Repertório 451 MHz,
Achille Mbembe, além da necropolítica
Rosane Borges fala sobre o pensamento do filósofo camaronês, que descentraliza o debate sobre o colapso ambiental e imagina uma nova consciência planetária
14nov2025Está no ar o 172º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Nesta edição, o novo livro do filósofo camaronês Achille Mbembe, A comunidade terrestre (n-1 Edições), é comentado pela jornalista, professora e doutora em comunicação Rosane Borges. Especialista na obra de Mbembe, Borges aborda os imperativos do pensamento do autor de Necropolítica (n-1 Edições, 2018). Um dos pensadores mais influentes da atualidade, Mbembe parte, em seu novo trabalho, das perspectivas africanas e de uma crítica ao universalismo eurocêntrico para imaginar um “comum” em um planeta devastado por desigualdades, racismo e colapso ambiental.
A comunidade terrestre, que chega ao Brasil em tradução de Sebastião Nascimento, conclui uma trilogia iniciada com Políticas da inimizade (2021) e Brutalismo (2022). Para Borges, o novo ensaio irradia a voz coletiva do sul global e dos grupos minoritários que avisam, há muito tempo, sobre as catástrofes que acometem o mundo hoje. Este episódio faz parte do especial da Quatro Cinco Um sobre livros de autores do Atlântico negro francófono lançados no Brasil em 2025 e teve apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais e da Embaixada da França.
Autora do também recém-lançado Imaginários emergentes e mulheres negras: representação, visibilidade e formas de gestar o impossível (Instante, 2025), Rosane Borges avalia que Achille Mbembe enfrenta, em seu novo trabalho, o desafio do tempo em que vive: pensar a política a partir da biosfera e das questões que nos ameaçam enquanto humanidade. Contudo, essa urgência não tem nada de novo, como o autor indica, em resposta a outros pensadores do Antropoceno — a época geológica caracterizada pelos impactos da humanidade no meio ambiente.
Borges explica, em um paralelo com o seu livro, que as consequências da exploração ambiental discutidas hoje foram sentidas primeiramente pelos ”habitantes da borda do mundo”, ela diz, mobilizando uma imagem do escritor norte-americano Kurt Vonnegut: “Os habitantes e as habitantes da borda do mundo veem coisas inimagináveis, veem as catástrofes corroendo as beiradas, simplesmente porque são habitantes da borda”, parafraseia. Em outras palavras, os mais afetados pelas transformações climáticas são os “condenados da terra”, na terminologia usada pelo filósofo e psiquiatra martinicano Frantz Fanon — pensador de quem Mbembe é um herdeiro direto, na avaliação de Borges.
Como um pensador africano e diaspórico, que emigrou da África, Mbembe saberia qual é a herança de quem nunca usufruiu dos ideais da modernidade de igualdade e liberdade. “Esse mundo sempre foi um antimundo para a gente. O mundo nunca foi algo edulcorado, a modernidade euro-ocidental, os princípios do individualismo, da emancipação, da universalidade em si, nunca chegaram até a gente”, diz Borges. Por extensão, os avisos dos povos originários, das mulheres negras, do Sul Global, de que, para a sobrevivência de todos nós, o extrativismo não poderia mais ser predatório, não foram escutados ou legitimados pela comunidade mundial, aponta.
Universalismo e humanismo
O problema que se coloca é a possibilidade de uma comunidade terrestre, necessária para enfrentar o colapso planetário, após a falência dos ideais de humanismo e universalidade. Em seus títulos anteriores, Mbembe faz uma crítica à Europa, aponta Borges, dizendo que o Velho Continente deixou de ser o epicentro do mundo e que seu estatuto é de província. “A Europa é tão provinciana quanto qualquer aldeia indígena ou qualquer tribo africana. Como é que essa província se tornou universal? Essa é a grande questão”, enfatiza a pesquisadora.
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O movimento intelectual proposto por Mbembe parte da constatação da limitação dos termos iluministas para um resgate do humanismo, observa Borges. A partir de textos de Mbembe, como “A era do humanismo está terminando”, ela interpreta que “não se trata de um abandono do termo, mas se trata de resgatá-lo”. Ao defender o humanismo, Mbembe demonstra o que já se fez em nome dele: pessoas negras foram escravizadas e consideradas não humanas, por exemplo.
Ao mesmo tempo, Mbembe aponta que “são nos marcos do humanismo e da humanidade que a gente pode reverter a situação e construir uma comunidade terrestre que caibam a todos.” Na prática, ”fazer com que o conceito alcance de fato a realidade e que não seja uma fratura”, explica a pesquisadora. Ao reelaborar uma certa ideia de universalismo, Mbembe também parece responder às críticas de que os pensadores do Sul Global seriam identitários: “Todo mundo carrega o germe da universalidade”, diz Borges.
“Cada aldeia, cada quintal, comporta o mundo. Então, para mim, a ideia de universal só é legítima quando a gente pensa em pluriversais, ou seja, a minha aldeia comporta o mundo, portanto, a minha aldeia também é universal, nesse sentido. Uma comunidade indígena do Acre carrega a potência da universalidade, porque aquele lugar específico comporta a todos, a essa comunidade terrestre”, explica a professora. “Acho que o Achille Mbembe nos oferece ferramentas para a gente pensar em termos de um comum, de um pluriverso ou de um universalismo, pensando nessa comunidade terrestre, essa grande casa que nos abriga, e respeitando esses pluriversos.”
Realizar o comum
O que é preciso, em termos éticos e políticos, para alcançarmos esse comum possível? Borges, que, em seu novo livro, apresenta uma reflexão, propostas e um roteiro de ação para a luta das mulheres negras brasileiras e diaspóricas, traz a discussão para perto do cotidiano e da política nacional: “Por que nós estamos fora das chamadas ‘esferas de poder’, dos superministérios? Porque nós não habitamos esse campo do comum”.
A pesquisadora aponta que grupos ditos minoritários são inseridos no campo do comum como “sujeitos faltantes”. “Com o sujeito faltante, você não estabelece interlocução, você ajuda, você estabelece uma política para ela ser beneficiária dessa ação de inclusão”, observa. Ainda que as recentes políticas públicas voltadas para pessoas não brancas tenham sido bem-sucedidas, elas são parte de um contexto muito maior, que requer atenção e mudanças: “Para a gente pensar política, a gente deve considerar o comum e as pessoas que participam desse comum. Um comum supõe interlocução entre iguais. O comum supõe que eu tomo essa mulher que é faltante, mas como uma interlocutora para pensar economia”.
Estilo e engajamento
É comum que livros sobre a crise climática provoquem uma sensação de desesperança nos leitores. Na visão de Borges, contudo, Mbembe não é um pessimista. Sua filosofia estaria mais próxima das ideias do pensador italiano Antonio Gramsci, que dizia que é preciso ser pessimista na análise e otimista na ação. “A comunidade terrestre é um livro que contorna, que cerca a desgraça, a miséria do mundo, mas ao mesmo tempo sinaliza para as possibilidades de a gente validar outro mundo”, afirma.
Esses outros mundos possíveis, com outras formas de viver e reparar os desafios do Antropoceno, já estão entre nós, na opinião de Borges: “Não se trata de a gente sonhar um outro mundo, os outros mundos já existem, eles só não foram validados. Mundos que foram gestados pelas comunidades quilombolas… a gente só precisa validar”.
Livros do episódio
Veja os títulos que aparecem nesta edição do 451 MHz e outras leituras ou referências mencionadas pelos convidados durante a conversa:
- A comunidade terrestre, de Achille Mbembe (n-1 Edições, 2025)
- Necropolítica, de Achille Mbembe (n-1 Edições, 2018)
- Crítica da razão negra, de Achille Mbembe (n-1 Edições, 2019)
- Políticas da inimizade, de Achille Mbembe (n-1 Edições, 2021)
- Brutalismo, de Achille Mbembe (n-1 Edições, 2022)
- Imaginários emergentes e mulheres negras: representação, visibilidade e formas de gestar o impossível, de Rosane Borges (Instante, 2025)
- Os condenados da terra, de Frantz Fanon (Zahar, 2022)
- A partilha do sensível: estética e política, de Jacques Rancière (Editora 34, 2009)
- O ódio à democracia, de Jacques Rancière (Boitempo, 2014)
Mais na Quatro Cinco Um
A comunidade terrestre foi resenhado por Caio Paz na edição deste mês da revista dos livros. Em A derradeira utopia, o professor aposta na expressão “comunidade-de-vida” como chave de leitura para o ensaio de Mbembe. “Permite pensar a comunidade como um laço feito a partir da vida — que é, ao mesmo tempo, uma coisa devida e uma espécie de dívida”, escreve Paz. Leia o texto na íntegra.
O melhor da literatura LGBTQIA+
O episódio traz ainda uma dica literária da dramaturga Fernanda Maia, autora da peça Brenda Lee e o palácio das princesas (Ercolano, 2024). Ela indica o livro Brenda Lee: memórias entrelaçadas da Aids (Politeia, 2021), de Ubirajara Caputo.
“Nesta biografia de Brenda Lee, militante transexual brasileira pelos direitos LGBTQIA+, o autor, que trabalhou no chamado ‘Palácio das Princesas’, a primeira casa de apoio para pessoas com HIV/Aids do país nos anos 1980, mistura as memórias dele com relação à Aids com o que ele testemunhou do trabalho da Brenda Lee e o legado dela. É uma leitura muito tocante, bonita, que eu recomendo para todo mundo”, diz Fernanda Maia.
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O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Apoio: Ministério da Cultura
Para falar com a equipe: [email protected]
Especial Atlântico Negro Francófono
Especial sobre livros de autores do Atlântico Negro Francófono lançados no Brasil em 2025 realizado com o apoio da Embaixada da França.
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