Mercado editorial,

Curador do Jabuti questiona mortes por Covid e gera indignação entre escritores

Declaração foi publicada na página pessoal de Pedro Almeida, que é editor da Faro

24maio2020 - 15h31

O presidente do conselho curador do Prêmio Jabuti, a mais tradicional distinção editorial brasileira, gerou indignação entre editores, escritores e profissionais do livro após publicar, em sua página pessoal no Facebook, na tarde de sábado (23), opiniões contrárias ao consenso científico em torno da letalidade da Covid-19 e à necessidade de isolamento social.

"Alguém está mentindo para você", diz a postagem do editor, que afirma ter verificado os dados totais por mortalidade dos meses de abril e maio de 2019 e 2020. Segundo ele, no ano passado as mortes foram mais numerosas, tanto no cômputo geral por todas as causas quanto por doenças respiratórias. "Não há um dado claro que indique a necessidade de parar o país ferrar com a economia por uma mortandade de pessoas, porque não há esse aumento de óbitos."

O isolamento social tem se mostrado em diversos países como a medida mais eficaz de combate ao coronavírus, combinada à testagem em massa, à adequação dos sistemas de saúde e à obediência às orientações das autoridades sanitárias. Países como a Itália, que tentaram reabrir a economia de forma precipitada, viram-se obrigados a fechar novamente e de forma mais drástica após verificar aumento no número de casos e mortes. Os dados oficiais relativos a mortes por Covid-19 vêm sendo verificados por jornalistas, e mesmo quando são imprecisos eles não levam à conclusão de que o isolamento social deva ser abandonado.

A postagem começou a repercutir negativamente entre os seguidores do curador, muitos deles profissionais do mercado editorial. O escritor Ricardo Lísias publicou uma carta aberta à Câmara Brasileira do Livro (CBL). Após as primeiras reações, Almeida restringiu o acesso à postagem na rede social, alegando "patrulha e grosserias", e acusou autores que teriam sido recusados em sua editora de "partir para a difamação".

Um grupo de escritores, muitos deles vencedores do prêmio Jabuti, publicou uma petição pública em protesto à postagem de Almeida, questionando sua legitimidade para conduzir a premiação. Entre os primeiros signatários, estão a escritora Nélida Piñon, o jornalista Juca Kfouri, a historiadora e editora Lilia Schwarcz, a editora e escritora Simone Paulino, o escritor Ricardo Ramos Filho, o curador do festival de Araxá Afonso Borges e o escritor Marcelino Freire. Muitos deles ostentam a estatueta (ou várias delas) em suas estantes. 

A União Brasileira de Escritores — UBE divulgou uma nota de repúdio. Sem citar diretamente a postagem de Almeida, a Libre — Ligue Brasileira de Editores Independentes publicou em sua página no Instagram uma nota de solidariedade às vítimas da pandemia e de apoio à ciência e às medidas de isolamento social: "Como entidade defensora da bibliodiversidade, dos direitos humanos e da vida, repudiamos qualquer declaração, oficial ou não, de membros da cadeia do livro que vise a minimizar as mortes e as perdas que a humanidade tem tido desde dezembro de 2019".

Outro lado

Procurado pela reportagem, o curador Pedro Almeida declarou que aguarda um posicionamento da CBL — Câmara Brasileira do Livro, que organiza o Prêmio Jabuti, para se manifestar.

As inscrições para a 62a. edição do Prêmio Jabuti se encerram às 18h de sexta (29). O prazo para inscrever os lançamentos de 2019, que concorrem às categorias da edição 2020, foi prorrogado após questionamento do grupo de editores Juntos Pelo Livro, que também pediu redução na taxa de inscrição e modificações na cerimônia de premiação. A redução nos preços não foi atendida pela Câmara Brasileira do Livro, que alegou já ter recebido inscrições pelo valor inicialmemente fixado pelo Regulamento, mas o prazo de inscrição foi alterado. 

O conselho de curadores presidido que Pedro Almeida preside desde 2019 faz parte de um esforço recente, iniciado pelo antigo curador Luiz Armando Bagolin, para renovar o formato do Jabuti, que busca se reinventar combinando o peso da tradição, as demandas do mercado editorial e as novas tendências do debate cultural. As 20 categorias foram distribuídas em quatro eixos — Literatura (livros de ficção), Ensaios (não ficção), Livro (capa, tradução, projeto gráfico e ilustração) e Inovação.

Os vencedores em cada categoria foram reduzidos de três para um, com premiação de R$ 5 mil em cada categoria, e passaram a concorrer entre si ao prêmio de Livro do Ano, no valor bruto de R$ 100 mil. Em 2019, foi escolhido como Livro do Ano Uma história da desigualdade: A concentração de renda entre os ricos no Brasil — 1926-2013 (Hucitec), de Pedro H. G. Ferreira de Souza.

A edição 2020 dividiu a tradicional categoria Romance em duas: Romance Literário e Romance de Entretenimento, para premiar a ficção comercial, que vem ganhando importância no mercado e se ressente de falta de reconhecimento crítico.  

Íntegra do manifesto dos escritores

Leia abaixo a íntegra do manifesto de escritores brasileiros contra as declarações de Pedro Almeida.

Manifesto contra o obscurantismo no Prêmio Jabuti

Nós, escritores, editores, jornalistas e profissionais do livro abaixo-assinados, manifestamos nossa indignação com as declarações do presidente do conselho curador do Prêmio Jabuti, Pedro Almeida, publicadas no domingo 24 de maio em sua página no Facebook, que negam os riscos relacionados à Covid-19 e questionam a gravidade da doença e a mortalidade por ela provocada, além de colocar em dúvida a necessidade do isolamento social para debelar a crise.

Mais importante prêmio literário brasileiro, o Prêmio Jabuti é um patrimônio cultural e científico de todos os intelectuais e profissionais do livro do país e tem um compromisso inegociável com a ciência, a responsabilidade social e o combate à disseminação de notícias falsas.

O posicionamento de Pedro Almeida é incompatível com a responsabilidade do curador de um prêmio que celebra a produção científica brasileira, bem como a obra de escritoras e escritores que hoje se encontram vulneráveis à Covid-19. Além de irresponsáveis, tais palavras desonram nomes como o do escritor Sérgio Sant'Anna, vencedor do Jabuti, que morreu de Covid-19, bem como do cronista Aldir Blanc, do tradutor Fernando Py, da tradutora Olga Savary e de outros grandes intelectuais brasileiros cuja memória as declarações de Pedro Almeida desrespeitam.

Nós, abaixo-assinados, entre os quais há muitos vencedores do Prêmio Jabuti, o declaramos moralmente desautorizado para o cargo e aguardamos uma resposta imediata da Câmara Brasileira do Livro. 

Nota da União Brasileira de Escritores

NOTA DE REPÚDIO

No momento em que o Brasil é um dos recordistas de infectados e de mortes e uma franca referência negativa no mundo, o Sr. Pedro de Almeida, editor e curador do Prêmio Jabuti, engrossa o caldo dos negacionistas com declarações inconsequentes que comprometem o combate à pandemia que assola o planeta e aprofundam a sua gravidade. A União Brasileira dos Escritores (UBE), por meio de sua diretoria, repudia essas declarações, solidariza-se com amigos e familiares de mortos e doentes, em especial de escritores falecidos, e reafirma seu compromisso com a Ciência e com as normas internacionais de combate ao coronavírus. Esperamos que a CBL cumpra com seu compromisso com a sociedade e se manifeste.

Nota da Libre — Liga Brasileira de Editores Independentes

A Libre — Liga Brasileira de Editores Independentes, entidade com 150 associados e afiliada à Aliança Internacional de Editores Independentes, se solidariza e apoia as pessoas em recuperação e as famílias de todos os mortos em virtudes do Covid-19. Confiamos na ciência e em seus profissionais que trabalham na linha de frente do tratamento e da pesquisa, estes sim nos municiando de dados e informações relevantes para conter a pandemia.

O mundo vem perdendo familiares e amigos. Nosso mercado já perdeu muitos autores e profissionais para esta tragédia, além de tantas outras perdas que têm nos afetado diariamente. É por isso que, como entidade defensora da bibliodiversidade, dos direitos humanos e da vida, repudiamos qualquer declaração, oficial ou não, de membros da cadeia do livro que vise a minimizar as mortes e as perdas que a humanidade tem tido desde dezembro de 2019.

Nota do editor. Texto atualizado em 25 de maio às 9h