Repertório 451 MHz,
40 anos de poesia
Edimilson de Almeida Pereira conversa com Bruna Beber sobre sua nova antologia, a importância de escutar o mundo para escrever poemas e a escrita poética para crianças
31out2025 • Atualizado em: 01jul2026Está no ar o 170º episódio do 451 MHz, o podcast dos livros. Neste programa, o poeta Edimilson de Almeida Pereira conversa com a também poeta Bruna Beber, colunista do podcast, sobre suas quatro décadas de trajetória literária, completadas este ano e celebradas com o lançamento da antologia Poesia & Agora (Mazza).
Autor de uma obra vasta e premiada, ele reflete sobre a influência do tempo em sua produção poética, o ofício da escrita e a sua relação com a palavra — da infância marcada pela oralidade no interior de Minas Gerais até sua poesia hoje, que continua a nascer de uma escuta atenta do mundo. O episódio foi realizado com o apoio da Lei Rouanet – Incentivo a Projetos Culturais.
Também ensaísta e romancista, Edimilson de Almeida Pereira é professor na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), cidade onde nasceu. Além de títulos para o público adulto, ele é autor de livros de literatura infantojuvenil e, na não ficção, publicou diversos ensaios sobre cultura popular, antropologia e etnografia.
Em 2025, grande parte de sua produção poética foi reunida na coletânea Poesia & Agora, que reúne 28 livros lançados por ele entre 1985 e 2017. A antologia inclui obras do início da carreira do mineiro que estavam fora de catálogo há décadas, como Dormundo (1985) e O homem da orelha furada (1995). Pereira também acaba de lançar o livro de poesias para crianças Coisa sim, coisa não, pela editora FTD.
Ele começa a conversa falando de como se sente ao ver completos quarenta anos desde que publicou seu primeiro livro de poesia. “A gente se dá conta de que o tempo passa realmente num sopro, muito rapidamente. Confesso que nas minhas elucubrações mais íntimas, eu continuo lá nos 22 anos [idade que tinha quando lançou Dormundo]. Parece que foi ontem”, diz.
Para o poeta, refletir sobre sua trajetória o ajudou a pensar em como a própria humanidade se relaciona com o tempo. “São sensações muito interessantes, que acabam extrapolando até a experiência individual para nos permitir pensar o que é, no fundo, a experiência de todos nós, seres humanos, em relação ao tempo. Nós o controlamos tanto, nós temos tanta preocupação que ele não escorra rapidamente, mas, ao fim e ao cabo, é ele quem comanda tudo, e ele que dá as direções para as nossas experiências.”
Oficina da palavra
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Ao longo de sua trajetória, Edimilson conta que foi aperfeiçoando o que chama de sua “oficina de trabalho”. A escrita, para ele, é uma forma de orquestrar a língua. “É preciso fazer uma orquestração para que as palavras ganhem diante de nós densidade, profundidade, espessura, sonoridade”, explica.
A palavra, diz ele, não tem apenas uma natureza social, à espera de ser capturada. “Ela precisa vir para algum lugar do sujeito — e nesse caso esse sujeito é o poeta.” Pereira explica que sua “oficina” da palavra envolve três práticas fundamentais para ele: leitura contínua, escuta do mundo e um sujeito ficcional.
Paciente e detalhista, o autor se descreve como um leitor que “avança uma página quando poderia avançar dez” pois anota, comenta e reconstrói os textos à margem, numa tentativa de apreender as técnicas de outros escritores. “Eu sou um leitor não voraz, não sou um leitor acelerado, muito pelo contrário. Sou um leitor até indisciplinado, lento, mas tenho o hábito de anotar muito minuciosamente as leituras que vou fazendo”, diz.
Sobre a estratégia de estar atento ao mundo para escrever, o poeta explica que prefere assumir uma postura de falar menos para conseguir capturar “as representações do mundo que as pessoas fazem com a palavra”, “desde os assuntos mais complexos até os assuntos mais simplórios, mais imediatos”, afirma.
“Há, por exemplo, uma técnica que eu uso muitas vezes, que está espalhada em vários dos textos, principalmente nos de poesia, que são frações inteiras de termos que escuto das pessoas nas ruas e eu desloco depois para os poemas.”
Para organizar o resultado da escuta constante, o poeta diz que seu “eu biográfico” seria pouco competente e, por isso, recorre a uma persona literária. “O eu com a minha história pessoal não daria conta de fazer isso”, diz. “Eu penso que quem orquestra isso é um sujeito ficcional, é um sujeito autoral ficcionalizado, porque aí ele vai ter condição e liberdade para fazer certos movimentos que eu talvez biograficamente não conseguisse fazer, ou não tivesse tanta liberdade para fazer.”
Ele ainda conta que, hoje, tem certeza de que quem escreve seus textos são várias personas. “Esses sujeitos é que, na verdade, vão cortar a palavra, limar, encurtar, estender, buscar essa densidade escondida dela, acentuar as camadas de significado.”
Palavras na infância
No episódio, Edimilson também lembra de seus primeiros contatos com a palavra — falada e cantada — no bairro onde cresceu em Juiz de Fora. A vizinhança, ele diz, era marcada por festas populares e músicas na rua. “Me lembro até hoje do amolador de facas quando passava, ele cantava que amola a faca para que a gente não tivesse amolação na vida”, conta.
O rádio também teve um papel central nessa fase: as noites em família eram dedicadas a ouvir programas de histórias do folclore brasileiro. “Minha conexão com a palavra oral vem muito dessa experiência de infância”, diz o poeta, que mais tarde reencontraria essa tradição no trabalho de campo de sua pesquisa acadêmica pelo interior mineiro.
Ele ainda recorda que, ao entrar na escola por volta dos sete anos, a transição da oralidade para a escrita não foi fácil. “As primeiras aproximações com a palavra escrita foram complicadas”, diz. “Eu vinha de um mundo totalmente da oralização.” Filho de dois extremos — um pai de escrita sofisticada, que estudou caligrafia, e uma mãe que não gostava de exibir sua escrita por causa de sua “letra feia” — o pequeno Edimilson inicialmente se via intimidado pela página. “Posso dizer que com a palavra oral a experiência foi lúdica, e com a escrita foi um pouco traumatizante.”
Isso começou a mudar na própria escola, ao se deparar com o poema “O pardalzinho”, de Manuel Bandeira. Foi quando a poesia o fisgou. “Esse poema foi meu ponto de inflexão”, conta. O texto, acompanhando de belas ilustrações, o encantou pela forma e pela força dramática. “A partir dali, meu interesse profundo pela organização da palavra pensada, falada e escrita me acompanhou para a vida toda.”
Escrever para crianças
“Eu sempre escrevi para a infância”, diz o autor de treze livros dedicados ao público infantojuvenil. Para ele, as técnicas da poesia adulta e da infantil são as mesmas, o que muda é o imaginário. “A criança tem uma capacidade de transfiguração do imaginário em imagem muito grande, e é preciso não tolher isso. Os meus textos vão sempre na tentativa de incentivar essa prática”, afirma o poeta.
Escrever para crianças, segundo Pereira, exige que o autor se “transmigre”. “O sujeito que está escrevendo tem que se transmigrar no autor que entra nesse mundo imaginário da infância. Ele pode ter oitenta anos, mas vai ter que escrever com a perspectiva de quem tem dez ou doze.”
Livros do episódio
Veja os títulos que aparecem nesta edição do 451 MHz e outras leituras ou referências mencionadas pelos convidados durante a conversa:
- Dormundo, de Edimilson de Almeida Pereira (1985)
- O homem da orelha furada, de Edimilson de Almeida Pereira (1995)
- Saliva da fala, de Edimilson de Almeida Pereira (Fósforo, 2023)
- Guelras, de Edimilson de Almeida Pereira (Mazza Edições, 2016)
- Menino de caracóis na cabeça, de Edimilson de Almeida Pereira (Paulinas)
- O congado para crianças, de Edimilson de Almeida Pereira (Mazza Edições, 2016)
- A nora e outros não bichos, de Edimilson de Almeida Pereira (Mazza Edições, 2012)
- O primeiro menino, de Edimilson de Almeida Pereira (Mazza Edições, 2013)
- Olho vivo, olho mágico, de Edimilson de Almeida Pereira (FTD, 2025)
- Coisa sim, coisa não, de Edimilson de Almeida Pereira (FTD, 2025)
- Uma encarnação encarnada em mim, de Bruna Beber (José Olympio, 2022)
Mais na Quatro Cinco Um
Coisa sim, coisa não, de Edimilson de Almeida Pereira, foi resenhado pela historiadora e poeta Nina Rizzi na edição #98 da Quatro Cinco Um, publicada em outubro. O livro é um dos destaques do tradicional especial de literatura infanto juvenil da revista, que este ano fala sobre poesia para crianças. Leia na íntegra.
Em junho deste ano, o poeta participou de duas mesas d’A Feira do Livro. Numa, falou sobre a poesia para crianças e, na outra, sobre seus quarenta anos de trajetória na literatura. “Aprendi a ler poemas que não gosto, poetas que não aprecio”, disse Pereira. Leia mais aqui.
O melhor da literatura LGBTQIA+
O episódio traz ainda uma dica literária da jornalista e mediadora de clubes de leitura Beth Leites, uma das criadoras do clube de leitura Rolê dos Livros, em São Paulo. Ela indica o romance Inacabada, da escritora chilena Ariel Florencia Richards, lançado em 2024 pelo selo Poente, da editora WMF Martins Fontes, com tradução de Maria Cecilia Brandi.
“Tem muita dor e tem muita beleza nesse livro. É um romance sobre um percurso e não sobre um ponto de chegada. É um caminho que ela está trilhando e que faz a gente também se perguntar em que momento a gente está acabado, em que momento da vida a gente termina o nosso processo. É um livro muito bonito”, recomenda Leites.
O 451 MHz é uma produção da Associação Quatro Cinco Um.
Apresentação: Paulo Werneck
Colunista mensal: Bruna Beber
Produção: Beatriz Souza e Mariana Franco
Edição e mixagem: Fabio Teixeira
Identidade visual: Quatro Cinco Um
Para falar com a equipe: [email protected]
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