Editora 451,

O labirinto de Dalton Trevisan

Tinta-da-China Brasil e IEB lançam e-book gratuito ‘Dalton Trevisan: uma literatura nada exemplar’, que reúne ensaios sobre a obra do escritor; leia trecho

10jun2024 - 17h45 • 12jun2024 - 11h41
Fotografia de autoria desconhecida publicada em ‘Fotografias deserdadas’, de Rubens Fernandes Junior, publicado pela editora Tempo d’Imagem, em 2022, e usada na capa de ‘Dalton Trevisan: uma literatura nada exemplar’ (Tinta-da-China Brasil, 2024)

A Tinta-da-China Brasil, selo editorial da Associação Quatro Cinco Um, e o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-SP) lançam nesta quarta-feira (12) a coletânea de ensaios Dalton Trevisan: uma literatura nada exemplar, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin da USP, em São Paulo, a partir das 18h30, com transmissão ao vivo no YouTube. O livro em formato digital, que ficará disponível gratuitamente, é uma homenagem ao escritor, que completará 99 anos na sexta-feira (14).

O professor e pesquisador de literatura brasileira Hélio de Seixas Guimarães, organizador da coletânea ao lado de Fernando Paixão, conta que Trevisan está “eufórico” com esse trabalho. Apesar de ser avesso a entrevistas e aparições públicas, o escritor curitibano, famoso por seus contos, acompanhou todo o processo que esmiúça sua obra.

“Não dá para saber ao certo quantos contos ele publicou na vida. Talvez só ele mesmo saiba. O que acontece é que ele vai republicando novas versões de alguns textos e construindo antologias. É difícil entender exatamente o percurso, porque alguns desses textos são retomados, reescritos ao longo da trajetória toda, o que cria uma espécie de labirinto”, observa Guimarães.

Presente na cena literária brasileira desde a década de 1940, Trevisan é autor de centenas de histórias, dezenas de livros, como O vampiro de Curitiba (Record, 1965) e Cemitério de Elefantes (José Olympio, 1964), e ganhador de todos os principais prêmios de literatura do Brasil. Ao longo de quase oitenta anos de produção, construiu um universo literário e um estilo único, marcando o último século da literatura brasileira. 

Em seus textos, há personagens e situações recorrentes que atravessam várias obras e dão unidade à narrativa dos contos, como a figura do Nelsinho, o vampiro em pele de cafajeste que persegue virgens, professoras e prostitutas, ou a do casal João e Maria.

“Sua escrita é baseada numa escuta da fala. Suas palavras possibilitam a construção do silêncio. Então, aquilo que não está dito, aquilo silenciado, às vezes é mais importante na obra do que as próprias palavras. O resto todo é a imaginação que aposta para reconstituir aquilo que não está dito”, diz Guimarães.

Dalton Trevisan: uma literatura nada exemplar propõe uma saída desse labirinto: organizar e reunir ensaios com leituras importantes, plurais e inéditas sobre a obra do Vampiro de Curitiba, apelido que herdou do seu mais conhecido personagem.

Os textos são assinados por Michael Wood, Eliane Robert Moraes, Alcides Villaça, Bruno Zeni, Arnaldo Franco Júnior e Jorge H. Wolff, além dos organizadores. Há ainda um conto de André Sant’Anna e uma entrevista com Berta Waldman, a mais importante intérprete na literatura do contista.

Às vésperas do aniversário do escritor, a homenagem também será marcada pelo anúncio de uma doação de Trevisan à Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Leia um trecho a seguir. 

Trecho de ‘Dalton Trevisan: uma literatura nada exemplar’ 

Vampiros antes do vampiro: a furtiva inclusão do leitor nos primeiros livros de Dalton Trevisan. Ensaio do escritor Bruno Zeni

Na obra de Dalton Trevisan o começo coincide com o fim e a evolução do projeto literário não obedece a uma lógica de amadurecimento, progressão ou aprimoramento dos recursos; tampouco de sedimentação ou, em direção contrária, de reinvenção de temas. O que parece orientar a constituição de sua obra são certas constantes, recorrências e obsessões. Mesmo a progressiva concisão que sua obra assumiu ao longo do tempo—de que são evidências os livros de contos mínimos como Meu querido assassino (1983), Ah, é? (1994), 234 (1997), Pico na veia (2003) e Arara bêbada (2004) — é contraditada por exemplos que reiteram a ocorrência de formas mais longas na ficção do autor. Rita ritinha ritona (2004), Macho não ganha flor (2006), e livros ainda mais recentes, como Beijo na nuca (2014), apresentam contos que voltam a se alongar ou situar-se em um plano de extensão mediano, nem longos, nem muito curtos. Em 2011, o autor publicou Mirinha, que é, de acordo com o subtítulo do livro, uma novela, gênero pouco explorado por Trevisan (outra novela do autor é A polaquinha, livro de 1985), ainda que o texto de Mirinha seja, na verdade, o mesmo do conto “Virgem louca, loucos beijos”, que dá título a um livro publicado em 1979. 

É verdade que a matéria da ficção do autor vêm se atualizando e se moldando aos problemas da realidade contemporânea, como indicam Pico na veia (2002), Macho não ganha flor (2006) e Violetas e pavões (2009), sobretudo em tópicos como o consumo e o tráfico de drogas—pó e pedra—que aparecem não apenas como temas mas como práticas que constituem os protagonistas e a própria linguagem de personagens e narradores.

No entanto, a geografia sentimental e os elementos de obsessão permanecem, como mostram os livros mais recentes, com destaque para Beijo na nuca (2014), em que Trevisan retrabalha, por exemplo, os temas da aventura e das viagens marítimas, tão presentes desde os primeiros livros. Nesse mesmo livro, ao autor republicou um de seus contos iniciais, “Eucaris”, que saiu em abril de 1946, no primeiro número da revista Joaquim, editada por ele mesmo. A capa de Beijo na nuca, aliás, utiliza a mesma ilustração de Poty usada em Dia de Marcos (1953), um dos textos editados em folheto no começo da carreira do autor. A questão da recorrência de temas, das repetições, das obsessões e do uso do clichê e de certa pasteurização da linguagem já foi colocada em boa medida por Berta Waldman, que definiu a literatura de Dalton Trevisan em termos de “fragmentação”, “construção do vazio” e “reprodução do mesmo”, conceituações que a metáfora do “vampiro”, tirada da própria obra, consubstancia.

Outros pesquisadores também alargaram, em anos recentes, a maneira de entender a escrita de Dalton Trevisan para além de noções representacionais ligadas ao caráter pretensamente realista de suas narrativas. Dentre eles destacam-se Arnaldo Franco Junior, Marcio Renato Pinheiro da Silva e Rosse Marye Bernardi. Nos estudos desses autores, destacam-se as análises de recursos da linguagem como o da apropriação e sua relação com o kitsch, a prática da intertextualidade com textos bíblicos e da literatura universal, e o uso da republicação de vários de seus contos, com variações, ao longo dos anos. Em uma obra com esse perfil labiríntico, como se orientar? Um corte possível para a compreensão de algumas características fortes da literatura de Dalton é demarcar momento sem que essa tensão parece ganhar ponto de equilíbrio ou acumulação. Dessa forma, de maneira mais flutuante, ao atentar para as oscilações, mudanças e permanências na obra do autor, talvez seja possível, senão capturar, ao menos sublinhar uma tensão persistente entre elementos às vezes contrários, mas que se mostram complementares e indissociáveis. Assim, a linguagem vai do realismo ao expressionismo e da experimentação ao uso do clichê e do kitsch; a extensão varia da forma sintética do miniconto, do aforisma, do poema (até do haicai, em versão personalíssima) para a distensão narrativa dos contos mais longos e da novela; os temas se reinventam, sem nunca deixar de lado as obsessões de uma vida literária inteira. O vampiro de Curitiba, de 1965, é um desses momentos de acumulação das contradições de sua literatura, pelo menos nesse momento inicial, que começa em 1959 com a publicação dos seus primeiros livros em tiragens comerciais. A importância desse livro vai além do fato de ter apresentado um de seus personagens mais conhecidos e de ter cunhado o epíteto ‘o Vampiro de Curitiba’, pelo qual o próprio autor passou a ser identificado, ligando seu nome a um de seus personagens. Mais que isso, o livro permanece como um volume inusitado no conjunto de sua obra, já que todos os contos de O vampiro de Curitiba são protagonizados pelo mesmo personagem, Nelsinho, o qual é o tal Vampiro, ainda que isso nunca seja afirmado categoricamente no texto e que sua identidade varie de conto a conto: ele é um funcionário de escritório em “Incidente na loja”, é apenas um garoto em “Debaixo da ponte preta” e um jovem de vinte anos que reencontra aquela que o ensinou a ler, em “Visita à professora”. O narrador do primeiro conto, que dá título ao volume, para depois dar lugar, na maioria dos demais contos, a um narrador em terceira pessoa distanciado dos eventos narrados, mas sempre muito próximo do protagonista, quando não confundido com ele. Nelsinho é um, o Vampiro, mas também são muitos. A repetição do personagem, que protagoniza todos os contos do volume, isto é, o fato de o livro todo ter um único personagem principal, ainda que desdobrado em muitos Nelsinhos, suscita a comparação com outra das obras mais importantes do autor, A guerra conjugal (1969), em que os personagens João e Maria protagonizam os textos. Neste livro, porém, as figuras masculinas, que se chamam sempre João, e as figuras femininas, as Marias, não têm a mesma coerência do Vampiro, esse personagem-tipo, que apesar das singularidades de cada Nelsinho comportam-se sempre da mesma maneira, em sua voracidade por sexo e sangue. Isso confirma a singularidade do livro de 1965, que por apresentar o mesmo protagonista, em diversas situações, mas com comportamento coerente e recorrente, pode ser tomado como uma espécie de novela fragmentada e multivocal.

Além disso, em O vampiro de Curitiba, temas recorrentes e recursos construtivos que vinham sendo explorados nos livros anteriores do autor ganham condensação, fazendo desse livro um ponto de chegada—provisório—que reúne algumas das características mais fortes do início da trajetória literária de Trevisan: no nível do tema, a ambientação urbana com elementos de sobrevivência do mundo rural; um modelo de sociabilidade de transição da ordem comunitária para uma organização impessoal e anônima; a configuração familiar patriarcal abalada por impulsos perturbadores ou de dissolução; em nível formal, narradores instáveis e fugidios, constituídos por muitas vozes e confundidos com os personagens; aceno se interpelações ao leitor, num jogo de inclusão do leitor empírico no universo da ficção que nunca é explícito, mas, ao contrário, enreda o leitor, muitas vezes desavisado, nessa constituição instável da elocução narrativa.

Lançamento do e-book Dalton Trevisan: uma literatura nada exemplar (Tinta-da-China Brasil)

Data: 12 de junho 
Hora: 18h30
Local: Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin (Cidade Universitária) 
Endereço: Rua da Biblioteca, 21 – Vila Universitária, São Paulo
Valor: gratuito
Transmissão ao vivo pelo YouTube: neste link

Quem escreveu esse texto

João de Mari

É jornalista e editor assistente da Quatro Cinco Um.