sobre o escritor americano Chuck Palahniuk, autor de Clube da Luta. O texto foi publicado na edição #20 da revista, em março de 2019. “É melhor ser prudente ao categorizar um estilo literário como ‘caótico’: mesmo elástica, a escrita de ficção exige um certo grau de organização. Já que, felizmente, a literatura não se curva a cânones e regras, talvez seja mais adequado qualificar Chuck Palahniuk como um autor irresponsável — algo bem diferente de descompromissado”, escreveu Terto. Leia o texto completo. 

O melhor da literatura LGBTQIA+

O episódio traz uma dica literária do jornalista Márcio Bastos, autor de Pernalonga: uma sinfonia inacabada (Cepe, 2023). Ele indica Enverga, mas não quebra: Cintura Fina em Belo Horizonte (O Sexo da Palavra, 2020), de Luiz Morando, biografia de uma das precursoras da luta LBTQIA+ em Minas Gerais.

“Luiz complexifica a história de Cintura Fina a partir de resgates documentais, de entrevistas, insere também a importância de Cintura Fina na geografia da cidade, mostrando como os corpos dissidentes sempre foram tão essenciais, apesar de apagados, na história das cidades, dos estados do Brasil”, diz.

Leia mais dicas da seção O Melhor da Literatura LGBTQIA+.

O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Identidade sonora: Guilherme Granado e Mario Cappi
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]