A Feira do Livro, História,

‘O racismo cria o imaginário de que pessoas negras só eram escravas’, diz Hebe Mattos

Historiadora debateu com a professora Ana Flávia Magalhães sobre legado do engenheiro André Rebouças

07jul2024 - 20h23 • 10jul2024 - 10h48
Hebe Mattos. Fotografias de Matias Maxx.

Os diários, vida, ideias e legados de André Rebouças – engenheiro, inventor e uma das principais figuras intelectuais no movimento abolicionista no Brasil – foram debatidos neste domingo (7) na mesa “Avenida Rebouças”, com a diretora do Arquivo Nacional Ana Flávia Magalhães e a historiadora Hebe Mattos, que organizou as cartas e as anotações do abolicionista. A mediação foi do jornalista Fábio Silvestre Cardoso.

Rebouças é reconhecido por suas genialidade na engenharia, como as obras de saneamento no Rio de Janeiro; a estrada de ferro Santos-Jundiaí, uma das mais importantes ferrovias em operação no século 19; e a reforma dos portos brasileiros, fundamental no processo de comercialização entre o Brasil e a Europa.

O legado de Rebouças, para além dessas engenhosidades espalhadas pelo país que ganham o sobrenome de sua família, ainda é pouco conhecido. Para a historiadora Hebe Mattos, o que explica esse fenômeno é o racismo.

“O racismo cria o imaginário de que pessoas negras só eram escravas. Apesar do Brasil vir de uma sociedade escravista, existia uma construção intelectual muito grande dentro dessa população”, disse ela.

Organizadora das cartas do abolicionista, reunidas pela editora Chão nos volumes Cartas da África: registro de correspondência 1891-1893 (2022) e O engenheiro abolicionista: 1. Entre o Atlântico e a Mantiqueira – Diários 1883-1884, ela explicou que Rebouças é lembrado erroneamente como um exemplo da “democracia racial” brasileira, por ser negro e circular entre a família real.

Membro ativo da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, Rebouças, um homem negro, usou sua influência para promover a causa da abolição. Segundo Mattos, que também é professora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), o abolicionista era uma figura da classe média. Seu pai era filho de uma mulher negra (nascida livre) e de um alfaiate português e conselheiro de Pedro II.

“No século 19, depois da Independência, existiam poucas maneiras de ser intelectual no Brasil: ser filho de fidalgo, estudar na Universidade de Coimbra, em Portugal, ser padre ou autodidata. Muitos desses ‘excepcionais autodidatas’ eram não brancos, como Machado de Assis e Luiz Gama. Tem uma invisibilidade de um setor médio, negro, que só é lembrado no papo da democracia racial”, contou. “O silêncio na história quer embranquecer a memória.”

Amizades intelectuais 

Na visão da professora da Universidade de Brasília (UnB) Ana Flávia Magalhães, autora de Escritos de liberdade: literatos negros, racismo e cidadania no Brasil oitocentista (Editora da Unicamp, 2019), a existência de Rebouças não se limitou à condição de alguém que orbitou a família imperial.

“O André Rebouças apagado é um homem negro livre, letrado e um articulador. Ele é um nome que ajuda a superar a imagem da excepcionalidade, da pessoa negra não escravizada como exceção. Ele convivia com gente das leis, da medicina, até mesmo a crença que ele tinha sobre si se explicava na existência de sujeitos como ele”, avaliou.

Ana Flávia Magalhães

Sobre a crítica à amizade com a Coroa de Portugal, Magalhães rebateu. “É óbvio que ele seria alguém a circular nesses espaços, ele é filho do conselheiro Antônio Rebouças, era alguém que já circularia por hereditariedade e foi criado para estar ali numa perspectiva de oposição a tudo. Como é que esse sujeito que foi criado para ter uma traição de raça se manteve ligado a todas as pessoas negras com as quais ele esteve relacionado?”, indagou.

Luta abolicionista

O movimento abolicionista no Brasil foi um esforço multifacetado que se desenvolveu ao longo do século 19, culminando na abolição da escravidão em 13 de maio de 1888, com a assinatura da Lei Áurea pela Princesa Isabel. Segundo as convidadas, isso foi impulsionado por diversos fatores, incluindo a pressão internacional, a resistência e mobilização das pessoas escravizadas, a atuação de intelectuais, políticos e ativistas, e a mudança nas condições econômicas e sociais do país.

“Toda história do movimento abolicionista se perde, como se a princesa acordasse de bom humor e resolvesse acabar com a escravidão, mas teve todo movimento abolicionista, luta, e fuga em massa dos escravizados”, disse Mattos.

Segundo ela, Rebouças queria garantir uma indenização com pequenos lotes para pessoas libertas. Ele sonhava com uma democracia real, com camponeses negros, antigos libertos, e imigrantes camponeses com pequenas terras, contou. Mais de 130 anos depois, no entanto, há várias políticas no Brasil que não consideram a maioria não branca, segundo Magalhães.

“Políticas que não considerem que a maioria do Brasil não é branca atualizam as violências que vêm sendo produzidas desde o século 19 até hoje. A cidadania plena de pessoas negras neste país nunca foi um projeto claro. Ou a gente lida com essa fratura fundadora, ou a gente vai fazer a manutenção da violência”, concluiu.

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Quem escreveu esse texto

João de Mari

É jornalista e editor assistente da Quatro Cinco Um.