Literatura,

A pátria é a língua

Autoras do Líbano e de Omã mostram a força da literatura árabe contemporânea

01mar2021 - 00h00 | Edição #43

Deslocamentos. É essa palavra que define dois livros de autoras árabes lançados no Brasil no ano passado. Se em Correio noturno, da libanesa Hoda Barakat e publicado pela editora Tabla, os deslocamentos espaciais marcam a tônica da narrativa, em Damas da lua (lançado pela editora Moinhos), de Jokha Alharthi, escritora nascida em Omã — sultanato situado no sudeste da Península Arábica —, os saltos temporais podem acontecer não só entre um capítulo e outro, mas também entre parágrafos. 

Ganhador do International Prize for Arabic Fiction, Correio noturno tem seus capítulos formados por cartas escritas por seis personagens: um imigrante que está sem documentos escreve à sua amante; uma mulher de cinquenta anos espera no quarto de hotel a chegada de uma paixão da juventude; um homem torturado e que depois se tornou torturador abre seu coração para sua mãe enquanto tenta conseguir refúgio no estrangeiro; uma mulher que se prostitui conta ao irmão preso sobre a morte da mãe; um jovem homossexual pede ajuda ao pai para voltar para seu país de origem; e um carteiro procura seguir com seu ofício em meio à guerra. 

O entre-lugar é uma constante tanto em termos espaciais — os personagens circulam por lugares de passagem, quartos de hotel, aeroportos e centros de detenção de imigrantes — quanto em status, pois eles não possuem documentos que regularizem a sua situação. As angústias trazidas por esse estado de insegurança são traduzidas nos relatos bastante pessoais desses personagens, cujas histórias são tomadas por aspectos desumanizadores. Assim, é no ato da escrita que a sua humanidade é restaurada, e, no fim, as cartas chegam a quem precisam chegar — não necessariamente aos seus destinatários oficiais. 

Damas da lua segue, a partir dos casamentos de três irmãs — Mayya, Assmá e Khawla —, as gerações de uma família e sua rede de relações, percorrendo o processo de modernização de Omã, país muito influenciado pelo Império Britânico no século 19 mas que não chegou a ser oficialmente uma colônia. As complexidades e contradições de elementos tradicionais, religiosos e modernos do país se refletem no ambiente familiar. 

Para o leitor brasileiro, é de particular interesse o modo como a escravidão aparece na narrativa. O Sultanato de Omã foi um dos principais traficantes de escravizados da região do Oceano Índico, tendo dominado a ilha de Zanzibar (que hoje pertence à Tanzânia), um dos principais entrepostos de comércio de mercadorias e de pessoas da região. Abolida apenas em 1970, a escravidão é um tabu no país, que carrega as chagas desse sistema. Foi uma escravidão diferente e ao mesmo tempo parecida com a brasileira, inclusive na figura da escravizada Zarifa, vinda de uma linhagem de escravizados raptados do Quênia e cuja mãe, Ankabuta, frequentava o zar, local de cerimônias que se assemelham aos rituais dos terreiros de umbanda e candomblé.

Para o leitor brasileiro, é de particular interesse o modo como a escravidão aparece em ‘Damas da lua’

Hábil narradora, Alharthi desvela aos poucos os segredos dos personagens — para o leitor não se perder na profusão de nomes e parentescos, uma espécie de heredograma organiza os personagens nas páginas iniciais do romance. Foi essa prosa, que se utiliza de elementos da poesia clássica árabe, que fez com que Alharthi ganhasse o Booker International Prize (versão do conhecido prêmio britânico para traduções feitas para o inglês), junto com sua tradutora Marilyn Booth, sendo a primeira obra omani a obter esse reconhecimento — além de ser a primeira obra de um autor do país a ser publicada no Brasil.

Diversidade linguística

Ambas as obras também são marcadas pela diversidade linguística do árabe, idioma bastante complexo que possui uma variante formal (chamada fusha) e uma quantidade sem fim de variações dialetais, faladas nas ruas — um árabe coloquial, portanto. O fusha é a língua escrita por excelência — suas origens míticas teriam vindo do Corão, o livro sagrado dos muçulmanos. O fusha também serve como uma espécie de língua franca entre os 22 países que têm o árabe como idioma oficial, pois as versões locais são tão distintas entre si que um falante de um país (ou até mesmo de uma cidade ou de um vilarejo) pode não entender o árabe falado em outro país, cidade ou vilarejo árabes. Assim, esse idioma da religião e da educação formal convive até hoje com suas formas populares, e essa relação tem aparecido com frequência na literatura árabe contemporânea.

Em Damas da lua, essa riqueza linguística está presente nos diálogos dos personagens que habitam a vila de Al-Alwafi, no interior de Omã. Para obter o mesmo efeito que teria na língua original, em nota, a tradutora Safa Jubran explicou que escolheu não ter uma preocupação exagerada em seguir a norma culta do português nas falas cotidianas de personagens que não tiveram instrução escolar. 

Em Correio noturno, as vozes em árabe mostram a diversidade das falas de cada um dos personagens, sendo interessante pensar na relação do carteiro com as mulheres destinatárias das cartas: “Minha felicidade ao entregar cartas era quase tão grande quanto a delas ao recebê-las. As fitas gravadas só precisavam ser colocadas no gravador, mas quando se tratava de cartas escritas, eu ficava para ler para elas. Não sempre, apenas quando era do meu conhecimento que a destinatária não sabia ler”.

Correio noturno, assim como Damas da lua, foi traduzido por Safa Jubran. Nascida no Líbano, ela se estabeleceu no Brasil em 1982 em meio à guerra civil do seu país de origem (1975-90). Além de dar aulas de língua e literatura árabe na Universidade de São Paulo (usp), onde é professora livre-docente, Jubran já traduziu onze romances, entre os quais Porta do sol (Record, 2008), do libanês Elias Khoury, e E nós cobrimos seus olhos (Companhia das Letras, 2013), do egípcio Alaa Al Aswany, ganhador do prêmio de melhor tradução da Academia Brasileira de Letras em 2014. Ela também foi contemplada, em 2019, com o prêmio internacional Sheikh Hamad Award for Translation and International Understanding, pelo conjunto de obras traduzidas ao português. Além disso, fez uma versão em árabe do livro Dois irmãos, de Milton Hatoum, e prepara uma tradução para o árabe de Lavoura arcaica, de Raduan Nassar. Jubran faz, assim, uma ponte importante tanto para divulgar a literatura árabe no Brasil quanto para tornar acessíveis títulos de autores brasileiros para os falantes desse idioma.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #43 em fevereiro de 2021.