Listão da Semana,

Violência policial no Brasil e mais 7 lançamentos

Em ‘Justiça e letalidade policial’, a pesquisadora Poliana da Silva Ferreira versa sobre a (falta de) responsabilização por mortes em decorrência de abordagens policiais

10ago2021 - 14h31 | Edição #48

6.416. Eis o total de mortes em decorrência de abordagens policiais somente no ano passado no Brasil — em plena pandemia. Trata-se de número recorde desde que os dados passaram a ser coletados pelo Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2007. As principais vítimas? Jovens negros. A maioria dos policiais? Absolvidos. É sobre a (falta de) responsabilização por essas mortes que versa a pesquisadora Poliana da Silva Ferreira em Justiça e letalidade policial, que chega neste semana às livrarias: “Nas entranhas do sistema, não há freios entre o primeiro disparo e o veredito final”.

Completam a seleção romances do argentino Pablo Katchadjian e da libanesa Hoda Barakat, uma crítica ao feminismo branco por Djamila Ribeiro, um estudo sobre proteção de dados na América Latina, um conto sobre avós de Valter Hugo Mãe e uma análise dos movimentos sociais do século 21 pela criadora do #BlackLivesMatter.

Viva o livro brasileiro!

Justiça e letalidade policial: responsabilização jurídica e imunização da polícia que mata. Poliana da Silva Ferreira.
Pref. Maíra Rocha Machado e Riccardo Cappi • Jandaíra • 192 pp • R$ 54,90

A pesquisadora Poliana da Silva Ferreira estuda nesse livro a dimensão jurídica da letalidade policial e, mais especificamente, como o Direito lida com as abordagens policiais que resultaram em mortes. De 2016 a 2020 foram contabilizadas no Brasil mais de 27 mil vítimas fatais em decorrência de abordagens policiais. O sistema de Justiça, no entanto, é movido por uma “lógica imunitária”, que blinda a polícia que mata: os policiais alteram as provas e as cenas dos crimes, lavrando boletins de ocorrência já programados para virarem “autos de resistência”, sob o beneplácito dos superiores. O Ministério Público pede o arquivamento desses inquéritos policiais porque “faltam” provas. E os magistrados chancelam toda a cadeia de descaso e indiferença, barrando o julgamento dos policiais responsáveis.

Leia também: Filósofa francesa desenvolve genealogia do poder a partir da ideia de que cidadãos excluídos socialmente não têm o direito de se defender.

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O propósito do poder: vidas negras e movimentos sociais no século 21. Alicia Garza.
Trad. de Denise Bottmann • Zahar/Companhia das Letras • 360 pp • R$ 69,90

Em 2013, em resposta à absolvição do assassino (um vigilante voluntário que fazia patrulha pelo bairro) do adolescente Trayvon Martin, a ativista norte-americana Alicia Garza fez uma postagem no Facebook em que cunhou o termo Black Lives Matter (Vidas negras importam), nome do movimento que cofundaria ao lado de outras duas mulheres. “Não merecemos que nos matem com impunidade. Precisamos amar a nós mesmos e lutar por um mundo onde as vidas negras importem”, escreveu. Filha de uma mãe negra e um pai judeu, ela conta nesse livro sua trajetória pessoal e de militância política, sustenta que não basta ter uma hashtag viral para mudar o mundo e afirma que qualquer agenda política que não inclua o bem-estar e a dignidade dos negros não é verdadeiramente progressista.

Leia também: Como a faceta de militante e intelectual público de James Baldwin influencia os atos do Black Lives Matter.

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O que fazer. Pablo Katchadjian.
Trad. Wladimir Cazé • Relicário • 128 pp. • R$ 45,90

Publicado em 2010 pelo escritor argentino, autor do célebre El Aleph engordado — que lhe rendeu um processo de seis anos movido por Maria Kodama (leia o artigo de Damián Tabarovsky na Quatro Cinco Um sobre o tema) —, o romance começa quando um aluno faz uma pergunta impossível de ser respondida. A partir daí, dois protagonistas são lançados em uma série de situações que se bifurcam em sucessivas dificuldades, em cenários como adegas, trincheiras, discotecas, lojas, bancos, barcos, aeroportos e pontes. Na edição da Relicário, o personagem da capa vem como um adesivo para os leitores colarem onde quiserem.


Pablo Katchadjian  Divulgação

Na Quatro Cinco Um, Reginaldo Pujol Filho resenha este e outro livro recém-lançado do mesmo autor, A liberdade total (DBA): “Tanto A liberdade total quanto O que fazer parecem deliberadamente jogar, e às vezes até rir, com as convenções do realismo literário. Aliás, este mostra-se um dos interesses de Katchadjian: questionar a narratividade mimética, as jornadas do herói, os personagens complexos e propor procedimentos — em vez de conflitos narrativos — como motores de escrita”.

Leia tambémO que fazer? Colaboradores da Quatro Cinco Um dão suas respostas para uma pergunta decisiva para o nosso tempo.

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Feminismo branco: das sufragistas às influenciadoras e quem elas deixam para trás. Koa Beck.
Trad. Bruna Barros • Intr. Isabela Reis • HarperCollins • 384 pp • R$ 49,90

A escritora norte-americana, ex-editora dos portais JezebelMarie Claire e Vogue, revisita a história do feminismo para mostrar como o elitismo e os preconceitos raciais moldaram um discurso feminista que deixou de lado todas as mulheres que não se enquadravam no perfil de classe média branca e heterossexual. As ações visando o empoderamento das mulheres sempre paravam naquelas já preparadas para o sucesso capitalista por meio da educação universitária ou de um status socioeconômico elevado. Segunda a autora, elas viam a igualdade de gênero como algo ancorado na acumulação de poder individual, e nunca na redistribuição de poder.

Trecho do livro: “O feminismo branco é uma ideologia que tem prioridades, objetivos e estratégias diferentes para alcançar a igualdade de gênero: autonomia personalizada, riqueza individual, autoaprimoramento eterno e supremacia. É uma prática e um modo de ver a igualdade de gênero que tem seus próprios ideais e princípios, assim como o racismo, o heterossexismo e o patriarcado. E sempre teve”.

Leia também: Coletânea de Djamila Ribeiro intercala autobiografia e reflexão política sobre a mulher negra no Brasil e traduções de feministas negras apresentam vozes diversas e necessárias para compreender as lutas contemporâneas.

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O arador das águas. Hoda Barakat.
Trad. Safa Jubran • Tabla. 240 pp • R$ 64

Publicado em 1999, o terceiro romance da escritora e dramaturga libanesa ganhou no ano seguinte a Medalha Naguib Mahfouz de Literatura (em 2019, ela já havia recebido o Prêmio Internacional de Ficção Árabe por Correio Noturno, também publicado no Brasil pela Tabla). O arador das águas retrata um homem solitário que percorre a cidade de Beirute devastada pela longa guerra civil (que deixou mais de 120 mil mortos de 1975 a 1990), rememorando a vida de seu pai (do qual herdou uma loja de tecidos), a difícil relação com a mãe egípcia e a paixão pela empregada curda. Barakat deixou Beirute em 1989, pouco antes do final da guerra, e desde então vive e trabalha em Paris, onde escreve suas obras literárias em árabe.

Leia também: Os deslocamentos espaciais marcam a tônica da narrativa de Hoda Baraskat e o libanês Amin Maalouf fala sobre como a lógica capitalista, o cerco às liberdades e o sectarismo radical têm causado o declínio da nossa civilização.

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Serei sempre o teu abrigo. Valter Hugo Mãe.
Globo Livros • 48 pp • R$ 54,90

Nesse livro que dedica aos pais, o escritor português nascido em Angola escreve sobre os desafios que a velhice impõe não só ao corpo e à mente, mas sobretudo aos relacionamentos afetivos. No conto, é o neto que narra a história de um casal de idosos: seu avô, um homem de oficina acostumado a cumprir metodicamente suas tarefas, e sua avó, uma matriarca carinhosa segundo a qual amar é melhorar. Valter Hugo Mãe venceu em 2007 o prêmio José Saramago e em 2012 o Oceanos (anteriormente Portugal Telecom).

Trecho do livro: “Um dia, entendi que os velhos são heróis. Passaram por muito, ganharam e perderam tanta coisa. Perderam pessoas. Persistem sobretudo para cuidar de nós, os mais novos, e nos assistirem. Observam-nos. São heróis. Ainda sabem amar depois de tantas dificuldades”. 

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Proteção de dados na América Latina: Covid-19, democracia, inovação e regulação. Diversos autores. Pref. Nelson Remolina Angarita.
Arquipélago Editorial • 256 pp • R$ 96

Em um cenário pandêmico, no qual as pessoas mais precisam de informações corretas e verdadeiras, temos sido bombardeados minuto a minuto com enorme quantia de conteúdos falsos (boatos, opiniões equivocadas e teorias da conspiração) disfarçados de notícias confiáveis. Os autores do livro analisam o impacto da pandemia nos países latino-americanos a partir da perspectiva da proteção de dados, discutindo os princípios morais e jurídicos aplicados à robótica, o enfrentamento à desinformação no Brasil, o direito à saúde e à proteção dos dados pessoais em tempos de pandemia, a proteção de dados pessoais dos entregadores via plataformas digitais e os desafios do Open Data na pandemia. 

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Quem escreveu esse texto

Marília Kodic

Jornalista e tradutora, é co-autora de Moda ilustrada (Luste).

Mauricio Puls

É autor de Arquitetura e filosofia (Annablume) e O significado da pintura abstrata (Perspectiva), e editor-assistente da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #48 em junho de 2021.