Literatura,

Açougue do entretenimento

De conflitos raciais a autolobotomia, contos do autor de Clube da luta usam a violência para refletir sobre nossos pactos de não agressão

28fev2019 - 22h00 | Edição #20 Mar.2019

É melhor ser prudente ao categorizar um estilo literário como “caótico”: mesmo elástica, a escrita de ficção exige um certo grau de organização. Já que, felizmente, a literatura não se curva a cânones e regras, talvez seja mais adequado qualificar Chuck Palahniuk como um autor irresponsável — algo bem diferente de descompromissado.  

Invente alguma coisa — Histórias que você deve ler custe o que custar, seu livro de contos mais recente, revela uma preocupação em sair do ponto morto — sem, com isso, rejeitar seu estilo. Há um rompimento com o narrador monocórdio e iconoclasta que deu o tom de sua obra, mas a escatologia e o absurdo seguem presentes na maior parte das 23 narrativas.

Com tramas ambientadas em universos diversos, de centros urbanos americanos a mundos fantásticos comandados por animais, o livro, a princípio, parece não sugerir uma unidade.  “Eleanor” conta a história de um homem recém-instalado em uma mansão no interior da Califórnia, antiga locação de filmes pornográficos, que usa sua cadela para assustar os vizinhos latinos. “Canibal”, talvez o conto que cause mais desconforto, narra o evento traumático que torna o protagonista a figura mais desprezada de sua escola. 

Contudo, o título americano do livro, Make Something Up — Stories You Can’t Unread (Faça alguma coisa — Histórias que você não pode desler), sugere o tema que aglutina os contos: a nossa relação com a fatalidade. 

Constrangimento

Lembro quando vi num desses virais da internet um porco manuseando um pincel com a boca e criando traços de tinta numa tela. A chamada dizia: “Porco Pinta Quadros e É Salvo do Abate, Seu Novo Nome É Pigcasso”. Ao longo da discussão nos comentários, enquanto alguns debatiam se um porco poderia ou não produzir arte, um rapaz enfim reescreveu o título do vídeo: “Pintando quadros igual um doido tentando não ser comido”. O absurdo e o deboche: entre eles, a tragédia.

Estamos cercados de fatalidades, de coisas irrevogáveis. Somos propensos a desautorizar a inevitabilidade do que está por vir, mas não por meio de grandes rebeliões ou trabalhos colossais: mais plausível, talvez, sob a forma de modestas provocações, como pintar os fios brancos do cabelo, se exercitar regularmente ou adotar um gato quando a solidão apertar.   

Palahniuk rompe com o narrador monocórdio e iconoclasta que o celebrizou, mas segue escatológico

Embora o uso comum da palavra remeta à noção de mortalidade, a fatalidade em Invente alguma coisa é descascada conto a conto em representações, que geram, a princípio, o riso sórdido. Palahniuk apresenta um vasto repertório nesse sentido, quando somos hiena e carcaça. Essa ambiguidade é um dos elementos mais envolventes no livro, em que não fica clara a posição dos personagens diante de situações que vão de relacionamentos incendiários a autolobotomia na escola. Não é só humor autodepreciativo; não se trata de satirizar a precariedade do homem num século embrutecido pela dinâmica digital. Ela vem do constrangimento de ter um cérebro altamente desenvolvido que não dá conta de se ajeitar às próprias simulações.

Os personagens assumem sua catatonia, e o que se segue em geral acontece a partir dessa condição. É uma técnica interessante, uma vez que nos antecipamos à quebra de seus códigos morais não pelos elementos inseridos na trama, mas por parecer, de antemão, o decorrer lógico das circunstâncias. Coincidência ou não, considerando os contos protagonizados por animais em metáforas da sociedade humana, é inusitado pensar que ética e instinto poderiam fazer parte do mesmo conjunto, na mesma cesta de ideias que usamos para justificar nossos atos.

Lâmina

Podemos achar o caso de Pigcasso curioso, engraçado ou até mesmo sensível, mas Palahniuk talvez nos dissesse que poupamos um porco do abate porque ele nos pareceu divertido o bastante. Não inteligente a ponto de produzir arte, mas eficaz a ponto de tentar reproduzir algo que pareça humano. A começar pela fatalidade em si que é ter que produzir entretenimento mais potente que o abate. E se nossa esperança (ou angústia) for ser Pigcasso? Meio porco, meio gênio, tentando cobrir, em poucos gestos, a distância abissal entre ser bacon e ser mascote?

O que se nota na escrita de Palahniuk é essa provocação aberta em relação a nossos pactos de não agressão -— sejam afetivos, políticos ou comerciais —, que, paradoxalmente, validam uma violência específica. Quer dizer: ninguém tem culpa se os outros porcos não aprenderam a pintar. Um abate cancelado só é assunto se abates acontecem com regularidade; é como se fôssemos amputados e, ao mesmo tempo, nos esforçássemos ao máximo para não reparar nos membros amputados dos outros.

E a literatura parece nos convidar a ver e reparar, se possível tocar em todas as amputações, pois elas são tão nossas quanto qualquer outra coisa. A amputação enquanto normalidade, ou o esforço para sustentá-la como propósito, é o que, afinal, seria um ato de violência.

A obra não se resume a investidas contra a hipocrisia. Busca-se a cumplicidade do leitor, ou certa nota melancólica, uma beleza bruta com a qual não negociamos. Em nenhum momento, porém, a banalidade mórbida.

Mesmo que o escritor tenha ganhado um status de popstar cult, com direito a souvenires e tudo o mais, o leitor perde muito se o contato com esse livro for puramente viral, preguiçoso como a busca de referências ocultas em filmes de super-herói. Quando Chuck Palahniuk corta, a lâmina é tão precisa, e o gesto, tão técnico, que o sangue só jorra algumas páginas depois. Isso é puro comprometimento. Isso é escrever algo. Mas o que flui para fora de súbito, descontrolado, é o que não se pode desler. 

Quem escreveu esse texto

Ricardo Terto

Escritor e roteirista, é autor de Marmitas frias (Lamparina Luminosa).

Matéria publicada na edição impressa #20 Mar.2019 em fevereiro de 2019.