Quatro Cinco Um,

Narrador feroz

Em formato narrativo, episódio especial do podcast 451 MHz investiga o universo ficcional de Rubem Fonseca, morto há um ano

01mar2021 - 00h06 | Edição #43

Alguns meses depois da morte, em abril de 2020, do escritor Rubem Fonseca, a jornalista Bia Corrêa do Lago começou a vasculhar o apartamento no Leblon onde o pai viveu por quatro décadas. Encontrou, em um armário embutido, uma infinidade de papéis — recibos antigos, cartas, manuscritos. Em outras palavras, uma das mais preciosas caixas-pretas da literatura brasileira. “Eu achava que ele não guardava nada, que não tinha um papel manuscrito. Ele brincava: ‘Não sei nem escrever à mão’”, diz a filha. “Se nem eu conhecia, imagina os outros.”

Bia e seu irmão, o diretor de TV e cinema José Henrique Fonseca, participam de um episódio especial, em formato narrativo, do 451 MHz, que será publicado no dia 12 de março, no site da revista, no YouTube e nos tocadores de podcasts. O episódio é o primeiro de uma coleção de programas roteirizados que vão explorar a vida e a obra de nossos grandes autores.  

“O Rubem Fonseca é fundamental, e a gente ainda estava devendo uma justa homenagem a ele neste ano que marca o primeiro aniversário de sua morte”, diz Paulo Werneck, diretor de redação da Quatro Cinco Um e apresentador do podcast. “Publicamos, no calor da hora, um belo texto do Walter Salles que fala da relação dele com o cinema, mas era preciso contar mais a sua vida, repassar os livros e momentos-chave, entender por que foi tão influente, por que tantos escritores continuam a pagar sua dívida com ele.”

Trama

José Rubem Fonseca nasceu em Juiz de Fora (MG), em 1925, em uma família de classe média, de imigrantes portugueses. Depois de perderem tudo, eles se mudaram, quando o autor tinha oito anos, para o centro do Rio de Janeiro. A cidade viraria palco de frequentes caminhadas e cenário de quase todas as suas histórias. 

Antes de estrear em livro, em 1963, com os contos de Os prisioneiros, no então desprestigiado gênero policial e por uma editora obscura, advogou para pequenos contraventores, foi comissário de polícia em delegacias de subúrbio e estudou em Nova York.

A narrativa sonora da vida e da obra do autor é feita em um trabalho de “tecelagem”, nas palavras de Paula Scarpin, diretora de criação da Rádio Novelo, start-up de podcasts e produtora do episódio. Trechos de entrevistas e da obra, sons captados na rua, pessoas falando, tudo muito costurado.

O programa procura cercar a vida e obra do escritor por diferentes lados. A família ajudou a decifrar sua personalidade, extremamente reservada dos olhos do público. Amigos de vida inteira trouxeram lembranças do início de carreira, do dia a dia e de momentos difíceis, como a censura a um de seus livros. Autores contemporâneos falam sobre as marcas de Fonseca em sua vida como leitores e autores. 

No episódio, a narrativa da vida e da obra do autor é feita com um trabalho de ‘tecelagem’

O jornalista Sérgio Augusto, com quem Fonseca ia ao cinema nos anos 1960, conta que o autor chegou à literatura “como um terremoto”. O jornalista Zuenir Ventura, que andava de bicicleta com Fonseca pelo Leblon — e volta e meia era confundido com ele —, refere-se ao amigo como “uma pessoa delicadíssima pessoalmente, generosa, amorosa, engraçada, moleque”. Entre os escritores contemporâneos entrevistados, representantes de diferentes gerações pagam sua dívida com Fonseca: Marçal Aquino, Marcelo Rubens Paiva, Veronica Stigger e Jeferson Tenório. Por áudio de WhatsApp, o carioca J. P. Cuenca afirmou: “Considero profético o primeiro livro dele se chamar Os prisioneiros. Porque todos nós somos prisioneiros do Rubem Fonseca, até os que nunca o leram”. 

Trechos de obras são lidos por Marcos Palmeira, que afirma que o escritor faz parte de sua vida. “Foi muito bom poder revisitar os textos do Rubem Fonseca, ir ao cerne dessa revolta, dessa implosão de sentimentos”, diz Palmeira, que viveu o advogado criminalista Mandrake ­— “um dos personagens mais incríveis que já fiz” — nas telas. “Você juntar a literatura com audiovisual, acho que a gente foi bem feliz. Ah, eu poderia falar por horas. A literatura brasileira tem esse grande nome aí que é Rubem Fonseca.”

Sonoridade

A partir do conto “A arte de andar nas ruas do Rio de Janeiro”, o roteirista do episódio, Vitor Hugo Brandalise, coordenador do 451 MHz na Rádio Novelo, criou no Google Maps um mapa com pontos marcantes para guiar a captação de áudio: freadas de ônibus, restaurante cheio, cinema pornô. O mapa “serve como um roteiro sentimental do Rubem Fonseca, um mergulho na sua cabeça”, afirma Brandalise. 

Tantas vezes apontado como um autor cinematográfico, Fonseca tem uma nova dimensão de sua obra explorada no podcast: a sonoridade. “O episódio pedia que tivesse os sons do Rio”, explica o roteirista. Ainda mais tendo na equipe a editora Claudia Holanda, responsável pela captação externa do episódio. Ela registra, em seu projeto pessoal, Sons do Porto, uma cartografia sonora das transformações na região portuária. “O ambiente do Rio é bastante retratado na obra; o Rubem Fonseca, desde a infância, percorria essa área do Centro, e a gente tinha na equipe a pessoa ideal para fazer esse trabalho.” 

Em alusão ao conto “O cobrador”, de 1979, Holanda abordou passantes no Centro fazendo a pergunta: “O que estão te devendo?”. As respostas vêm de figuras que poderiam estar nos livros de Fonseca, pessoas que ganham a vida na rua — guardadores de carros, camelôs, engraxates, um homem-placa. Personagens “absolutamente fonsequianos”, como diz Brandalise. “É justamente o que o Cobrador falava, quarenta anos depois. As pessoas ainda cobram a sociedade brasileira. Isso reforça o caráter profético do Rubem Fonseca.” Werneck concorda: “O podcast mostra como a obra dele prefigurou cenas terríveis que hoje são banais em nosso país. Dá até um mal-estar”.

Na coleção de episódios roteirizados Narradores do Brasil, o 451 MHz faz breves incursões no formato narrativo. Em 2020, a revista publicou o podcast narrativo Vinte Mil Léguas, que percorre as trilhas literárias e científicas de Darwin em A origem das espécies, com direção de Fernanda Diamant e roteiro e apresentação de Leda Cartum e Sofia Nestrovski. Segundo a plataforma Libsyn, os podcasts da Quatro Cinco Um somam mais de 500 mil downloads desde julho de 2019.

Produzido pela Rádio Novelo, o 451 MHz é realizado pela Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos que publica a revista, com apoio da audiência. Por R$ 20 mensais, os assinantes do plano Ouvinte Entusiasta dão uma força extra aos podcasts da revista e em troca têm acesso digital completo e benefícios especiais. O episódio também tem apoio da editora Nova Fronteira, do grupo Ediouro, que publica as obras do escritor sob a coordenação de Sérgio Augusto.     

Matéria publicada na edição impressa #43 em fevereiro de 2021.