Flip,

“Escrever é uma grande responsabilidade”, diz Annie Ernaux

Grande estrela da Flip 2022 e autora mais vendida no evento, ganhadora do Nobel emocionou suas leitoras

28nov2022 - 14h49 | Edição #64

Esta é a Flip das mulheres, dizia-se pelas ruas de Paraty. Com uma programação que se destacou por ter um número maior de convidadas do que de convidados e que homenageou a escritora negra Maria Firmina dos Reis, os vinte anos da Festa Literária Internacional de Paraty trouxeram de volta às ruas de pedra da cidade histórica do Rio de Janeiro o principal evento literário do país entre os dias 23 e 27 de novembro. Uma estrela brilhou entre todas as outras: Annie Ernaux, que já estava na programação antes de ganhar o Nobel de Literatura.

A escritora de 82 anos foi a primeira mulher francesa a ser laureada com o prêmio e a notícia chegou até ela enquanto estava na cozinha cuidando dos seus gatos, como revelou na coletiva de imprensa que aconteceu na última sexta (25), às 20h, na Pousada do Ouro, em Paraty. Ela contou que se surpreendeu com o anúncio, uma vez que, na França, “a literatura é considerada um mundo masculino”.

Na mesa Diamante Rubro que dividiu no sábado (26), às 15h, com a escritora gaúcha Veronica Stigger e com ótima mediação de Rita Palmeira, Ernaux comentou do seu receio de que o Nobel fosse lhe “roubar a velhice”, pois gostaria de viver esse período da vida com a intensidade devida, uma vez que é uma fase na qual não haverá tempo para ser lembrada, virar memória.

Memória, aliás, é a palavra-chave para ler seus livros, dos quais Os anos, O lugar, O acontecimento, A vergonha e O jovem foram publicados no Brasil pela editora Fósforo. Outra característica marcante em suas obras é o conflito de classes nas relações familiares e afetivas, como se vê marcadamente em O lugar e O jovem.

‘Quando escrevo, não escrevo algo sobre mim, é uma verdade geral. A escrita é um processo de criação, não podemos nos esquecer disso’

A literatura de Ernaux coloca sua experiência individual no centro da narrativa, mas ela se expande para se integrar à história coletiva. São essas experiências contadas de modo direto, econômico e preciso que as tornam universais, afinal, qual mulher não se deparou com o tema do aborto em sua vida? Mesmo assim, quando escreve não pensa em ninguém. “É a busca que vem de mim mesma, uma busca a partir de sensações e experiências vividas para ir ao fundo das coisas. Não escrevo para as mulheres, escrevo para mim.”

“Quando escrevo, não escrevo algo sobre mim, é uma verdade geral. A escrita é um processo de criação, não podemos nos esquecer disso”, falou ela. “Busco algo que acontece, não algo que tem em mim.”

Emoção

Mesmo assim, a escrita de Ernaux toca fundo várias mulheres (e também homens), como demonstrou a exibição de Os Anos do Super 8 ocorrida na Flip ao mesmo tempo que a estreia da seleção brasileira na Copa do Mundo, na tarde de quinta (24). O documentário dirigido pelo seu filho, David Ernaux-Briot, no qual escreveu o roteiro e gravou a narração in off, apresenta um panorama histórico da França a partir de pequenos fragmentos cotidianos.

Ao final da sessão, uma professora de uma pequena cidade brasileira contou para Ernaux e outras mulheres que ficaram no local de um aborto clandestino que realizou — foi a primeira vez que falou disso em público — e de como trabalha com os livros da francesa em sala de aula. Depois desse depoimento, realizado aos prantos, um momento catártico aconteceu entre todas as mulheres da plateia e na própria Ernaux. A princípio, ela não ia assinar livros nem tirar fotos, mas não se conteve e deixou que suas leitoras se aproximassem.

‘As coisas que escrevo podem causar acontecimentos. O que escrevo influencia as outras pessoas’

Perguntada sobre esse momento, declarou ter sentido uma grande emoção: “O que posso escrever leva a uma ação, e isso me leva a pensar que escrever é uma grande responsabilidade. Entendi isso ontem [dia da exibição do filme]. Quando escrevo não penso sobre isso, mas me sinto responsável pelo que escrevo. Porque as coisas que escrevo podem causar acontecimentos. O que escrevo influencia as outras pessoas”.

Ela continuou abrindo exceções depois da sua mesa, quando ficou três horas assinando seus livros. A fila era longa. Sorte de quem conseguiu esse tesouro.

Ser escritora

Outra afirmação marcante na coletiva foi a de que “no fundo, nunca me senti escritora na verdade”, algo que não se esperaria de alguém que acabou de ganhar um Nobel. “Brincadeiras à parte, eu sei que sou escritora, mas essa consciência só veio com o livro O lugar, sobre meu pai. Era um livro diferente do habitual, era curto e não havia conteúdo ficcional. Meu editor só publicou porque o livro era meu.”

A frase acima foi dita com um quê de seriedade. Talvez, essa humildade venha de uma característica que se repete na história de escritoras. Esse atitude mais discreta, mais “pé no chão” ao não se deixar levar pelas armadilhas da fama, vem de séculos passados, quando não era recomendável que mulheres exercessem qualquer atividade intelectual.

Parte dessa argumentação pode ser conferida em The Madwoman in the Attic: The Woman Writer and the Nineteenth-Century Literary Imagination (A louca do sótão: a mulher escritora e a imaginação do século 19), de Sandra Gilbert e Susan Gubar, livro de 1979, que mostra como grandes escritoras de língua inglesa, como Jane Austen e as irmãs Brontë, fugiam dessa descrição, não só por não ser “respeitável” uma mulher escrever, mas também pelo ofício da autoria, campo ainda muito masculino.

O discreto charme de Annie Ernaux nos deixa respirar melhor em um espaço dominado por frágeis egos masculinos

É por essas e outras declarações que as mulheres se identificam com Ernaux, inclusive aqui no Brasil, onde milhares de mulheres se juntaram em várias cidades brasileiras para tirar uma foto no Grande Dia para as Escritoras (iniciado em junho durante A Feira do Livro, em São Paulo, e organizado por mim, Giovana Madalosso e Natalia Timerman). A grande maioria dessas mulheres não se sentia digna de ser chamada de “escritora”, sendo que muitas quase não compareceram por não se reconhecerem como tal.

É difícil ver esse tipo de atitude em escritores homens; no geral, acontece o contrário. Esta Flip também foi um grande exemplo do contraste entre o comportamento feminino e masculino de escritores. Enquanto a ganhadora do Nobel andava discretamente por Paraty e dividiu a mesa do evento literário sem problema com uma escritora brasileira, a notícia que corria às ruas da cidade era que um autor homem exigiu não dividir sua mesa com outro convidado da Flip, que foi transferido para outra mesa (de Saidyia Hartman e Rita Segato). A cultura tóxica da genialidade, em especial a masculina, como sinônimo de gestos egocêntricos continua, infelizmente, firme e forte. E, por isso, o discreto charme de Annie Ernaux nos deixa respirar melhor em um espaço dominado por frágeis egos masculinos.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #64 em outubro de 2022.