Literatura,
Ascensão e queda
Sensação aos 22 anos com Lázár, romance que narra a derrocada da sua família, Nelio Biedermann quer trilhar caminho próprio na literatura
19ago2026 • Atualizado em: 18ago2026
Uma saga familiar que atravessa a primeira metade do século 20, duas guerras mundiais, a queda de um império e o nascimento de um regime totalitário — isso tudo para narrar a decadência dos nobres húngaros Von Lázár. Não é o tipo de romance que você esperaria de um autor de 22 anos, mas foi exatamente esse que o suíço Nelio Biedermann escreveu. Com Lázár, publicado este ano no Brasil pela Record, ele foi a sensação da temporada literária alemã em 2025 — vendeu mais de 200 mil exemplares na Alemanha e na Suíça. Mais de uma resenha o comparou a Thomas Mann, que tinha 26 anos quando publicou Os Buddenbrook, seu primeiro romance, também a crônica da derrocada de uma família.
Nascido em Zurique, Biedermann convivia desde criança com as histórias desse clã húngaro — o seu próprio —, que fugiu do nazismo e do stalinismo para tentar encontrar refúgio na montanhosa Suíça. O que leva um autêntico gen z, que nunca aparece sem uma corrente de prata no pescoço e anéis nos dedos, a mergulhar em um passado tão tradicional e distante? “Antes de começar a escrever, eu tinha a sensação de que, para ser relevante, deveria escrever sobre o presente”, conta. Foi exatamente a leitura de Os Buddenbrook e de muitos outros clássicos citados na narrativa que fez o autor estreante perceber que “se pode dizer muito sobre o presente ao escrever sobre o passado”. Bem-humorado, Biederman também falou, em entrevista por vídeo à Quatro Cinco Um, sobre outra saga familiar, Cem anos de solidão, e de como sua família reagiu ao romance.
Você já mencionou em entrevistas o passado aristocrático da sua família e suas visitas a castelos durante a infância. Quando essa herança familiar se transformou no desejo de escrever um romance?
Aconteceu de forma natural. Quando comecei a escrever, pensei imediatamente nessas histórias, pois, de alguma maneira, elas já estavam lá antes da escrita.
Como foi esse processo?
Tentei escrever com base em diferentes perspectivas da família, deixar os integrantes contarem suas próprias histórias. Outra tentativa foi abordar diferentes períodos históricos e alternar entre eles. Comecei a contar essa história no século 18, ou seja, ainda mais no passado, e em três níveis de tempo, mas também não deu certo. Os elementos mágicos nem sempre faziam parte. Só na quinta tentativa percebi que ia dar certo.
Lajos, o protagonista, invejava os filhos dos camponeses, que não tinham um sobrenome a ser honrado, uma “ancestralidade pendurada no pescoço”. Você também se sente assim?
Acho que consigo me identificar com o sentimento, mas não de verdade, porque não cresci nessas circunstâncias. Cresci de forma bastante normal, mesmo tendo essa história familiar. Por exemplo, era muito importante para meu pai que tivéssemos boas maneiras. Às vezes, eu pensava que isso era desnecessário — essa não é mais a nossa vida. Mas, quando penso na vida que meus avós levaram quando crianças, não gostaria de trocar de lugar com eles, mesmo que tenham crescido em castelos e com toda a sua fortuna. Ainda criança, de alguma forma eu percebia que muitas coisas desagradáveis estavam ligadas a essa vida.
Não acho que vão me comparar a Thomas Mann depois de mais alguns livros — serão diferentes
Como sua família reagiu ao romance?
É claro que meus pais leram, mas acho que não conseguem julgar de forma objetiva. Eles estão muito orgulhosos, ainda mais que o romance está atraindo tanto interesse. A primeira reação do meu pai foi engraçada. Logo depois de ler, disse que gostou, mas não conseguia imaginar que seus amigos ou qualquer outra pessoa sem ligação com a família quisesse lê-lo. E não disse isso com má intenção — era muito estranho para ele que tantas pessoas se interessassem por uma história tão pessoal. Meu tio-avô, que foi uma grande fonte de histórias e ainda mora em Budapeste, queria esperar pela edição húngara. Eu estava um pouco nervoso com o julgamento dele, porque ele só contava as histórias boas e há muitas coisas ruins no livro. Ele acabou lendo em alemão antes de a tradução húngara ser publicada, mas não me disse nada — eu só soube pelo meu pai que ele tinha lido. Agora a edição húngara já está disponível há algumas semanas e ele não me deu nenhum feedback.
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Você trabalha com uma matéria-prima pessoal, mas seu romance não é autoficção, o gênero do momento. O que levou um integrante da gen z a uma forma ficcional mais próxima do século 19?
Para ser sincero, não sei. Adoro ler autoficção — Karl Ove Knausgård, por exemplo, é um dos meus autores favoritos. Até poderia ter transformado essa história em autoficção e escrito sobre mim mesmo como um personagem, mas achei melhor deixar toda essa conexão pessoal de fora. Também fui muito influenciado pelas obras escritas naquele período. Precisava encontrar um tom para este romance, porque escrevo a partir de uma perspectiva moderna. Não diria que ele foi inteiramente escrito como se escrevia naquela época, mas não poderia ter usado um tom muito moderno. Tive que encontrar um equilíbrio.

Os Buddenbrook, de Thomas Mann, também narra a decadência de uma família. Várias resenhas na Alemanha compararam vocês dois. Como um autor de 22 anos se sente ao ser pareado a um dos maiores escritores de língua alemã?
É uma honra, de verdade, mas nunca me compararia a ele. Quando alguém novo entra em cena, em qualquer área, as pessoas o comparam a quem já estava lá antes, só para colocá-lo em uma espécie de categoria, e depois de alguns anos isso passa. Espero ser apenas o Nelio Biedermann e não um Thomas Mann mais jovem ou algo do tipo. Entendo o motivo da comparação — o romance é escrito em um estilo parecido e trata daquele período. Ele também era muito jovem quando escreveu seu primeiro romance familiar, e todo livro desse tipo, especialmente em alemão, é comparado a Os Buddenbrook. Não dá para evitar; é provavelmente a maior saga familiar alemã. As pessoas me perguntam se isso coloca muita pressão sobre mim, porque talvez eu tenha a sensação de que preciso estar à altura. Mas não acho que vão me comparar a ele depois de mais alguns livros — eles serão diferentes.
Os Buddenbrook é um paralelo óbvio, mas há também Morte em Veneza, que aparece em uma cena crucial de Lázár. Como a obra de Mann influenciou a sua escrita?
Ele foi uma espécie de professor. Muitos romances e escritores são mencionados em Lázár — aprendi algo com todos eles e quis prestar uma homenagem. Mas acho que Thomas Mann foi realmente importante para a estrutura. Nunca frequentei uma escola de escrita; tive de aprender com os romances que li. Os Buddenbrook, por exemplo, li para ter uma noção de como mostrar personagens em diferentes décadas e acompanhá-los à medida que envelhecem. Como manter esses personagens e as diferentes histórias conectados entre si e como fazer símbolos ou motivos reaparecerem, mantendo a história coesa. Mann realmente ajudou com esses recursos narrativos e questões técnicas necessários para escrever uma história que abrange um período tão extenso. E foi inspirador porque ele escreveu Os Buddenbrook quando tinha 26 anos — você nunca é jovem demais para algo; só precisa tentar e talvez dê certo. Ele publicou em 1901, mas o romance se passa cinquenta anos antes disso. Antes de começar a escrever, eu tinha a sensação de que, para ser relevante, seria preciso escrever sobre o presente. Isso me mostrou que se pode dizer muito sobre o presente ao escrever sobre o passado.
Em uma passagem, durante a Segunda Guerra, Lajos desenvolve uma aversão a tudo que é ficcional e belo, enquanto seus filhos leem muita literatura. Qual é o papel da literatura em meio a horrores do passado e do presente?
Ainda é importante, especialmente em tempos difíceis. Entendo que as pessoas não queiram ler ou que pensem que não é importante, mas pode ser uma fuga de toda a turbulência ao redor. Por outro lado, não é uma fuga, porque faz você pensar e questionar a realidade em que vive. Faz você traçar paralelos entre diferentes períodos históricos. Tem aquele ditado: ‘A história não se repete, mas rima’. A literatura é muito boa em pegar as coisas que estão à nossa volta, criar algo a partir delas e colocar um espelho diante de nós.
Devorei as páginas de ‘Cem anos de solidão’; me encorajou a ser mais ousado
Como mencionou, há várias referências literárias no romance além de Thomas Mann: Arthur Schnitzler, E.T.A. Hoffmann, Simone de Beauvoir, Virginia Woolf e Ödön von Horváth. Elas surgiram naturalmente ou você as procurou?
Foram colocadas lá de propósito. Às vezes me perguntam por que incluí tantos romances, se eu queria me gabar de quantas coisas já li. Não é o caso. Se quisesse me gabar, poderia ter colocado muito mais. Quase todos esses livros foram importantes enquanto eu escrevia, porque eu os usei como pesquisa — me mostraram como era a vida naquela época. Alguns se encaixaram perfeitamente. Minha ideia era não apenas ter os Lázár como personagens, mas também o tempo ou a floresta. E gosto de pensar que a literatura é uma personagem no meu romance, porque ela realmente afeta as pessoas. Imre, por exemplo, enlouquece porque lê E.T.A. Hoffmann.
Você estuda literatura alemã na Universidade de Zurique. Como foi escrever um romance enquanto frequentava aulas?
Estudo literatura, não escrita. Então, na universidade, é uma forma teórica de abordar a literatura. Mesmo assim, foi inspirador, porque me deparei com livros incríveis e escritores que as pessoas leem há cem, duzentos anos. Também é um pouco humilhante — eu ia para a universidade, o professor falava sobre esses escritores, eu voltava e queria reescrever tudo, porque percebia que não era tão bom quanto eles.
Um romance que também vem à mente ao ler Lázár é Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez. Você o leu?
Sim, li enquanto escrevia o livro porque tinha ouvido muitas coisas sobre esse romance. Como usei elementos mágicos, queria ver como ele fazia isso. É preciso ler alguns romances para não os copiar por engano. Então tive que lê-lo para ter certeza de que não o copiaria sem saber. Falando em romances latino-americanos, vejo atrás de você, na sua estante, o 2666, de Roberto Bolaño, que estou lendo agora, o que também me lembrou de García Márquez. Fiquei impressionado com Cem anos de solidão, porque é muita coisa em um único livro. Vou ter que reler algum dia — é impossível assimilar tudo de uma vez. Devorei as páginas; me encorajou a ser mais ousado. Percebo isso nos eventos — as pessoas vêm até mim e dizem que adoraram o meu livro, mas que se perderam porque havia tantos personagens e nenhuma árvore genealógica. Sempre me lembro de Cem anos de solidão — todos os personagens têm o mesmo nome. Eles acham que são o centro do mundo e que o planeta vai parar de girar quando morrerem, mas simplesmente continua sem eles. Gosto muito disso.
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