Crítica Literária,

Encontros com Bataille e Barthes

Autoras de coletâneas sobre erotismo na literatura e de ensaios poéticos falam sobre desejos que não queremos ver, mas que nos constituem

26out2023 - 16h44 | Edição #74

“No Brasil, até a literatura religiosa é pornográfica.” Com essa frase de Mário de Andrade, Eliane Robert Moraes explica sua aproximação com a “parte maldita” da literatura. A expressão cunhada por Georges Bataille foi incorporada ao título do seu livro: A parte maldita brasileira: literatura, excesso, erotismo. “Quando li isso que o Mário escreveu em 1926, achei que era um recado e que eu tinha de fazer minha parte nisso”, disse a autora no lançamento, nesta terça, 24, em São Paulo.

A coletânea reúne dezesseis ensaios que marcam a trajetória da crítica literária sobre a obra de autores como Machado de Assis, Nelson Rodrigues e Hilda Hilst — “a primeira que juntou a metafísica e a putaria”, brincou Robert Moraes, citando Hilst. “Tento explicar no livro por que essa parte maldita não é uma linguagem, um capítulo da história brasileira. É uma sobra, algo que ficou no canto, que alguém jogou no lixo, os estilhaços”, completou. “Aquilo que muitas vezes não se quer ver, mas que também nos constitui.”

Existe um risco no trabalho de autores dessa “parte maldita” da literatura, de acordo com Robert Moraes. “O trabalho que eu faço, além da palavra pornografia, mobiliza a ideia de mal, destruição, de uma liberdade perigosa. A gente clama muito por essa palavra sem pensar no que tem de risco. Autores estavam correndo um risco muito grande”, explicou.

Lançamento da coleção Ensaio aberto no auditório do centro universitário MariAntonia, em Sâo Paulo [Sean Vadaru]

A autora também brincou com os escritores Reinaldo Moraes, autor de Pornopopeia, e Veronica Stigger, que estavam na plateia: “Quando a gente se reúne, é só porcaria. Tem um monte de gente que está aqui que gosta disso”.

A parte maldita brasileira: literatura, excesso, erotismo, de Robert Moraes, junto com Não escrever [com Roland Barthes], de Paloma Vidal, inaugura a coleção Ensaio aberto, que busca aproximar filosofia e literatura.

Fantasias

“E se a gente encontrasse esse tal de Bataille?”, perguntou a filha de Moraes durante uma caminhada pela avenida Teodoro Sampaio, em São Paulo, sobre o autor “maldito” francês Georges Bataille (1897-1962), que ocupa boa parte da obra da mãe. Essa fantasia de um encontro impossível aproxima os dois livros da coleção, segundo Paloma Vidal, autora de Não escrever [com Roland Barthes].

Descrito pela autora como um ensaio poético, o livro traz textos produzidos nos anos 2010 a partir de sua pesquisa em torno de Roland Barthes. O ponto de partida foi o último seminário do crítico francês, “A preparação do romance”, sobre o livro que ele não concluiu, Vita nova.

“Barthes não escreveu esse romance, morreu pouco depois de ser atropelado num acidente. Não fazer esse livro deixou uma pergunta para mim, sobre tudo o que ele estava escrevendo enquanto não estava escrevendo [a obra]”, disse Vidal. “A ideia de inacabamento foi um guia nesse percurso.”

A outra inspiração para o livro, contou a escritora, foi a convivência com o autor e sua obra. “Como começou isso de eu me fantasiar de Barthes?”, pergunta que está na orelha do livro, feita pelo editor e crítico literário Schneider Carpeggiani, resume a proximidade com o objeto de estudo que, para Vidal, atravessa o pesquisador. “Vai se criando uma relação que envolve filhos, terminar relacionamentos, começar outros, é intenso em vários sentidos”.

Num dos textos, Vidal imagina como teria sido uma visita de Barthes a São Paulo, a partir da correspondência entre a crítica literária Leyla Perrone-Moisés e o francês, numa tentativa frustrada de trazê-lo ao Brasil. “O livro me deu essa possibilidade, a liberdade de transformá-lo num personagem. Barthes foi muito retratado, fazia a ficção de si mesmo. Acho que ele teria gostado”, disse ela.

O título da coleção, Ensaio aberto, remete ao último ensaio de uma peça antes de sua estreia, disse Tatiana Salem Levy, cocoordenadora da coleção. O tema está presente também no livro de Paloma Vidal, que reúne algumas palestras-performance apresentadas num ciclo chamado “Em obras”, em que autoras da literatura e das artes exibiram suas obras em processo. Parte das performances pode ser acessada por meio de QR codes no livro.

Coordenador da coleção no Brasil, Pedro Duarte contou que a parceria deve se desdobrar em outros livros, sempre buscando “honrar o gênero ensaio como um exercício de experimentação teórica”.

Ensaio aberto

A parte maldita brasileira: literatura, excesso, erotismo, de Moraes, e Não escrever [com Roland Barthes], de Vidal, são os dois primeiros títulos da coleção, uma parceria das universidades NOVA de Lisboa e PUC-Rio e das editoras Tinta-da-China, em Portugal, e Tinta-da-China Brasil (selo editorial da Associação Quatro Cinco Um).

Depois da conversa, as escritoras autografaram exemplares dos livros. Na próxima segunda, 30, autoras e coordenadores da Ensaio aberto estarão no Rio de Janeiro para um debate na PUC-Rio e o lançamento dos títulos.

Quem escreveu esse texto

Amauri Arrais

É jornalista e editor da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #74 em setembro de 2023.