Festival literário, Flip,

João do Rio é o homenageado da Flip 2024

Jornalista e escritor carioca, criador da crônica moderna, norteará a programação da festa literária em Paraty, que acontece em outubro

13jun2024 - 00h13 • 13jun2024 - 10h55
Escritor homenageado na Flip 2024 ficou conhecido como um personagem múltiplo e controverso, o que pode ajudar a explicar o Brasil (Biblioteca Nacional/Reprodução)

João do Rio, pseudônimo mais famoso de João Paulo Emílio Cristóvão dos Santos Coelho Barreto, é o homenageado da próxima edição da Flip, que será realizada entre os dias 9 e 13 de outubro em Paraty. O anúncio do escolhido deste ano marca a volta da celebração da crônica — estilo textual pelo qual ficou conhecido — e do jornalismo — profissão que manteve a vida toda, ajudando, inclusive, a formalizar o trabalho do repórter.

“João do Rio não separou jornalismo de literatura. Sua busca por transformar o ofício em grande arte é um convite a pensarmos no fazer literário em seu campo expandido”, diz Mauro Munhoz, diretor artístico da Flip.

Homem negro, filho de um professor de matemática e uma dona de casa e acusado de homossexualidade — considerada uma doença em sua época —, João do Rio foi um dos autores mais importantes do início do século 20 no Rio de Janeiro. 

Cronista entusiasta, autor de romances, ensaios, contos, peças de teatro, conferências sobre dança, moda, costumes e política, o jornalista e escritor foi um repórter pioneiro ao criar um estilo de texto que mistura literatura e reportagem, ficção e realidade. 

Segundo Ana Lima, curadora da Flip, foi assim que ele mudou o modo de fazer jornalismo, fundando a crônica moderna. O homenageado da Flip em 2024 fez o que ela chama de “etnografia no início do século”. 

“Muito se diz que a crônica, como ela se deu no Brasil, é um gênero totalmente brasileiro. Vem um pouco da tradição do ensaio, claro, mas aqui ganhou pitadas de humor, de observação sagaz. João do Rio, como um dos pioneiros, foi além: registrou a história de uma cidade que se transformava”, diz.

Na observação das ruas e do povo, João do Rio retratou a sociedade carioca em seus hábitos, costumes e rituais. Com seu trabalho como jornalista e seu interesse pela moda europeia, fez coro com pensadores da passagem do século 19 ao 20 que tinham a cidade como centro do pensamento e foi cronista atento da Belle Époque carioca, narrando salões e recepções elegantes da alta roda — a elite que tentava se sofisticar a partir da imitação de estrangeiros.

João do Rio retratava a formação urbana e a velocidade como isso acontecia e também tecia reflexões sobre o progresso e suas contradições, como mostra o livro de crônicas A alma encantadora das ruas (1908).

Explicar o Brasil

Em 1920, fundou seu próprio jornal chamado A Pátria, que tinha como diretriz a defesa dos interesses dos pescadores portugueses que abasteciam a cidade do Rio de Janeiro. Na época, uma nova lei determinou que a pesca deveria ser feita apenas por brasileiros, o que ameaçava a atividade dos chamados “poveiros”.

João do Rio morreu no ano seguinte, em 1921, vítima de um enfarto, aos 39 anos. A Pátria, no entanto, foi publicado até 1940. Apesar da fundação do jornal ter ligações com a colônia portuguesa, o matutino ficou conhecido no Rio de Janeiro por sua cobertura voltada à literatura. 

O escritor homenageado na Flip 2024, que conquistou uma vaga na Academia Brasileira de Letras aos 29 anos, ficou conhecido como um personagem múltiplo e controverso, o que pode ajudar a explicar o Brasil, segundo a curadora Ana Lima.

“João do Rio era e continua sendo uma figura contraditória. Por um lado, era fascinado por Paris, por outro, subia os morros do Rio de Janeiro com muito gosto”, aponta Ana Lima. “Mas, ainda que tenha morrido famoso — seu enterro arrastou multidões —, permaneceu quase esquecido por mais de um século. A homenagem da Flip quer destacar essas contradições, justamente por ajudarem a explicar o Brasil.”

Quem escreveu esse texto

João de Mari

É jornalista e editor assistente da Quatro Cinco Um.