Divulgação Científica,
A ciência traz o conhecimento e a literatura, o sentimento, diz Carmen Stephan
A autora de Malária: um romance conversou com estudiosos da doença em evento na Faculdade de Medicina da USP
03ago2026“Uma leitora me falou que lendo o meu livro ela perdeu o medo da morte”, lembrou a escritora alemã radicada no Brasil Carmen Stephan, autora de Malária: um romance (trad. Claudia Abeling). Na manhã de sexta-feira (31), Stephan participou de uma mesa do XI Workshop Doenças Infecciosas e Saúde Global, realizado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP).
Publicado pela Tinta-da-China Brasil, selo editorial da Associação Quatro Cinco Um, o romance parte da experiência pessoal da autora, que contraiu a doença em 2003, numa viagem à Amazônia. Stephan escolheu como narradora a própria fêmea de mosquito anófeles, agente transmissor da malária, que a contaminou.
“Eu não queria escrever uma história de sofrimento. Buscava algo novo, trazer mais camadas para além da posição do paciente. O livro queria ser escrito dessa forma — foi realmente a única perspectiva que funcionou”, contou Stephan. “Consegui falar de mim através desse olhar de fora, que foi como um espelho.”
A escolha inusitada chamou a atenção dos professores Marcos Boulos e Silvia Di Santi e do pesquisador Gabriel Montoia, todos estudiosos da malária na Faculdade de Medicina da USP, que participaram da roda de conversa com a autora. Boulos elogiou a abordagem, lembrando que, apesar de despertar a ira dos enfermos, o mosquito apenas cumpre sua função biológica de sobrevivência.
“Eliminar a malária na Amazônia é uma coisa utópica, porque o mosquito vive aqui. É a casa dele, nós que invadimos. São Paulo, por exemplo, exterminou a malária acabando com as florestas”, disse Boulos, que abriu o debate com um breve histórico da doença no Brasil.
O médico ressaltou que a malária não é mais considerada uma epidemia no país: tornou-se uma sindemia, termo que define o agravamento de uma ou mais doenças devido a problemas socioeconômicos e ambientais. Na região amazônica, hoje marcada pelos efeitos do garimpo ilegal e do tráfico de drogas, os casos de malária somam-se a outros graves problemas de degradação da natureza e da violência contra povos indígenas.
Literatura para conscientizar
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Os professores comemoraram o poder da narrativa literária na conscientização sobre “doenças negligenciadas”, como define Di Santi, que é chefe do Núcleo de Estudos em Malária da instituição.
Boulos chamou atenção para a grande dificuldade que autoridades de saúde enfrentam para dialogar com a população sobre prevenção, mesmo com campanhas massivas na TV e vistorias domésticas. Por isso, a contribuição de profissionais como jornalistas e escritores, que conseguem convencer por meio da escrita e da arte, é essencial para democratizar o conhecimento.
Stephan revelou que o encontro interdisciplinar entre a medicina e sua obra era um desejo antigo que não havia se concretizado na Alemanha quando o livro foi publicado originalmente, em 2012, já que, no país europeu, a malária se restringe a casos de viajantes.
“A ciência traz o conhecimento e a literatura pode trazer o sentimento para que as pessoas consigam imaginar como é a doença e essa experiência”, disse. Na Alemanha, o livro venceu os prêmios Jürgen Ponto-Stiftung de Literatura e Buddenbrookhaus para livro de estreia.
A discussão trouxe à tona a questão do diagnóstico tardio em regiões onde a malária não é endêmica. Na época em que contraiu a doença, a autora vivia no Rio de Janeiro e, após retornar da viagem pela Amazônia, peregrinou por vários médicos e hospitais antes de receber o diagnóstico correto. “A partir desse momento, o tratamento existe e é fácil. Mas muitos médicos não pensam na malária, porque nunca a viram”, explicou Boulos.
Quase morte
Stephan contou que demorou anos para conseguir revisitar a experiência. “Senti pela primeira vez como é estar só. Ainda que estejam cuidando de você, as pessoas não estão no mesmo lugar”, lembrou. “Ao mesmo tempo, tive muita consciência do meu corpo e da luta dele. Achei isso bonito: o corpo era meu melhor amigo fazendo tudo o que podia para enfrentar aquilo.”
Ao longo dos treze dias de manifestação da doença, ela sofreu com fortes alucinações enquanto ardia de febre. “Senti minhas forças acabando e me deu muito medo. Me senti muito pequena e sem poder, mas também senti algum conforto para enfrentar e aceitar a morte quando esse momento chegar”, contou.
Stephen esteve na 24ª Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, que ocorreu de 22 a 26 de julho, quando foi abordada pela leitora que contou ter perdido o medo da morte após ler o romance. Na quinta (23), a autora conversou com Ernesto Mané sobre literatura e traumas pessoais. Já na sexta (24), a autora participou da programação oficial na mesa “Água parada água parada água parando”, ao lado do médico e escritor Drauzio Varella, cujo livro O médico doente inspirou Stephan, e de um bate-papo com Paulliny Tort e Patrícia Ditolvo. A passagem da autora por São Paulo tem apoio institucional do Goethe-Institut.